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histórias da ilustração portuguesa

Ofélia

panorama 12

Foi a obsessão de toda uma vida, no desenho, na pintura e na ilustração, a representação do universo infantil e adolescente, sobretudo feminino. Que se confundiu com uma exacerbada sensibilidade ou gosto feminino, estigma fácil para a crítica das artes na época. Assim Ofélia Marques (Lisboa, 1902-1952) construíu a sua marca na ilustração portuguesa, representando uma infância tão graficamente presente como emocionalmente distante. No traço duro e rápido das décadas de vinte e trinta, ou nas complexas e suaves composições dos anos quarenta, segue Ofélia de muito perto os registos do marido, Bernardo Marques, beneficiando claramente da direção artística dos projetos editoriais que cabiam a Bernardo, artista gráfico maior do seu tempo. Em várias publicações se cruzaram, como na efémera revista Casino, Semanário de Elegâncias e Arte, editada em 1928 pelo Casino do Monte Estoril. Aí Ofélia teceu amáveis ilustrações para contos e sequências narrativas da rubrica Matinée Infantil da escritora Graciette Branco, enquanto Bernardo parodiava os janotas a banhos, chegando mesmo aos extremos satíricos que absorvera da sua recente estadia na Alemanha. Até meados dos anos trinta, Ofélia desdobra-se em revistas infanto-juvenis, como o ABC-zinho, Pim-Pam-Pum e O Senhor Doutor, e ilustra um esporádico volume da célebre Biblioteca dos Pequeninos, Aventuras de Cinco Irmãozinhos.

Aventuras de Cinco Irmãozinhos, Rosa Silvestre (Maria Lamas), Biblioteca dos Pequeninos n.º 34, Empreza Nacional de Publicidade, 1931

Aventuras de Cinco Irmãozinhos, Rosa Silvestre (Maria Lamas), Biblioteca dos Pequeninos n.º 34, Empreza Nacional de Publicidade, 1931

Gradualmente, o traço de Ofélia adoça-se, a composição ganha detalhe e a anatomia fica mais realista. Ao contrário da maior parte dos seus companheiros da segunda geração modernista, Ofélia não praticou a sátira, ou mesmo a paródia complacente, que podemos encontrar na obra de Bernardo Marques. Pelos anos quarenta, Ofélia deixa as revistas infanto-juvenis e aparece esparsamente na Panorama, Litoral, Ver e Crer, Eva e Atlântico, aproveitando também a cumplicidade e proximidade do casal Ferro, António e Fernanda de Castro, vizinhos no mesmo prédio, no Bairro Alto. A meio da década, Ofélia ilustra dois interessantes livros. Em 1945, Mariazinha em África, e em 1947, No Reino do Sol, de Emília da Sousa Costa, onde revela uma rara faceta de animalista, poupando a bicharada da floresta ao cartune e à comédia humana. Em 1959, as Edições Ática reeditam Mariazinha em África, verdadeiro bestseller da literatura infantil, que nas edições iniciais dos anos vinte e trinta tinha sido ilustrada por Sarah Afonso. As ilustrações deste livro de Fernanda de Castro decalcam as da edição de 45 da Portugália, mas apresentam um desenho mais detalhado e suave, irradiando maior claridade. Esta edição póstuma tem uma particularidade fascinante, a justaposição displicente de manchas em cores pastel, verde, cinza, rosa e amarelo sobre o traço negro, de uma rara subtileza na ilustração da época.

O barroco e o romântico são expressões da mesma constante histórica, Hernâni cidade, Litoral n.º 6, janeiro-fevereiro 1945

O barroco e o romântico são expressões da mesma constante histórica?, Hernâni Cidade, revista Litoral n.º 6, janeiro-fevereiro 1945

Uma rapariga vulgar, Rachel Bastos, Atlântico n.º 2, 1942

Uma rapariga vulgar, Rachel Bastos, revista Atlântico n.º 2, 1942

Lisboa, meu cais-saudade, Maria da Graça Azambuja, Panorama n.º 32 e 33, 1947

Lisboa, meu cais-saudade, Maria da Graça Azambuja, revista Panorama n.º 32 e 33, 1947

A Literatura da Infância, Adolfo Simões Müller, Panorama n.º 22, Natal 1944

A Literatura da Infância, Adolfo Simões Müller, revista Panorama n.º 22, Natal 1944

Revista Ver e Crer n.º 27, julho 1947

Revista Ver e Crer n.º 27, julho 1947

Ofélia Marques, No reino do Sol 1

Ofélia Marques, No reino do Sol 2

Ofélia Marques, No reino do Sol 7

No Reino do Sol, Emília de Sousa Costa, Edições Ática, 1947

No Reino do Sol, Emília de Sousa Costa, Edições Ática, 1947

Ofélia Marques, Mariazinha 61959

Ofélia Marques, Mariazinha 11, 1959

Ofélia Marques, Mariazinha 15, 1959

Ofélia Marques Mariazinha, 19 1959

Mariazinha em África, Fernanda de Castro, Edições Ática, 1959

Mariazinha em África, Fernanda de Castro, Edições Ática, 1959

Mariazinha em África, Fernanda de Castro, Portugália Editora, 1945 / Edições Ática, 1959

Mariazinha em África, Fernanda de Castro, Portugália Editora, 1945 / Edições Ática, 1959

Ofélia suicida-se em 1952, e a sua perda fica marcada no comovente prefácio do livro Infância de que Nasci, de Natércia Freire, editado em 1957. O livro inclui três textos previamente publicados na revista Panorama, em 1944 e 1946, ilustrados por Ofélia. Natércia lamenta a ausência da cúmplice, sublinhando a coincidência dos olhares da ilustradora e da escritora que, ironicamente nunca se encontraram físicamente. (texto reproduzido na íntegra no Index do Almanaque).

Ofélia Marques, Infância de que Nasci 1, 1957

Infância de que Nasci, Natércia Freire, Portugália Editora, 1957

Viagens na minha infância, Natércia Freire, Panorama n.º 30, 1946 / Infância de que Nasci, 1957

Viagens na minha infância, Natércia Freire, revista Panorama n.º 30, 1946 / Infância de que Nasci, 1957

Balada do jardim diferente, Panorama 35, 1948 / Infância de que Nasci, 1957

Balada do jardim diferente, revista Panorama 35, 1948 / Infância de que Nasci, 1957

Ofélia

Her lifelong obsession – in her drawings, paintings and illustrations – was the representation of the world of children and adolescents; it was, above all, a feminine one that interwove with an acute feminine sensibility or taste, so easily targeted and stigmatised by art criticism of the time. Ofélia Marques (Lisbon 1902-1952) made a mark in Portuguese illustration by depicting childhood as graphically present as it was emotionally distant. With her rapid hard line drawing style in the twenties and thirties and her complex and polished compositions in the forties, Ofélia closely followed the work of her husband, Bernardo Marques, and clearly benefitted from the artistic direction of the editorial work assigned to Bernardo, the greatest graphic artist of his time.

Ofélia’s style gradually grew softer, her compositions gained in detail and anatomy grew more realistic. Unlike most of her fellow artists among Portugal’s second generation modernists, Ofélia didn’t do satire or even gentle mockery, so clearly evident in Bernardo Marques’ work. In the mid-forties, Ofélia illustrated two interesting books: in 1945, Mariazinha em África and in 1947, No Reino do Sol by Emília da Sousa Costa, which revealed uncommon animalistic qualities that prevented these forest creatures from becoming cartoon-like animals in a human comedy. Edições Ática re-published Mariazinha em África in 1959, a children’s literature bestseller that had first come out in the twenties and thirties with illustrations by Sarah Afonso. The illustrations for Fernanda de Castro’s book copy those of the 1945 Portugália edition, but they are more detailed and polished and provide greater clarity. There’s a fascinating peculiarity to this posthumous edition. It’s the loose juxtaposition of pastel stains in green, grey, rose and yellow over black lines, which produced exceptional subtlety in illustration of that time.

Ofélia committed suicide in 1952 and her loss is lamented in the moving preface of Infância de que Nasci by Natércia Freire and published in 1957. It includes three texts that had previously appeared in Panorama magazine in 1944 and 1946 with Orfélia’s illustrations. Natércia mourns the death of her collaborator in this book and highlights the shared sensitivities of illustrator and writer, who, ironically,  had never actually met.

 

As ilustrações foram restauradas digitalmente The illustrations were digitally restored
Fontes Sources
http://montalvoeascinciasdonossotempo.blogspot.pt/2011/02/ofelia-marques-ela-visita-se-revisita.html
Dicionário dos Autores de Banda Desenhada e Cartoon em Portugal, Leonardo de Sá e António Dias de Deus, Edições Época de Ouro, 1999

Filed under: Ofélia Marques,

One Response

  1. justwiseup diz:

    Não conhecia. Gostei muito deste post, obrigada pela partilha!

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