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histórias da ilustração portuguesa

As noites longas de Manuel Ribeiro de Pavia

Alentejo não tem sombra, Eduardo Teófilo, Portugália Editora, 1954

Noite dentro, uma figura franzina e de sorriso amargo recolhia ao seu quarto numa modesta pensão da Rua Bernardim Ribeiro, em Lisboa e, muitas vezes tendo como jantar apenas um copo de leite, sentava-se ao estirador a encher papéis de sonhos e ilusões. Que desenhava o artista nas folhas que acabavam invariavelmente nas vastas gavetas da cómoda, algumas delas laboriosamente retocadas para ilustrar capas de livros de poetas e prosadores amigos? A dura faina das gentes do mar e do seu Alentejo natal, ceifeiros e ceifeiras orgulhosos e expectantes à sombra de nodosas azinheiras. E mulheres! As mulheres que Manuel Ribeiro de Pavia (Pavia, 1907-Lisboa, 1957) nunca teve, mães e companheiras, a esconder fome e sede de amores que a infância sofrida e a vagabundagem pela cidade lhe negaram. Desenhou-as às centenas, a lápis, carvão ou aguarela, sempre sobre papel. Corpos redondos e maciços, lábios carnudos, pés e mãos de gigante, olhos líquidos presos no leitor, a povoar a solidão do quarto e da vida. São neorrealistas, sim, pelo seu momento histórico, mas de um Neorrealismo lírico, sem sombra de pecado, povoando a literatura de uma geração inteira que partilhava com o artista o sonho dos amanhãs que cantam.

Alentejo não tem sombra, Eduardo Teófilo, Portugália Editora, 1954

O pecado invisível, Patrícia Joyce, Editora Sociedade de Expansão Cultural, 1955

Agonia, Manuel do Nascimento, Editora Sociedade de Expansão Cultural, 1954

Dádiva, Luís Amaro, Portugália Editora, 1949

Revista Ecos, Instituto Pasteur, 1957

Ilha Deserta, António de Sousa, Editorial Inquérito, 1954

Alvorada, Manuel Mendes, Editora Sociedade de Expansão Cultural, 1956

Neblina, César dos Santos, Editora Sociedade de Expansão Cultural, 1956

Revista Ver e Crer 48, abril 1949

As ilustrações foram restauradas digitalmente

Fontes

Pavia, Câmara Municipal de Mora, 2007

Revista Vértice n.º 164, maio 1957

Ilustração & Literatura Neo-Realista, catálogo, Museu do Neo-Realismo, 2008


Filed under: Manuel Ribeiro de Pavia, ,

3 Responses

  1. Pedro Amaral diz:

    quem teve um Pavia teve tudo a beleza é inacreditável! e o almanaque lá vai andando por muito boas águas….

  2. […] numa cruel mas lógica ironia, morreu na miséria em 1957 (leia-se o excelente texto sobre ele no Almanaque Silva). Apesar de falhas mais ou menos evidentes e graves (as capas na secção das Monografias não […]

  3. Luis Silva diz:

    Tenho em meu poder 4 dessas obras de “mulheres de corpos redondos e maciços, lábios carnudos, pés e mãos de gigante”, de Pavia, verificando-se no verso das mesmas esboços a lápis executados pelo autor.

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