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histórias da ilustração portuguesa

Historinha de Portugal

Olavo conta a história de Paulo Guilherme, filho cábula de Octávio, que acabara de chumbar o exame de admissão ao liceu por insuficientes conhecimentos sobre a História de Portugal. Octávio despacha o miúdo para as habituais férias verão numa longínqua quinta da família com o ensino forçado da História a cargo de um solícito Tio Afonso. Alternando com as diversões da vida no campo, Afonso ministra ao pupilo doses maciças de reis, batalhas e descobertas, em conversa ligeira e dialogante, que faz deste livrinho um verdadeiro manual para-escolar da época. Olavo d’Eça Leal (1908-1976), célebre radialista da Emissora Nacional, jornalista, dramaturgo, poeta e publicitário, tinha já publicado um bem sucedido livro para crianças, Iratan e Iracema, os Meninos mais Malcriados do Mundo, prémio Maria Amália Vaz de Carvalho em 1939, com ilustrações de Paulo Ferreira. Nesta História de Portugal para Meninos Preguiçosos, edição da Livraria Tavares Martins, de 1943, Olavo dá ao protagonista o nome do seu filho Paulo-Guilherme, futuro designer e ilustrador, homem de múltiplos talentos à imagem do pai Olavo.

O livro foi ilustrado por Manuel Lapa (Lisboa, 1914-1979), um dos mais fascinantes artistas gráficos portugueses de meados do século XX, ilustrador de inúmeras obras de propaganda do Estado Novo e do SNI  em temas como o Turismo e a História. Dois livros para crianças, o Feiticeiro da Cabana Azul, de Adolfo Simões Müller, e este História de Portugal para Meninos Preguiçosos, revelam um grafismo intemporal, com a frescura inalterada com que se revelou naqueles já longínquos anos quarenta. A ilustração do livro reparte-se por extratextos a cor em impressão litográfica com trabalhosas panorâmicas de conjuras e batalhas e quadros de página inteira que apresentam alguns dos figurões da história lusa. Os bonecos matam e esfolam sem horrorizar a miudagem, muito graças ao registo inspirado nas iluminuras e tapeçarias medievais, fonte recorrente de Lapa para temas históricos. Mais curiosas são as ilustrações a preto e branco, onde se acentuam a figuração e expressividade paródicas que rompem com a influência da arte medieval, modelando entre traço e tramas manuais estes belicosos heróis em miniatura. O livro era um projeto antigo. Seis anos antes da publicação, em 1936-37, sob o título Exposição de Ilustrações Destinadas a uma História de Portugal, as ilustrações foram expostas na Galeria UP, na Rua Serpa Pinto, em Lisboa. A UP, a primeira galeria de arte moderna em Portugal, foi fundada em 1932 por Castro Fernandes, António Pedro e Tom.

A História tem final feliz. Paulo Guilherme volta a Lisboa com volumosa bagagem histórica e inflamado patriotismo. Um comovido Afonso despede-se do sobrinho na estação do comboio com duas perguntas:

— Paulo Guilherme! Quem vive?
E o rapaz, a rir respondeu:
— PORTUGAL!
— Paulo Guilherme! Quem manda?
E ele, meio surdo com o silvo da máquina, gritou:
— Salazar!


A little history of Portugal

Olavo tells the story of Paulo Guilherme, Octávio’s son, a lazy student who ends up flunking his high school entrance exam because he doesn’t know enough Portuguese history. Octávio sends the boy off to spend the usual summer holidays in a remote family property where he is to study history with his kindly Uncle Afonso. In the midst of country pleasures, Afonso gives his student a massive dose of kings, battles and discoveries by means of light two-sided conversations, which makes this little book a genuinely helpful school aid. Olavo d’Eça Leal (1908-1976) was a well-known state radio broadcaster, a journalist, playwright, poet and advertising copywriter, who had already published the very successful children’s story Iratan e Iracema- Os Meninos Mais Malcriados do Mundo [Iratan and Iracema – The Most Badly Behaved Children in the World], which had received the Maria Amália Vaz de Carvalho Prize in 1939 and was illustrated by Paulo Ferreira. In his História de Portugal para Meninos Preguiçosos [A history of Portugal for Lazy Children], published by Livraria Tavares Martins in 1943, Olavo calls the main character Paulo-Guilherme, after his own son, the future designer and illustrator, a multi-talented man like his father Olavo.

The book is illustrated by Manuel Lapa (Lisbon, 1914-1979), one of Portugal’s most fascinating graphic artists of the mid-twentieth century. He did the illustrations for numerous tourism and history publications, works that were key instruments in Salazar’s Estado Novo and SNI, the regime’s propaganda office. Two children’s books O Feiticeiro da Cabana Azul [The Wizard of the Blue Cabin] by Adolfo Simões Müller, and this História de Portugal para Meninos Preguiçosos, show how inspired Lapa was with the timeless graphics and unchanging freshness he revealed long ago in the 1940s. The book’s illustrations are lithographically printed coloured inserts as well as meticulous panoramas of plots and battles and scenes taking up full pages and depicting some of Portugal’s great historical figures. The characters kill and butcher one another without this terrifying youngsters thanks in great part to the mode of illustration inspired by Medieval illuminations and tapestries, a frequent source for Lapa’s historical themes. Still more interesting are his black and white illustrations where he breaks away from the influence of Medieval art by accentuating the parodic figuration and expressiveness and shapes these tiny bellicose heroes with hand drawn lines and textures.

The story has a happy ending.  Paulo Guilherme returns to Lisbon with a vast historical baggage and inflamed patriotism. Afonso, greatly moved, says goodbye to his nephew at the railway station and asks two questions:

— Paulo Guilherme! Who’s alive?

The boy laughingly replied:

— Portugal!

Paulo Guilherme! Who’s in command?

And he shouted, half-deafened by the train whistle:

— Salazar!


Sertório

Dom Dinis

Dom Manuel I e as suas três mulheres

As ilustrações a preto foram restauradas digitalmente
Fontes Sources
Exposição Artística, O Senhor Doutor, n.º 202, 23 janeiro de 1937
Tom, Thomaz de Mello, 45 anos de Actividade, catálogo da exposição no Palácio Foz, SEIT, 1973

Filed under: Manuel Lapa,

4 Responses

  1. Toujours la meme histoire. Il serait de bon ton que celle -ci change un peu. Mais, il y a cependant peu d’espoir que cela advienne rapidement. Bolas! Enquanto encontramos solucoes para limpar de vez o assunto, o tema e bastante interessante para os ilustradores.

  2. Rita Correia diz:

    Assim se faz um patriota!
    Estás um investigador nato. Onde tens os baús?

  3. O Silva foi ao baú e trouxe mais uma história. Recomenda-se a todos os que gostam de bonecos.

  4. Gradualmente assim muito ao acaso comecei a coleccionar pequenos guias turísticos portugueses dos anos 40 a 60. Uma das coisas que me começou a atrair nestes guias eram as ilustrações e simplicidade gráfica. São lindos! À pouco tempo numa visita ao Porto encontrei um de Beja com ilustração e talvez também design do Paulo Guilherme, assim está assinado na capa.

    Foi bom ter encontrado mais sobre o Paulo Guilherme por aqui.

    Obrigado pelo trabalho que tem vindo a desenvolver por aqui, espero que algum dia ainda daqui saia um livro.

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