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histórias da ilustração portuguesa

Como os grandes fazem

        NA LOJA
Mas que bela loja esta
Onde comprar é uma festa.
A mamã compra a camisa
Que o papá dela precisa
E ele, de ar grave, vai vendo
Como a conta vai crescendo.

“Acho que faz bem tirar o pequeno da escola e se pode mande-o para Paris”.  E assim parte em 1906 a expensas do pai cumprindo o conselho de mestre Malhoa. Estagiou quatro anos no atelier do pintor historicista Ferdinand Cormon e  passava os tempos livres no seu quarto a a desenhar caricatura ou a pintar nas margens do rio Sena e nos arredores da cidade. Em 1911, o seu último ano de Paris, pediu ao pai que o deixasse ir a Munique estudar na Kunstakademie. Tinha levado de Paris uma pasta cheia de desenhos e um álbum para crianças. Uma tarde pegou na lista de telefones e procurou as moradas de vários semanários humorísticos. Uma preferência desde a infância pelo Meggendorfer Blätter empurrou-o para a redação deste jornal, onde tentou avistar-se com o diretor, ausente em viagem de núpcias. Deixou a pasta com os desenhos e uma semana depois foi convocado para uma reunião com Herr Schreiber. Este propôs dar-lhe desde logo colaboração efetiva no jornal com a condição de exclusividade e aprovou todos os desenhos do álbum para crianças que, passados meses, era editado pela F. J. Schreiber Verlagsbuchhandlung em Esslingen e Munique.  Este surprendente desfecho encheu o jovem artista de satisfação  e apressou-se a comunicar à família em Lisboa o seu sucesso, agradecendo particularmente ao pai os sacrifícios que por si fizera e que, a partir dali, por si próprio se governava.

No livro Como os grandes fazem / Cenas divertidas do mundo das crianças, o ilustrador e cartoonista Emmérico Nunes (Lisboa, 1988-Sines, 1968), revela as simpáticas travessuras  de um grupo de petizes que mimam os tiques e poses dos adultos, absolutamente ausentes na obra. A “linha clara” de Emmérico, de cenários simplificados e ausência de sombras, valoriza a ação e o traço cómico mistura a bonomia que marcou toda a sua obra com a influência do desenho humorístico alemão. O livro, publicado em 1913, é um clássico álbum ilustrado ou picture book europeu da época, com os seus curtos textos em sextilhas, muito diferente das palavrosas obras portuguesas suas contemporâneas. Os miúdos de Emmérico são uma versão soft das crianças aventureiras e endiabradas que na viragem do século XIX para o XX proliferavam nas páginas de comics dos jornais como os Katzenjammer Kids de Rudolph Dirks e Harold Knerr (iniciados em 1897), por sua vez inspirados em Max und Moritz, história para crianças escrita e desenhada pelo alemão Wilhelm Busch em 1865; ou o Little Nemo in Slumberland, de Winsor McCay (1905). Sem moralismo, Emmérico cumpre, de forma curiosa, o desiderato da literatura para a infância: preparar pelo exemplo as crianças para as convenções do mundo adulto.

Quando a Grande Guerra eclodiu, o embaixador português em Berlim, que era então Sidónio Pais, aconselhou Emmérico a regressar a Portugal. Os rumores da iminente participação de Portugal na guerra aconselhavam a saída e, em outubro, Sidónio enviou passaporte para o ilustrador deixar a Alemanha. O sr. Schreiber insistiu para que continuasse a colaboração com o jornal e recomendou-lhe que ficasse na Suíça. Estabeleceu-se em Zurique até ao verão de 1918. Voltou a Portugal mas a falta de trabalho forçou-o a nova estadia em Munique, em 1920. Regressou definitivamente um ano depois e continuou a trabalhar para o Megendorfer Blätter e Fliegende Blätter, mas a inflação galopante da Alemanha transformava os milhões de marcos recebidos em míseros escudos. Em Lisboa, não conseguia obter trabalho suficiente e acabou por aceitar temporariamente um lugar como datilógrafo de correspondência em francês e alemão numa casa comercial.

How grown-ups do it

“I think you should take the boy out of school and send him to Paris if you can.” His father followed the advice of the Portuguese artist Malhoa and paid for the boy’s expenses. He was an apprentice for four years in the studio of Ferdinand Cormon, a painter of historical themes, and spent his spare time drawing caricatures in his room or else painting on the banks of the Seine and in the city outskirts. In 1911, his final year in Paris, he asked his father to let him enrol at the Kunstakademie in Munich. He took along with him a suitcase full of drawings and an album for children. One fine afternoon, he went through the telephone directory in search of addresses of humorous magazines. The most appealing was Meggendorfer Blätter as it had been a favourite of his since childhood, and he tried to see its editor, but he was away on his honeymoon.  However, he left his portfolio of drawings with them and a week later he was asked to come to a meeting with Herr Schreiber, who straightway proposed he should work exclusively for them. He also liked the whole set of drawings for the children’s album, which F. J. Schreiber Verlagsbuchhandlung published in Esslingen and Munich some months later. The astonishing outcome of the meeting was deeply gratifying to the young artist and he quickly communicated the news of his success to his family in Lisbon, thanked his father in particular for the sacrifices he had made for his sake and said that in future, he would fend for himself.

In his book Como os grandes fazem / Cenas divertidas do mundo das crianças [As grown-ups do it / Funny scenes in the world of children], the illustrator and cartoonist Emmérico Nunes (Lisbon, 1888-Sines, 1968) shows the charming pranks of a group of kids as they copy the quirky mannerisms of adults, who are completely absent in the work. The ‘clear line’ that Emmérico used, the simple settings and lack of shadows, highlight the action in which the comical line combines the bonhomie always manifest in his work with the influence of German humoristic drawings. The book came out in 1913 and broke new ground in picture books with its six-line ditties, so very different from the Portuguese wordy texts of the time. Emmérico’s children are a gentler version of the adventurous and mischievous kids that at the turn of the twentieth century filled the comic strips in magazines such as Katzenjammer Kids by Rudolph Dirks and Harold Knerr (started in 1897), who in turn were inspired by Max und Moritz, a children’s story written and illustrated by the German Wilhelm Busch in 1865 and Little Nemo in Slumberland by Winsor McCay (1905). Without moralising, Emmérico fulfils, in a beguiling way, the aims of literature for children at that time, which was to prepare children for the adult world through example.

At the outbreak of the Great War, the Portuguese ambassador to Berlin, Sidónio Pais, advised Emmérico to return to Portugal. Rumours that Portugal would soon enter the war urged his departure and in October Sidónio Pais sent him a passport for him to leave. However, Herr Schreiber insisted that he continue working for the magazine and told him to go to Switzerland. He remained in Zurich until the summer of 1918 and then came to Portugal. But lack of work forced him back to Munich in 1920. He returned home for good a year later and continued to work for Megendorfer Blätter and Fliegende Blätter but galloping inflation in Germany meant that the millions of marks he earned became a tiny amount in Portuguese currency. He failed to find enough work in Lisbon and ended up having to accept temporarily the job of typing French and German letters in an office. 


        A CAÇADA                                                                                           
Já de volta da caçada
Vem o bravo pela estrada
O urso feroz apanhou,
Com a espada o trespassou.
E o rei no seu trono pensa
Vou dar-lhe uma recompensa!

         A ÓPERA
Este herói grandiloquente
Canta os seus feitos à gente
E a sua tão bela amada
Ouve-o linda e apaixonada,
Dirigidos p’lo maestro
Que comanda: — Presto, presto!

        A GUERRA
Ao escalar esta muralha
A coragem nunca falha.
Sabres, balas e canhões
Até derrubar os portões.
E ao terminar esta história
Soltam gritos de vitória.

        NO CONSULTÓRIO
As crianças, está-se a ver
Dão-nos muito que fazer
Mas diz o senhor doutor
Que ela já está melhor.
Uma canja de galinha
E está boa a bonequinha.

        EMBARCADOS
E pelas ondas do mar
Lá vamos a navegar.
Para a América decerto
Pois dela já estamos perto,
E o grumete a terra avista:
— Terra à vista, terra à vista!

        NO FOTÓGRAFO
Um sorriso, por favor,
Para a foto, meu senhor.
Que é sempre mais agradável
Ter uma expressão amável
Num retrato de família
Para pôr sobre a mobília.

        VIAGEM DE AUTOMÓVEL
Quando vamos viajar
Temos de nos preparar,
Numa bela viatura
Lá vamos nós à aventura
E o chofer põe prego a fundo,
Vai a cem por esse mundo.

        NO CAFÉ
No café nós conversamos
Quando às cinco o chá tomamos
E mais doces e confeitos
Até estarmos satisfeitos.
Comemos bolos sem medos
E ao fim lambemos os dedos.

        O PEQUENO ARTISTA
Qualquer menino é artista
Se tenta pintar à vista.
Sem poupar nas aguarelas,
Pinta as imagens mais belas
E quando faz um retrato
Tem de ter o traço exacto.

Tradução do alemão de Kennistranslations (Ana Yokochi e Francisco Manso)
Livro cedido pelo alfarrabista Bernardo Trindade
Fontes Sources
A partir de uma autobiografia dedicada às filhas escrita em 1945 e incluída em: Emmérico Nunes, catálogo de exposição retrospectiva da obra do pintor, Palácio Foz, 1972
Emmérico Nunes, por Fernando Pernes, catálogo da Galeria Espaço, 1973
Emmérico Nunes, um Simplicissimus Modernista,  Álvaro Matos / http://hemerotecadigital.cm-lisboa.pt

Filed under: Emmérico Nunes,

3 Responses

  1. Gisela Miravent diz:

    Vivas ao Almanaque, depois de celebrado o seu 1.º aniversário. Continua a ser um prazer renovado conhecer ilustrações tão bonitas e às vezes inesperadas – como em primeira mão leio os posts no telemóvel (sem acesso às imagens) começo por só poder imaginá-las, fruto da ignorância a respeito de tantas delas. Mas vale pelo exercício, divertido. O percurso descrito de Emmérico Nunes tanto nos aviva como desconsola a alma. Datilógrafo… Desejo que cada letra batida tenha correspondido a um desenho sonhado.

  2. De Emmerico Nunes, tenho como grande referência o livro (único) de leitura da terceira classe, que ilustrou com mestria (nos anos 50), um dos ícones da Educação do Estado Novo.

    http://santa-nostalgia.blogspot.pt/2006/12/o-meu-livro-da-3-classe-editora-educao.html

  3. Ainda sobre Emmérico Nunes, estudou na Escola de Belas Artes de Lisboa e fez estudos em Paris. Antes da estadia em Munique esteve por Inglaterra, Holanda e Bélgica.
    Para além da ilustração no universo dos livros, colaborou em alguns jornais com espaços dedicados ao público infantil, teve incursões pelo desenho publicitário, fez pintura e restauro e foi docente na Sociedade Nacional de Belas Artes.

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