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histórias da ilustração portuguesa

Macacos de imitação

As fábulas ocuparam nos dois últimos séculos um papel essencial na pedagogia de crianças e adultos. Os animais prestavam-se ao exemplo dos vícios e virtudes humanas e a reputação de muitos bichos ainda sofre hoje o que a literatura dos séculos XVIII e XIX inventou e qualquer documentário da National Geographic desmente. Em 1905, Setúbal comemorou generosamente o centenário da morte de Bocage e editou um livro do poeta que teve a mão da pioneira da literatura para crianças Ana de Castro Osório. Uma parte da capa do livro é a reprodução das capas da sua coleção Para as Crianças, com ilustração de Leal da Câmara. Bocage, popularmente conhecido pelas suas (pretensas) anedotas e sonetos eróticos, revela nas Fábulas do Bocage um punhado de excelentes histórias das sua autoria e traduções apuradas do clássico Lafontaine. Escritor maldito da época, perseguido e preso pelo famigerado intendente geral das polícias Pina Manique, aproveita as suas fábulas para um azedo ajuste de contas com o poder político e a comunidade literária que o marginalizaram, como o comprova a profusão de macacos e burros presentes no livro. Julião Machado (São Paulo de Luanda, 1863-1930), ilustrador, cartoonista e jornalista reputado, acentua a acidez do texto do poeta com o comentário a que o seu olhar de cronista social não seria alheio. N’ A Cigarra e a Formiga, por exemplo, revela um claro confronto de classes e gerações que espelhava a moralista cultura burguesa do início do século vinte. Machado preparava o terreno para o corte que a primeira geração modernista operou na ilustração e cartoon portugueses, trocando o riso pelo sorriso, a caricatura pessoal pelo comentário social. Mas o grafismo ficou ainda preso ao Naturalismo do seu mestre Malhoa e à tradição gráfica de Rafael Bordalo Pinheiro. A elegância de Machado não teve sucesso em Portugal e após ter dissipado a herança paterna na criação de uma revista de inspiração francesa, a Comédia Portuguesa, fez as malas para a Argentina em 1894. Mas o acaso e a comunidade jornalística do Rio de Janeiro desviaram-no do destino final, e Machado firmou-se como um aclamado renovador da caricatura e do cartoon brasileiros. Com a escritora Carmen Dolores fez a primeira grande dupla da literatura para crianças, graças ao livro Lendas Brasileiras, 27 contos do imaginário folclórico, como o saci-pererê e a mula sem cabeça, editados em 1914. Machado tinha voltado a Portugal em 1905, mas a desencorajante situação do país atirou-o novamente para o Brasil de onde só regressará, definitivamente, em 1920.

Copycats

Fables played an important role in educating children and adults in recent centuries. Animals were seen to typify man’s vices and virtues and many an animal’s reputation still suffers today because of stories about them in eighteenth and nineteenth-century literature that no National Geographic documentary has yet managed to dispel.  In 1905, Setúbal generously commemorated the centenary of the death of Bocage and brought out a book by the poet in which Ana de Castro Osório, a children’s literature pioneer, had a hand. Bocage is popularly known for his (supposedly) erotic anecdotes and sonnets and Fábulas do Bocage contains a handful of his excellent stories and superb translations of Lafontaine. A ‘maudit’ poet of the time, he was hounded and arrested by Pina Manique, the notorious chief of police. Bocage used his fables to avenge himself of those in power and the literary circles that spurned him as can be seen by the numerous monkeys and donkeys in the stories. Julião Machado (São Paulo de Luanda, 1863-1930), an illustrator, cartoonist and journalist of repute, accentuates the bitterness the poet’s words with observations that was would not have seemed strange to Bocage as a social commentator. For instance, ‘The Cicada and the Ant’ clearly demonstrates the clash between classes and generations that mirrored the moralistic bourgeois culture at the start of the twentieth century.  Machado prepared the terrain for the break the first Modernist generation later made in Portuguese illustration and cartoons, which was to change laughter to a smile and personal caricature to social commentary.  But graphics remained bound to the Naturalism of its master, Malhoa, and the graphic conventions of Rafael Bordalo Pinheiro. Machado’s stylishness wasn’t a success in Portugal and after squandering his father’s legacy setting up a French-inspired magazine, Comédia Portuguesa, he packed his bags and left for Argentina in 1894. But chance and the journalistic scene in Rio de Janeiro made him deviate from his final destination, and Machado became an acclaimed artist who renewed Brazilian caricature and cartoons. He and the writer Carmen Dolores formed the first great duo in children’s literature thanks to Lendas Brasileiras, a book published in 1914 with 27 folklore tales about, for instance, Saci-Pererê, the magical one-legged imp, and the headless mule.  Machado returned to Portugal in 1905, but the gloomy situation there sent him back to Brazil and he only returned definitively in 1920.


As ilustrações foram restauradas digitalmente  The illustrations were digitally restored

Fontes Sources

Fábulas de Bocage, Introdução de Daniel Pires, Centro de Estudos Bocageanos, 2000

http://www.saeditora.com

http://humorgrafe.blogspot.pt (texto de Osvaldo Macedo)

Filed under: Julião Machado,

One Response

  1. São histórias muito insinuantes, não? Ou as crianças naqueles tempos eram precoces? Continua é um prazer ler e ver. És tu que escreves? Bjs

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