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histórias da ilustração portuguesa

Mariazinha africanista

O pai de Mariazinha era oficial da Marinha em comissão do Governo na Guiné portuguesa. Há três anos em África e após a época das chuvas pediu à mulher que fosse passar uns meses com ele em Bolama e que levasse dois dos filhos, Mariazinha e Afonsinho. A estadia dos miúdos percorre a via sacra de mistérios, curiosidades e perigos que caraterizavam tão exótico ambiente. O regresso à Metrópole foi precipitado pela ameaça da febre amarela e a família voltou, aumentada pelo cozinheiro Vicente, criado devotado a Mariazinha. O livro Mariazinha em África, revela-nos a surpreendente evolução dos primeiros ilustradores modernistas portugueses. Sarah Afonso (1899-1983), pintora e futura mulher de Almada Negreiros, apresenta na primeira edição de 1925 um traço forte e figuração sintética próximas do modernismo estilizado de Mily Possoz nos livros As Desgraças de uma Família Persa e As Bonecas. Sarah explorou o lado mágico e sensual da África negra, cuja arte tribal influenciou as vanguardas estéticas ocidentais e os ritmos endiabrados das jazz-bands dos night clubs lisboetas da década de vinte.

Em 1929, a sequela do livro revelou uma Sarah Afonso em trânsito para os cânones da segunda geração modernista com o seu traço fino e descritivo. A mudança era já visível em 1927 no livro S. João subiu ao trono, conto para a infância do escritor Carlos Amaro. Aluna de Columbano e com as inevitáveis passagens por Paris, Sarah foi pintora reputada e, contra as convenções, a primeira mulher a frequentar o café A Brasileira, no Chiado, então reservado apenas ao sexo masculino. O relevo dado às festas populares e tradições portuguesas ficou refletido na sua pintura em tela e na ilustração, de traço displicente, muitas vezes roçando o naïf. Mariazinha em África foi um autêntico best-seller na época e pioneiro da literatura colonial, refletindo as vivências da autora na Guiné portuguesa. A sequela, As aventuras de Mariasinha (em 1935 reeditada com o título de As aventuras de Mariasinha, Vicente e Com.ia) descreve, em oposição ao enredo inicial, as peripécias do guineense Vicente em Lisboa e na quinta da família, algures na Margem Sul. A simetria não era perfeita. O olhar da autora era branco na Guiné e branco ficou em Portugal. O contraste cómico do ingénuo negro na metrópole civilizada exemplifica o racismo moderado e paternalista que as elites políticas e intelectuais portuguesas da primeira metade do século XX praticavam em relação às suas colónias ultramarinas. O preto era uma criança grande, cruel, ignorante e preguiçosa, e a sua educação não diferia especialmente da que as crianças exigiam. Mariazinha em África teria ainda uma derradeira versão em 1959 com o texto completamente retocado e expurgado dos episódios violentos e politicamente incorretos, distanciando-se claramente da ideologia do Estado Novo, e publicada na Edições Ática com requintadas ilustrações de Ofélia Marques.

Mariazinha in Africa

Three years into his commission as a naval officer in Portuguese Guinea, Mariazinha’s father asked his wife to come with two of their children, Mariazinha and Afonsinho, to spend some months with him after the rainy season in Bolama. The children enjoyed a sort of via sacra of aholiday filled with all the mysteries, curiosities and dangers of exotic places. The risk of yellow fever precipitated their return to Portugal and Vincente, the cook, who also looked after Mariazinha, came with them. The book Mariazinha em África shows the amazing progress of the early Portuguese Modernist illustrators.  The painter Sarah Afonso (1899-1983), who later married Almada Negreiros, did the illustrations for the first edition in 1925 with her strong drawing line and synthetic figuration, close to the stylised modernism of Mily Possoz in the books As Desgraças de uma Família Persa and As Bonecas. Sarah explored the magical and sensual side of black Africa and its tribal art, which had influenced Western avant-garde aesthetics and the frenetic rhythms of jazz bands in Lisbon nightclubs of the 1920s.

In 1929, the sequel to Mariazinha em África showed that Sarah Afonso was moving towards the canons of the second Modernist generation with her fine and descriptive drawing line. A former pupil of Columbano, she spent the customary time in Paris and became a reputable painter. She was the first woman to frequent, in the face of all convention, the café A Brasileira café, the preserve of men in the Chiado.Her interest in popular traditional Portuguese festivities is reflected in her oil paintings and illustrations, with their seemingly carelessly drawn lines that often bordered on the naïf. Mariazinha em África was a huge best seller at the time and broke new ground in colonial literature with its account of the author’s lived experiences in Portuguese Guinea. The sequel, As aventuras de Mariasinha (reprinted in 1935 as As aventuras de Mariasinha, Vicente e Com.ia), unlike the first story, is about the adventures of the Guinean Vicente in Lisbon and on the family property somewhere south of the river Tagus. The symmetry in the stories is not perfect. The author’s approach, that of a white person in Guinea, is the same as in Portugal.  The comic contrast of an ingenuous black African in a civilised setting exemplifies the rather paternalistic racism that prevailed among political and intellectual elites in Portugal with regard to their colonies in the first half of the 20th century. Blacks were big children, cruel, ignorant and lazy, whose education differed little from what children required. Mariazinha em África last came out in an Ática publication in 1959 with precious illustrations by Ofélia Marques and a revised text in which all violent and politically incorrect episodes had been removed to distance itself clearly from the Estado Novo’s ideology.

As ilustrações foram restauradas digitalmente The illustrations were digitally restored

Fontes Sources

Almada negreiros, Fotobiografias do século XX, Círculo dos Leitores, 2001

Sarah Affonso, Almada, catálogo, Câmara Municipal de Cascais, 1996

http://cvc.instituto-camoes.pt/bdc/revistas/revistaicalp/litcolonialguine.pdf

http://www.leme.pt/biografias/80mulheres/afonso.html

Filed under: Sarah Afonso, ,

4 Responses

  1. pi diz:

    ….e a seguir, vamos ver outra maria? keil!

  2. ERP diz:

    Meu caro:
    Continuo a pensar que a “limpeza” digital das imagens lhes tira algo da beleza que os anos lhes deram por direito próprio.
    Mas são opções editoriais…
    Abraço amigo
    ERP

  3. Rita Correia diz:

    Excelente trabalho Silva. Confesso que não conhecia e gostei muito e com vontade de saber mais. Sabes se publicou na imprensa?
    Abç
    RC

  4. A edição seguinte da “Mariazinha em África” (Biblioteca da Crianças, nº1) publicada pela Portugália Editora dos anos 30, surge com novas ilustrações da autoria da Ofélia Marques.

    abraço, José Bártolo

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