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histórias da ilustração portuguesa

Alto Contraste

para o Miguel Portas (1958-2012)

Foi o tempo das ilusões de igualdade e fraternidade desfeitas pelo pragmatismo dos sucessivos poderes políticos e partidários. Foi o tempo também da esperança e da alegria de um projeto coletivo numa aventura editorial criada por Miguel Portas na Faculdade de Economia de Lisboa em 1985 e que cedo contagiou dezenas de jornalistas, escritores, designers, fotógrafos, ilustradores e artistas plásticos que pensavam e criavam à revelia das ortodoxias ideológicas. O jornal-revista Contraste haveria de ser sinal de uma agitação que prenunciava uma viragem substancial no panorama cultural da cidade. No entanto, a excessiva heterogeneidade dos seus colaboradores e os péssimos hábitos da iliteracia nacional ditaram o seu rápido fim com apenas 10 números publicados, a partir de um número zero de dezembro de 1985 até ao número duplo de uma segunda série, já em outubro de 1987. As ambiguidades do projeto podem ser refletidas pelas sucessivas mudanças de formato e tamanho, embora a imagem mais marcante da revista possa rever-se nos seus seis números centrais, em formato ao baixo, inspirado na revista Madrid Me Mata, expoente da contemporânea movida madrilena. O Contraste era bastante peculiar no seu design e paginação. Com a direção de arte de Henrique Cayatte, os artigos de cada número tinham autonomia gráfica e eram distribuídos a diferentes designers. Num tempo  anterior à computação gráfica e sem acesso à dispendiosa fotocomposição, improvisavam-se recursos com grafismos manuais, colagens e decalques com resultados naturalmente desiguais. Destacavam-se as excelentes ilustrações tipográficas de Henrique Cayatte e João Fonseca, este de sabor modernista e uma das imagens de marca da revista, a começar pelo seu logótipo. Os ilustradores foram acentuando a presença na revista e pelo seu quarto número, o Contraste era uma curiosa montra da ilustração editorial portuguesa, onde pontuava a exuberante linha clara de Jorge Colombo ou o traço nostálgico de Fernando Brito. As publicidades dos anunciantes eram criadas integralmente pelos artistas da casa e habitualmente ilustradas. A revista foi um importante ensaio para o boom da ilustração editorial em jornais e revistas como o jornal Combate do PSR e, já no fim da década, O Independente e o Público, pela mão de diretores de arte que tiveram papel de relevo no Contraste, como Henrique Cayatte, Jorge Colombo e Jorge Silva.

Jorge Colombo, número 6, julho 1986, capa

Pedro Cavalheiro, As ilhas não existem, texto de João Ramos de Almeida, número 6, julho 1986

Miguel Branco, A sombra dos Maias, número 4, maio 1986

Jorge Colombo, publicidade Bar Anikibóbó, número 9-10, novembro 1986

Fernando Brito, Ilhas Oásis, número 6, julho 1986

João Fonseca, Dandismo, texto de Eunice Cabral, número 7-8, agosto-setembro 1986

Henrique Cayatte, E de repente a estupidez, número 1-2, segunda série, outubro 1987

Filed under: Contraste,

2 Responses

  1. Recordação de uma noite no ARTIS no BA, lá se comprava O Contraste, e o MP também passava por lá. A finitude é relativa, fica a depender dos “traços” que se conseguem imprimir, da sua valia …

  2. Pedro Amaral diz:

    um belíssimo post uma bela homenagem ao Miguel Portas ( e… sem desmerecer ninguém o desenho do Brito é lindissimo!)

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