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histórias da ilustração portuguesa

O que é um quadrumano?*

Com a consolidação da ditadura, Salazar inicia em 1936 uma reforma do Ensino Primário que reduz a escolaridade obrigatória a três anos, generalizando também a separação dos alunos por sexos. Extinguem-se as classes infantis no ensino oficial e encerram-se as escolas do Magistério Primário. A doutrina do Estado Novo  e da Igreja Católica passam a ter uma presença sistemática nos conteúdos dos livros escolares e infantis com temas nacionalistas, valores morais conservadores e grotescas histórias de raiz popular. Em 1938, surge este belo livro, o ABC da escritora Maria de Carvalho, com 23 bichos para outras tantas letras. A fauna foi recorrente na ilustração para a infância na primeira metade do século XX, radicada no fabulário moralista e na exaltação do mundo rural e popular até que preocupações mais urbanas e existencialistas à volta do próprio mundo das crianças e das suas relações com os adultos foram gradualmente ocupando o seu espaço. Com animais da selva e da quinta, o ABC oscila entre a descrição naturalista e o paralelo com as qualidades e defeitos do bicho homem, sem paternalismo e mesmo com algum saudável cinismo.

Mamia, nome artístico de Maria Emília Roque Gameiro (1901, Amadora-1996), ilustrou a traço forte este abcedário. A notória incisão do traço sobre uma base negra, sem desgaste na textura, indicia ou copia uma técnica de gravura sobre suporte macio como o linóleo, em impressão sumptuosa a seis cores diretas: verde, castanho, azul, vermelho, amarelo e preto. Mamia pertenceu uma prolífica linhagem, filha de Alfredo, grão-mestre da ilustração histórica e etnográfica em aguarela, irmã da fabulosa Raquel Roque Gameiro, tia de Guida Ottollini, ilustradora de livros infantis e revistas de moda e, finalmente, mãe de Bixa (Maria Antónia), autora de quadradinhos para as revistas Lusitas e Fagulha. Em traço mais linear mas igualmente conciso, Mamia ilustrou vários livros para crianças como Varinha de condão, textos de Fernanda de Castro e Tereza Leitão de Barros, de 1924; e em duas marcantes edições da Livraria Bertrand, Papagaio Real e Bonecos falantes, ambos de Carlos Selvagem.

*Diz-se do, ou o que tem quatro mãos: os macacos são quadrúmanos. 
What’s ‘quadromanous’?*

Once his dictatorial regime was firmly established, Prime Minister Salazar began in 1936 a primary education reform that reduced compulsory schooling to three years and also made the separation of students by sex the general rule. Infant classes were closed in state education, as were primary school teacher training colleges. The doctrine espoused by Salazar’s New State and the Catholic Church then systematically pervaded the contents of school and children’s books with its nationalist themes, conservative moral principles and grotesque stories rooted in traditional values. In 1938, this beautiful book, ABC by Maria de Carvalho, came out with a different animal for each of the 23 letters of the Portuguese alphabet. Illustrations for children in the first half of the twentieth century were often of animals and were based on moralistic fables that exalted the countryside and its traditional lifestyles until more urban, existentialist concerns about a child’s world and its relations with adults gradually took over. The ABC illustrations are of both jungle and farmyard animals and vary from naturalist depictions to images that correspondence with the qualities and defects of the human animal, not paternalistic at all but with a dose of healthy cynicism.

Mamia, as Maria Emília Roque Gameiro (1901, Amadora – 1996) was known in the art world, illustrated this alphabet with her characteristically strong drawn line. Her well-known mode of cutting onto a black background, without spoiling the texture, shows and copies a technique of engraving on a thick support, such as linoleum, in sumptuous direct printing in six colours: green, brown, blue, red, yellow and black. Mamia belonged to a prolifically creative family; she was the daughter of Alfredo, the grand master of historical and ethnographic watercolour illustrations, the sister of the fabulous Raquel Roque Gameiro, the aunt of Guida Ottollini, illustrator of children’s book and fashion magazines, and finally, the mother of Bixa (Maria Antónia), who did comic book illustrations for Lusitas and Fagulha magazines. More linearly but with equal concision, Mamia illustrated several children’s books such as Varinha de condão with texts by Fernanda de Castro and Tereza Leitão de Barros in 1924, and the two outstanding Livraria Bertrand publications Papagaio Real and Bonecos falantes, both by Carlos Selvagem.

* Having four feet with opposable first digits, as primates other than humans.

As ilustrações foram restauradas digitalmente The illustrations were digitally restored

Filed under: Mamia,

One Response

  1. maria diz:

    olha olha!
    com mãozinhas e pés no saco, que quadrúmanos conhecemos nós tão bem, a tratarem-nos como burrinhos?!
    (: mas, ainda um dia hei-de descobrir alfarrabistas que tenham nas prateleiras dos fundos, destas maravilhas!😉

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