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histórias da ilustração portuguesa

Em flagrante delírio

Os night clubs são os lugares de eleição dos loucos e felizes anos 20, após a recessão imediata à Primeira Guerra Mundial. A inflação galopante, o florescente mercado negro e a especulação eram o caldo de cultura de uma sociedade nova-rica, ostentatória e frenética. A música das jazz-band, o charleston, o sexo e a cocaína davam a vertigem às noites que só acabavam de dia, atraindo até a cobiça de bandos criminosos como a Legião Vermelha. Havia o Maxim’s, instalado no imponente Palácio Foz à Praça dos Restauradores. Havia o Avenida Parque, mais acima, no Palácio Mayer da Avenida da Liberdade. E o Clube dos Patos, no Largo do Picadeiro. E alguns mais, todos compreendidos na estreita área entre o Chiado e a Avenida. E o mais moderno de todos, o Bristol Club, que ostentava nas suas paredes o escol dos artistas modernos, com a Pintura Decorativa de Nu de Almada Negreiros logo à entrada. A modernidade do Bristol refletia-se também na inovadora campanha publicitária que fez nas capas do Magazine ABC em 1927.

A maior parte das publicidades ficou nas mãos de Jorge Barradas (Lisboa, 1894-1971). São as melhores capas do ilustrador, que numa longa colaboração iniciada em 1920, fecha com esta série a ilustração cosmopolita e moderna no ABC. A partir de 28, sucedem-se os campinos, as saloias e as fotografias das vedetas do cinema, acompanhando o declínio da revista, numa agonia pró-regionalista que se fina em 1931. Barradas é o mais estimado dos modernistas dos anos 20. Ilustrador predestinado das elegâncias lisboetas, Barradas vai ensaiando ao longo da década a fusão entre o oitocentismo naturalista e o modernismo decorativo e citadino. Enquanto pinta varinas, saloias, mendigos e bêbados, assina também estas feéricas ilustrações para o Bristol Club. Papillons roliças, apanhadas em flagrante delírio, voltam a cabeça para o leitor, afetando poses lânguidas e falsos pudores. Todos os recursos gráficos (e também a ternura) de Barradas se aprimoram nestes rostos de patética humanidade, girls perdidas nas loucas madrugadas dos night clubs lisboetas.


ABC 353, 21 Abril 1927

ABC 358, 26 Maio 1927

ABC 361, 16 Junho 1927

ABC 362, 23 Junho 1927

ABC 371, 25 Agosto 1927

ABC 374, 15 Setembro 1927

ABC 383, 17 Novembro 1927

Fontes:

Os Night Clubs de Lisboa dos anos 20, Júlia Leitão de Barros, Lucifer Edições, 1990

Jorge Barradas, António Rodrigues, Imprensa Nacional-Casa da Moeda, 1995

Ilustração em Portugal I, Theresa Lobo, IADE Edições, 2009


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