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histórias da ilustração portuguesa

Back to basics

Amor de Perdição, Camilo Castelo Branco, 2008

A ilustração editorial de encomenda anda pelas ruas da amargura. A austeridade orçamental sempre teve olho guloso para excedências como a ilustração, e a massificação dos bancos de imagem fotográfica tornaram-se uma tentação irresistível para editores e designers com rédea curta no orçamento. Mas as crises são também tempo para novas oportunidades. Se muitos dos formatos convencionais de ilustração estão em declínio, outros florescem contaminando e fundindo-se numa boa parte do design contemporâneo. Os designers regressam à ilustração, integrando-a na sua produção corrente, rebelando-se contra a frieza e previsibilidade do computador na comunicação gráfica. Outras razões para o retorno dos designers-ilustradores podem encontrar-se na pertinência contemporânea do desenho nas artes plásticas e na assimilação pelo mainstream da street art e da informalidade dos seus registos gráficos. Em síntese, poderíamos falar de uma democratização quase viral: a ilustração pode hoje ser praticada por todos e para todos, mesmo sem o pressuposto da impressão em série.

Rui Belo (Lisboa, 1980) funde imagem e grafismo como o faziam os designers-ilustradores como Victor Palla e António Garcia. Tal como eles, Belo não tem uma identidade autoral no traço das suas ilustrações. O designer exercita a tinta da china ou a grafite sobre o papel, a traço fino ou grosso, absorvendo a rudeza do suporte ou adicionando texturas sampladas digitalmente em várias camadas. Ao applicar os layers directamente no software de paginação, replica os antigos papéis vegetais usados pelos artistas dos anos cinquenta e sessenta do século passado. Nos cartazes do Teatro São Luiz, ou nas capas da Coleção BIS, editada pelo Grupo Leya, que aqui nos ocupam, Belo constrói preciosas imagens de uma grande qualidade plástica, em sóbrio preto e branco pontuado a cor, marca inicial da coleção. As imagens de síntese ampliam a qualidade metafórica e o impacto visual, atributos do aguçado engenho conceptual e oficinal do designer, e mantêm-se nas ilustrações a cor, mais recentes. As capas da BIS encerram essa preciosa virtude que é a de serem todas diferentes e, ainda assim, serem todas iguais, capazes de conservar uma ideia de conjunto (paradigma clássico do capismo). Esta nova demanda pela diferenciação e espetacularidade é hoje um requisito fundamental para a indústria do livro, que atravessa uma profunda crise de identidade e sustentabilidade comercial.

A Montanha da Água Lilás, Pepetela, 2008

Nas tuas mãos, Inês Pedrosa, 2009

Novos Contos da Montanha, Miguel Torga, 2008

A confissão de Lúcio, Mário de Sá-Carneiro, 2008

Alice no País das Maravilhas, Lewis Carroll, 2008

Contos da Montanha, Miguel Torga, (rejeitada), 2010

O príncipe e o pobre, Mark Twain, 2010

Filed under: Coleção BIS, Rui Belo, ,

2 Responses

  1. Muito bom. A nossa civilização evolui sobre o que herdamos e os livros vivem para além de nós, farão parte dessa herança. Para o livro ser leleito para ficar, permanecer terá de ser inteiro não se podendo construir só de palavras – o tacto e a visão devem ser despertados antes do acto racional da leitura – a impressão, o suporte, a tipografia e a ilustração estão lá antes das palavras. É esta a sua mais valia senão iguala-se a qualquer meio de transmissão de texto.

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