Em 1950 saía uma nova coleção de romances policiais, a Xis, da Editorial Minerva. O primeiro número, Um crime branco, de James Marcus, era na realidade escrito por dois autores portugueses, J. P. Fernandes e A. Fernandes, creditados no livro como tradutores. Para uma ilusão perfeita, a editora inventou mesmo um título original para o romance: White Murder. Sem abandonar o policial dedutivo inglês, a Xis vulgarizou o policial negro americano, género dominante em coleções posteriores. Havia um traço comum entre as mais emblemáticas coleções policiais de bolso iniciadas nos últimos anos de 40. A Escaravelho de Ouro, também em 1950, a popularíssima Vampiro e a Xis iniciaram-se sob a influência gráfica do Surrealismo. Cândido Costa Pinto, figura de topo do movimento surrealista, pontificava nas famosas capas da Vampiro e da Argonauta (lendária coleção de ficção científica) ambas da editora Livros do Brasil.
Fiel à tradição pictórica, a ilustração surrealista era um compósito de várias pedaços do enredo, ora descritivos ora metafóricos, assumindo o cariz de um enigma ilustrado. O surrealismo gráfico nobilitou o subestimado género policial e substituia as capas das coleções mais antigas, onde a figuração do crime de sangue era geralmente explícita. Edmundo Muge (Abrantes, 1925-Lisboa, 1984), foi capista habitual da Minerva em coleções de variados géneros e ilustrou a Xis durante 202 volumes. Casarões sinistros, máscaras humanas de puro terror e objetos vulgares combinam-se numa inquietante charada, que no volume O táxi amarelo, de 1953, é literalmente o pesadelo recorrente da protagonista e motor do enredo. O surrealismo de Muge desvaneceu-se ao longo da década e, passada a primeira centena de títulos, em 1958, fixa-se numa mais convencional figuração narrativa. Após um interregno de 13 anos, a coleção voltaria em 1986, numa segunda série a começar no número 203, mantendo o antigo grafismo e ilustrações do novíssimo Jorge Colombo. Extinguiu-se de vez ao número 210, em 1993.
- N.º 8, Morte entre amigos, Lange Lewis, 1951
Fontes
Crimes de bolso, texto de Luís Miguel Queirós, Pública, jornal Público, 12 setembro 2010
O caso do policial português, catálogo, org. Luís Sá e Manuela Rego, Câmara Municipal de Lisboa, 1998
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Provavelmente essa tradição de autores nacionais escreverem sob pseudônimo de autores norte-americanos deve ser anterior a 1950, já que o artifício existia também no Brasil. Não tenho, no momento, dados sobre o assunto, mas lembro autor que escrevia muito mais que Balzac, um romance policial por semana, fechado num quarto de hotel, prova de demanda. Eram fato comum também as histórias de faroeste, em sequência às novelas radiofônicas, anteriores e mais chamativas à imaginação do que a TV (inesquecível a batida de metades de cascas de coco, imitando cavalgadas!). Será que foi daí que retiraram a ideia da globalização? (Outra chateação ideosincrásica: a wikipedia registra ideia e idéia – será que é sinal de que essa reforma sobre a qual não pediram nossa ideia/idéia está balançando?)
viva!!!espero que tudo corra bem nesta tua missão, muito bem escrita,uma autêntica história da ilustração portuguesa.
os muges essa raça de sangue na guelrra agradeçem-te com emoção. depois de muitos anos algum reconhecimento desta época do meu grande avô edmundo muge e do início da sua carreira.
abraço mestre silva
paulo muuuge
Para o Paulo Muge e Jorge Silva os meus parabéns por ambos serem criativos e divulgarem o seu talento. Um na fotografia e outro em várias coisas.
Abraço
Luísa
[…] Jorge Silva in Almanak Silva […]
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