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histórias da ilustração portuguesa

Gil Blas, o pícaro

Gil Brás resolve correr o mundo, Colecção Juvenil 9, 1965

O romance picaresco é um género literário espanhol corrente nos séculos XVI e XVII. Nasceu como paródia à literatura idealista do Renascimento, com as suas epopeias, livros de cavalaria e romances pastoris. A narração picaresca, geralmente autobiográfica, apresentava-nos um astucioso pícaro, um jovem de baixa extração social que se movia entre patrões crapulosos, mulheres de reputação duvidosa, maridos cornudos, poetas ridículos, falsos sábios e médicos perigosamente ignorantes. A sua primeira publicação é o célebre romance A Vida del Lazarillo de Tormes, logo em 1554, de autor anónimo. O género ficou consolidado com Mateo Alemán e o seu romance Guzmán de Alfarache, publicado em 1599 e 1604 e a influência da literatura picaresca estendeu-se a toda a Europa e chegou até aos escritores do século XIX, como Mark Twain e as aventuras do seu Huckleberry Finn. De França nos veio este Gil Blas de Santillana, escrito por Alain-René Lesage e publicado originalmente em três volumes entre 1715 e 1735.

Não sendo própriamente literatura para jovens, a comicidade e o espírito aventureiro de Gil Blás encaixaram bem na Colecção Juvenil da editora Portugália, que publicou a trilogia com o nome de Gil Brás de Santilhana, em 1965 e 66,  ilustrada por João da Câmara Leme (Beira, Moçambique, 1930-Lisboa, 1983), o grande responsável pelo design e ilustração da editora durante toda a década. Leme regista as andanças de Gil Brás sem sombra de malícia. Nada há de pícaro nas capas ilustradas e a mestria gráfica de Leme apura ao limite uma das suas marcas recorrentes: figuração geometrizada, cores planas e um traço preto pesado e orgânico que delimita e estrutura a ilustração, como se de um pequeno vitral se tratasse. As imagens apresentam-se num plano estático e frontal e, apesar da limpidez do traço, a impressão geral é de uma cena curiosamente desfocada. A impressão tipográfica sobre papel couché brilhante tem 4 e 5 cores diretas, jogando claramente com a oposição de cores quentes e frias. A curta série foi exemplo das dezenas de declinações gráficas deste registo e constituiu-se como uma das marcas mais memoráveis da ilustração portuguesa do anos sessenta do século XX.

Gil Blas, the picaro

The picaresque novel is a 16th- and 17th-century Spanish literary genre that emerged as a parody of idealistic Renaissance literature with its epopees, chivalric books and pastoral romances. It narrates the story, usually in the first person, of some crafty picaro [Spanish for rogue], a lowborn young fellow who lives in the company of debauched masters, women of ill-repute, cuckolds, absurd poets, bogus scholars and dangerously ignorant doctors. The Life of Lazarillo de Tormes and of His Fortunes and Adversities was published anonymously in 1554 and is considered the first picaresque novel. The genre was consolidated with Mateo Alemán and his book Guzmán de Alfareche, published in 1599 and 1604. Picaresque literature then spread throughout the whole of Europe and influenced 19th-century writers, such as Mark Twain when he wrote The Adventures of Huckleberry Finn. The French picaresque novel, Gil Blas, was written by Alain-René Lesage and first came out in three volumes between 1715 and 1735. 

Although not really meant for youngsters, the humorous and adventurous spirit in Gil Blas seems only right and proper in the children’s collection published by Portugália. They published the trilogy as Gil Bras de Santilhana in 1965 and 66 with illustrations by João da Câmara Leme (Beira, Mozambique, 1930 – Lisbon, 1984), who was in charge of their design work and illustrations in the 1960s.  Leme records Gil Bras’ doings without a trace of maliciousness. There’s nothing roguish on the illustrated covers and Leme’s graphic mastery pushes to the limits a recurring feature of his: geometrised figuration, flat colours and organic, heavy black lines that delimit and structure the illustration as if it were a small stained-glass window. The drawings are presented from a static, frontal viewpoint, and despite the limpidity of line, they give a strangely unfocused impression. They are printed on glossy couche papers directly in 4 or 5 colours that clearly play with the contrast between warm and cool colours. This short series was an example of numerous graphic variants of its kind and represents one of the most remarkable among Portuguese illustrations in the 1960s. 

O confidente, Colecção Juvenil 11, 1966

O fim de uma longa história, Colecção Juvenil 12, 1966


As ilustrações foram restauradas digitalmente  The illustrations were digitally restored

Fontes Sources

http://en.wikipedia.org/wiki/Gil_Blas

http://es.wikipedia.org/wiki/Novela_picaresca

Filed under: João da Câmara Leme,

One Response

  1. Ouvi falar no blog através do programa de rádio de Pedro Rolo Duarte e gostei do que vi.

    Como também tenho algumas imagens do DIário Popular dos anos setenta e particularmente da série “O fotógrafo não estava lá” achei curiosidade em saber o seguinte:

    Como é que faz a cópia das imagens? Em scanner ou em foto macro? E com que aparelho e sistema?
    Reparei que algumas das imagens tem uma dimensão à volta dos 500 k. Trata as imagens antes de as colocar no blog? E com que programa.

    Desculpe as perguntas curiosas ,mas se puder responder agradecia.

    José

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