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histórias da ilustração portuguesa

Bicho-homem

Uma lagarta que já não o é, uma mãe canguru sem ménage parental, uma avestruz  com fome de céu, um peixe em prisão de cristal, um réptil misantropo, um macaquinho de imitação, e mais uma dúzia de bichos sem direito a retrato, compõem uma das mais apreciadas obras de Alice Gomes (Tabuaço, 1910-Lisboa, 1983). Neste livro tardio da escritora, que só a partir dos 57 anos se dedicou em exclusividade à literatura para crianças, pequenos dramas da vida animal têm comparações delicadas com as forças e fraquezas do bicho-homem, brincando com sons e rimas, muitas vezes em toada de lenga-lenga, cruzando o real e o metafórico, numa modesta edição da autora, Bichinho Poeta, datada de 1970.

Mário Neves (1923-2008) fez a caricatura da bicharada. Guru da publicidade comercial, com obras-primas animadas para colchões, cafés e refrigerantes (ver o post A mosca tsé-tsé) complementou a comicidade do texto com o traço cartoonesco que contaminou toda a década de setenta. Sem enredo gráfico, os bichos recortam-se no papel branco, se exceptuarmos o bicho peixe, que não vive propriamente do ar. Mas Neves adiciona ao traço estereotipado da caricatura texturas ricas que naturalmente capricham nos bichos de pelo e pena.

Animal-man

A caterpillar that’s no longer a caterpillar, a mother kangaroo without a father figure, an ostrich hungering for the sky, a fish in a crystal prison, a mistrustful reptile, a pretend little monkey and another dozen animals without no description of their own are in one of the most popular books by Alice Gomes (Tabuaço, 1910-Lisbon 1983). This was a late work of hers as it was only at the age of 57 that she devoted herself exclusively to children’s books. She wrote little dramas of animals lives that share subtle similarities with the strengths and weaknesses of animal-man, often using sounds and verse playfully like nursery rhymes, merging the real and the metaphorical, in a modest author’s edition called Bichinho Poeta [Little Animal Poet] dated 1970.

Mário Neves (1923-2007) produced some caricatures of these creatures. A leading light in commercial publicity with works of art advertising mattresses, coffee and soft drinks (see A mosca tsé-tse [The tsetse fly] post), he complimented the hilarity of the text with cartoonlike drawings that influenced the entire 1970s. Without a graphic setting, the animals stand out on the white paper, except for the fish, which doesn’t exactly live on air. But Neves added to these stereotypical caricatures a rich texture that naturally makes these animals, whether breasted or feathered, even more whimsical.

As ilustrações foram restauradas digitalmente  The illustrations were digitally restored

Filed under: Mário Neves, ,

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