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histórias da ilustração portuguesa

Luz dos meus olhos

O milagre de Deu-La-Deu, do livro Brisa dos Tempos Idos, de Adelino Peres Rodrigues, 1957

Não houve outros olhos assim na ilustração portuguesa. Olhos líquidos, transparentes, famintos de amor e de justiça, varados pela fé e por manso sofrimento. São os olhos de Júlio Gil (Lisboa, 1924-2004), ilustrador e capista privilegiado da poesia atormentada da Sociedade de Edições Culturais; da desilusão amorosa dos livros light da União Gráfica e da Biblioteca das Raparigas da Editora Portugália; do arrebatamento místico dos Quadros do Evangelho do Camarada, revista de quadradinhos da Mocidade Portuguesa; da exaltação patriótica dos jornais da mesma organização; da gesta histórica portuguesa em livros oficiais e oficiosos; e do jovem boxeur Chico, detetive amador nascido nas páginas do Camarada e autonomizado em coleção juvenil da Editora Pórtico.

Olhemos de perto. O que torna estes olhos tão humanos e especiais são apenas dois ou três traços rápidos e assimétricos que o ilustrador risca no papel, ao invés de desenhar redondas e convencionais pupilas. São olhos claros, que noutras mãos seriam de cor, e aqui apenas espelho de emoções. Gil desenhou outros olhos, maliciosos e violentos, em preto fechado, outros ainda em branco total, cegos de loucura, como na poesia de Domingos Monteiro. Contemporâneo de alguns dos mais preciosistas ilustradores portugueses como Fernando Bento, Manuel Lapa ou Luís Filipe de Abreu, Júlio Gil traçou um percurso exemplar com o seu singelo traço filiforme, aplicado em registo sintético ou em camadas densas de óbvias propriedades cinéticas, ajustando-se naturalmente a narrativas de forte intensidade física e emocional. Tão descritivo e, ainda assim, tão capaz da metáfora e da paixão. Não houve outros olhos assim…

Mãe e Filho, Alma Encantada-III, de Romain Roland, Editora Portugália, s.d.

Os herdeiros, de Suzanne Clausse, Editora União Gráfica, Coleção Feminina n.º 5, s.d.

O mundo de Cristina, texto de Natércia Freire, revista Panorama n.º 5 III Série, Março de 1957

História de um presente, jornal Camarada n.º 26, 26 Dezembro 1964

Curva na estrada, revista Fagulha n.º 50, 1 fevereiro 1960

Contraluz, de Odette de Saint-Maurice, Editora Portugália, 1955

Chico e o ídolo, de Júlio Gil, Editorial Pórtico, Coleção Aventuras do Chico, s.d.

Lições de abismo, de Gustavo Corção, Editora SET, s.d.

Telegrama Pax, edição dos CTT, s.d.

Histórias do mês de outubro, de Domingos Monteiro, Editora SEC, 1967

Marés vivas, de Luiza Manoel de Vilhena, Editora SEC, 1968

A cura do cego Bartimeu

À beira da estrada estava sentado um ceguinho chamado Bartimeu, que pedia esmola.

Ouvindo muitas vozes quis saber o que tinha acontecido.

— É Jesus da Nazaré que vai a passar – disseram-lhe.

Jesus da Nazaré?! O homem espantoso que curava os paralíticos, ressuscitava os mortos, perdoava aos pecadores e dava vista aos cegos?!…

Bartimeu ficou cheio de esperança, e juntando as mãos, gritou com toda a força da sua alma:

— Jesus, Filho de David, tem compaixão de mim!

Os que passavam bem o mandavam calar para que não importunasse o Mestre com as suas lamúrias, mas Bartimeu repetia com muita fé, e cada vez mais alto:

— Jesus, Filho de David, tem compaixão de mim!

Jesus ouviu-o e parou. Depois pediu que Lho trouxessem.

Ao saber que Jesus o chamava, o cego ergueu-se de um salto e correu para Ele. Jesus perguntou-lhe:

— Que queres que eu te faça?

— Senhor, faz com que eu veja — pediu o cego fervorosamente.

— Vê. A tua fé te salvou — disse Jesus.

Imediatamente Bartimeu recuperou a luz dos olhos e seguiu Jesus, dando graças a Deus pelo milagre. E quantos presenciaram a cura do cego de Jericó davam também louvor e glória a Deus.

Quadros do Evangelho, Jornal Camarada n.º 3, 8 de Fevereiro de 1964

As ilustrações foram restauradas digitalmente

Filed under: Júlio Gil, , ,

4 Responses

  1. Pedro Amaral diz:

    continua o teu trabalho notável, a mostrar-nps coisas belíssimas…

  2. Pedro Amaral diz:

    tou a roubar bué…

  3. Leandro de Moraes Sarmento diz:

    Sou um admirador e advogado incondicional de Júlio Gil há mais de 60 anos. Mas nunca atingi uma expressao de maravilhamento tão inspirada como a sua. Fico a ser um seu fiel leitor.Porventura conhece já a vasta colaboração de J. Gil nos livros didácticos de Virgílio Couto ? Diga-me qualquer coisa.

  4. Parabéns pelo excelente trabalho.
    Rui Picarote Amaro – Foz do Douro

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