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histórias da ilustração portuguesa

Casas assombrosas

São o refúgio matricial, o lar sagrado da família, mas também o palco de segredos e crimes inconfessáveis. Têm um ar inquietante, sobrenatural, com os seus dois a três pisos, telhados íngremes de várias águas e altas empenas, quando não mesmo torres, que lhes conferem um ar acastelado. Os casarões assombrados foram um must nas capas de livros policiais e de mistério dos anos quarenta e cinquenta, e sinalizaram a crescente complexidade do policial dedutivo de origem inglesa, conferindo uma espessura dramática que as capas sangrentas e anedóticas dos toscos policiais dos anos trinta não tinham. Integraram frequentemente notáveis coleções, como a Escaravelho de Ouro, a Xis e a Vampiro, começadas sob o advento do surrealismo nos finais da década de quarenta. Não pertencendo a coleções policiais, os exemplos apresentados são de obras primas de ficção cujos títulos ou enredos sugerem os géneros de mistério ou suspense. As ilustrações das capas medeiam entre 1940 e 1959, realizadas por um suíço que chegou a Portugal em 1924 e transformou para sempre o panorama das artes gráficas portuguesas, da publicidade à decoração, da tipografia ao cartaz. As capas de Fred Kradolfer (Zurique, 1903 – Lisboa, 1968) para os livros do poeta António Botto nas Edições Paulo Guedes ou a curiosa obra Oh Chico… Não Sejas Azelhudo, para O Volante, resumiam nos anos trinta o modernismo art deco que tanta influência teve na comunidade gráfica da época. Em Os crimes da Rua Morgue, para a Biblioteca de Algibeira da Portugália, de 1943, Kradolfer aplica no casarão as sombras dramáticas que a impressão a cores planas potencia. Para O Garden Party dos Contos Universais da Portugália, já de 1959, o casarão é um jogo de dominó cromático quase abstrato. Mas as suas intrigantes casas dos Romances Sensacionais da editora Portugália ou O Monte dos Vendavais da Editorial Inquérito, da década de quarenta, manifestam outras premissas estéticas. Entre o modernismo decorativo dos 30 e o surrealismo dos 50, estas ilustrações pictóricas suavizaram na forma na cor a geometria agressiva da década anterior, revelando a sua faceta de pintor de cavalete, pela qual Kradolfer era bastante apreciado.

Haunted houses

They are the quintessential refuge, sacred family hearths but also the settings of dark secrets and crimes. There’s an uneasy, supernatural air about them.  They are two- or three-storey buildings with steep roofs with an assortment of rain gutters and high gables, or even towers, which make them look like castles. This style of house was an absolute must on any crime and mystery book cover in the 1940s and 1950s.  It signalled the growing complexity that was providing British detective fiction dramatic depth, something that had been absent in the ludicrous, blood-splashed covers of the crude crime books of the 1930s.  Houses of this kind would often appear in remarkable collections, such as Escaravelho de Ouro, Xis and Vampiro, that were launched at the end of the 1940s with the start of Surrealism. Though not included in detective book collections, the examples shown here are masterpieces of fiction with titles or plots suggesting that they are mystery novels or thrillers. Their cover illustrations date from between 1940 and 1959 and were created by a Swiss artist who had arrived in Portugal in 1924 and changed Portuguese graphic arts forever, whether publicity, decoration, typography or posters.  Covers by Fred Kradolfer (Zurich, 1903-Lisbon, 1968) for the Edições Paulo Guedes books by the poet António Botto and the strange Oh Chico… Não Sejas Azelhudo for O Volante, epitomise the very modern Art Deco of the 1930s that so greatly influenced graphic artists then. For Os crimes da Rua Morgue in the 1943 Portugália publishers pocket-book collection, Kradolfer used the dramatic shading that plain colour printing allowed. In O ‘Garden Party’, which came out in 1959 in Portugalia’s Contos Universais, the mansion is a chromatic, almost abstract game of shapes. But his fascinating houses in Portugália’s Romances Sensacionais and then the Editorial Inquérito edition of O Monte dos Vendavais [Wuthering Heights] in the 1940s put forward other aesthetic premises. Between the decorative modernism of the 1930s and Surrealism of the 1950s, these illustrations soften, in form and colour, the hard geometric edges and lines of the previous decade, and show Kradolfer to be the much-admired easel painter that he really was.

Fontes Sources

Fred Kradolfer, Coleção D, Imprensa Nacional-Casa da Moeda, 2012

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