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histórias da ilustração portuguesa

Motoristas de domingo

Automóveis, comboios, aviões e navios jogaram um papel substancial na revolução social dos anos 20 e 30 do século XX. O Modernismo glorificou a máquina numa vertigem de velocidade e cosmopolitanismo fundamentais para transformar uma sociedade essencialmente rural e oitocentista. Sonho e símbolo de poder, o automóvel conheceu por estes tempos imparáveis progressos técnicos. Se a natureza da máquina se aproximava da perfeição, o mesmo não se podia dizer da resiliente natureza humana. Os chauffeurs e mecânicos de automóveis portugueses, então, pareciam refinar na preguiça, indisciplina e manha com que cuidavam das suas máquinas e, em sequência, dos seus clientes. Em 1933, o mestre do Curso de Mecânica de Automóveis das Escolas Industriais, A. Sanches de Castro publica em livro uma série de artigos do jornal O Volante destinados a motoristas e mecânicos de automóvel. Num notável esforço de eficácia comunicativa, Oh Chico… não sejas azelhudo! recorre ao saboroso calão das praças de táxis e oficinas, de irresistível comicidade.

A redenção técnica e moral dos chauffeurs portugueses exigiu a colaboração de um dos ilustradores mais influentes da segunda geração modernista, o suiço Fred Kradolfer (Suiça, 1903-Lisboa, 1968). Inspirado renovador das artes gráficas, publicidade e decoração, Kradolfer requalificou a comunicação publicitária portuguesa com formas e tipografias sintéticas, geometrizadas. Na capa do livro Kradolfer combina a sua gramática com o pendor caricatural do tema, compondo um chauffeur bonacheirão, de formas orgânicas. No interior, a paródia acentua-se com o esboço a negro e traço fino do retrato robô de quatro tipos de motorista. O bom, o Carlos da Escola Industrial, arruma os outros três madraços no porte, no aprumo da vestimenta e na curiosa ausência de bigode. Numa simetria rara, O zelo pedagógico alastra à contracapa do livro com uma publicidade ao ensino industrial, final feliz para as intenções do livro. O idealismo do tema não necessita de figuração concreta e Kradolfer pode retomar a vulgata modernista, impressa, tal como a capa, nas mesmas três cores diretas.

Sunday drivers

Cars, trains, planes and ships played a key role in the social revolution of the 1920s and 30s. Modernism glorified the machine in the dizzy whirlwind of speed and cosmopolitanism necessary to change what was essentially a rural 19th-century society. Technological advances were constantly improving the car, that dream and symbol of power. If machinery became better and closer to perfection, the same cannot be said about resilient human nature. Chauffeurs and car mechanics in Portugal seemed bent on refining the art of laziness, indiscipline and craftiness with which they looked after engines, and consequently, their customers. In 1933, A. Sanches de Castro, who headed the auto mechanics training course in industrial schools, published in book form a number of articles from O Volante [The Steering Wheel], a newspaper for drivers and car mechanics. In a remarkable endeavour at effective communication, the book Oh Chico… não sejas azelhudo! [Oh Chico … don’t be a clumsy chump!] uses the delicious slang of taxi-drivers and garage mechanics.

The technical and moral salvation of Portuguese chauffeurs depended on the assistance of Fred Kradolfer (Switzerland, 1903 – Lisbon, 1968), a Swiss artist and one of the most influential illustrators among second generation modernists. As an inspired renovator in graphic arts, advertising and decoration, Kradolfer upgraded Portuguese advertising with his synthetic and geometrified shapes and typographies. For the book cover, Kradolfer combined his own style with the humoristic approach to the subject in organic form to create a jovial-looking chauffeur. The spoof is taken even further inside the book with four fine black line identikit pictures of chauffeur types. The good one, Carlos at the industrial school, stands out from the other three, the slackers, thanks to his poise, neat appearance and curious lack of moustache. With outstanding symmetry, zealous pedagogy continues until the back cover and an advertisement for industrial training, a happy and fitting end to the book. The idealism of the subject doesn’t need concrete figuration so Kradolfer could use the standard modernist vernacular of three-colour direct printing as on the front cover. 




Ilustrações restauradas digitalmente The illustrations were digitally restored

Filed under: Fred Kradolfer,

One Response

  1. Emílio Peres diz:

    Já reparou que o autor do livro, A. Sanches de Cartro, é um dos participantes da Primeira Exposição de Caricaturas em 1912?
    Ab. amigo
    ERP

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