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histórias da ilustração portuguesa

A mosca tsé-tsé

Os intrépidos colonos da metrópole que demandavam as antigas colónias de África em busca de uma nova vida, deparavam-se com desafios e perigos tremendos. Clima, fauna e flora luxuriantes escondiam perigos a que a brancura da pele e da alma não conferiam defesa eficaz. O Estado Novo tinha desvelos maternais para com estes aventureiros do século XX, propiciando informação detalhada sobre cuidados e práticas consentâneas com as novas paragens. Publicado em 1963, Ensinamentos Para Conservar a Sua Saúde nas Terras de Além-Mar é um espetacular manual escrito por um especialista em higiene tropical, Francisco Freire, onde se previnem as picadas de moscas e mosquitos, serpentes, escorpiões e doenças temíveis como a bilharziose, a doença do sono, a anquilostomiase, o escorbuto, o béribéri, a pelagra, a disenteria amebiana, a malária e a febre recorrente.

O encargo do design e ilustração calhavam bem a um ex-enfermeiro da Companhia Colonial de Navegação, em serviço a bordo do cargueiro Benguela, que ocupava os seus monótonos tempos livres desenhando o esboço de um brilhante futuro na publicidade comercial. Em 1953, com 30 anos, abandona a CCN, ilustra jornais de Angola e Moçambique e constrói a carreira de realizador de animação a partir de um auto-proposto filme para os rebuçados Heller. Na sua primeira encomenda, para os sabões Sonasol, conta a história de um urso pardo pouco à vontade no meio de ursos polares. O uso do sabão traz, obviamente, a solução do problema. Realizou obra numerosa durante três décadas, de onde se destacam as campanhas para os colchões Molaflex, cafés Tofa e Laranjina C.

Mário Neves (1923-2007) já era um autor consagrado no início dos anos sessenta e o seu apurado instinto para a comunicação publicitária foi essencial neste livro. Neves usa variados registos, do cartoon cómico à banda desenhada, passando pelos cenários estilizados em cores planas tão ao gosto da animação e ilustração da época. As frases concisas do texto são sequenciais, grafadas em maiúsculas, e encaixam numa infinita variedade de motivos geométricos e figurativos que Neves concebe com economia quase sinalética. Não há duas páginas iguais mas o livro tem uma absoluta e rara coerência e eficácia em todas as suas 135 páginas impressas a cinco cores diretas, onde reflete a excelência da medicina tropical portuguesa e a competência da propaganda oficial, em edição da Repartição de Povoamento da Direcção-Geral de Economia do Ministério do Ultramar. Tanta precaução contra as maleitas exóticas foi inútil contra as catanas e fuzis que por esse ano de 1963 aterrorizavam os colonos de Angola e Guiné e marcaram os primeiros anos de uma sangrenta e traumática guerra colonial.

O livro foi cortesia do livreiro alfarrabista Luís Gomes. As informações biográficas foram facultadas pelo filho do ilustrador, Mário Jorge Neves.

As ilustrações foram restauradas digitalmente. São reproduzidas as páginas 5, 7, 20, 37, 44, 52, 102, 127, 131 e capa.

Filed under: Mário Neves,

5 Responses

  1. E depois disso vou enviar jovens americanos la do outro lado do Atlantico? brrrrr, http://unspoiled-africa.blogspot.com/

  2. Eduardo Carvalho diz:

    Muito interessante. Seria possível, colocar outras obras do autor?

  3. Gisela Miravent diz:

    Uma maravilha. Obrigada por divulgar, Jorge.

  4. Miriam diz:

    Que ilustrações lindas!

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