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histórias da ilustração portuguesa

As meninas do Tamariz

A Bébé, a João e a Bô, cabelo cortado à garçonette, cigarro fino na boca desdenhosa, ombros e coxas mimando um charleston de negríssimo ritmo, comentavam os seus sucessos e desaires amorosos numa langorosa tarde de Outono, beberricando chá numa esplanada do Tamariz. Comentavam o desfile dos peraltas de modos afetados que evolucionavam à sua frente e partilhavam conselhos e truques para atar ou desatar as cabeças ocas dos rapazes a quem elas nunca tratavam pelo nome próprio mas sim pela marca dos carros que conduziam. Observador atento desta guerra de sexos, o jornalista Castelo de Morais publicou uma deliciosa crónica de costumes na revista Ilustração, naquele longínquo mês de Agosto de 1930. Castelo de Morais remata o texto com a recordação das práticas românticas, provavelmente tão parvas, do Passeio Público de meados do século XIX. Magazine da possível modernidade lisboeta de finais dos anos 20, a Ilustração tinha a colaboração de alguns talentosos ilustradores como Stuart, Emmérico Nunes e Ilberino Santos, numa mistura curiosa entre a decorativa art deco e o regresso ao verismo pictórico dos trajes e costumes regionais portugueses. Entre os modernos destacava-se Tom. Nome artístico de Thomaz de Mello, nascido carioca em 1906, lisboeta a partir de 1926, tornou-se referencial  na banda desenhada, ilustração e publicidade dos anos 20 a 50. Enfileirado na chamada segunda geração modernista, Tom prossegue a rotura com o encardido naturalismo das artes plásticas e gráficas portuguesas. As imagens para as crónicas da Ilustração têm o traço fino e contundente da gramática modernista, mais interessada no comentário social do que na fulanização caricatural dos seguidores de Rafael Bordalo Pinheiro, que haveriam de fazer sentir a sua influência até bem tarde no século XX. O traço de Tom é mais paródico e geometrizante que o de Almada Negreiros, Bernardo Marques e Jorge Barradas, companheiros de geração mas de traço mais orgânico e adoçado. Estes janotas de Tom tratados pelos nomes próprios das suas reluzentes viaturas: o Kissel, o Packard, o Willys… são um último fulgor dos loucos anos 20, da glorificação da máquina, da emancipação feminina e das intermináveis noites dos clubs Maxim e Bristol, que em breve se dissolveriam nas pardacentas águas do Estado Novo.

The Tamariz girls

Bébé, João and Bô – their hair cut short à la garçonette, slim cigarettes between scornful lips and moving their shoulders and hips to a Charleston with a very African beat – were talking about the ups and downs in their love lives one leisurely Autumn afternoon as they sipped tea on the esplanade of the Tamariz beach in Estoril.  They exchanged remarks about the affected jokesters parading in front of them and shared advice about how to tie down or let loose the airheads they never called by name but rather by the make of cars these young men drove. A close observer of this war of the sexes, the journalist Castelo de Morais wrote a delicious piece about customs for the Illustração magazine that long-gone August of 1930. Castelo de Morais ends his column reminiscing about the romantic antics, probably equally silly, that must have gone on in Public Promenades in the mid-nineteenth century. Ilustração was the magazine of the modernity that was achievable in Lisbon at the close of the 1920s.  Talented illustrators such as Stuart, Emmérico Nunes and Ilberino Santos were producing interesting work for it that combined art deco with a return to pictorial realism in their depiction of regional Portuguese costumes and customs. Tom, an outstanding artist among modernists, was the artistic name of Thomaz de Mello, born in Rio de Janeiro in 1906 and a Lisbon resident as from 1926. He became a key figure with his cartoon strips, illustrations and publicity from the 1920s to the 1950s, and as one of the so-called second-generation modernists, Tom continued the break from the grimy naturalism of the Portuguese visual and graphic arts of the time. His work for Ilustração is in the fine, scathing style used by modernists more interested in social commentary than in the exaggerated characterizations of Rafael Bordalo Pinheiro’s followers, who made their influence felt until the late 20th century. Tom’s depictions are more parodic and geometric than those by Almada Negreiros, Bernardo Marques and Jorge Barradas, who belonged to the same generation, but there was a more organic and softer touch to them.  The ‘bright young things’ drawn by Tom and called by the make of their glossy cars –  Kissel, Packard, Willys – are the dying flickering lights of the roaring twenties, the glorification of the machine, women’s emancipation and endless nights at the Maxim and Bristol nightclubs, an epoch soon to end in the turbid waters of Salazar’s New State. 

 

As ilustrações foram restauradas digitalmente The illustrations were digitally restored

Filed under: Thomaz de Mello, Tom

3 Responses

  1. Sara Belo Luís diz:

    que meninas tão lindas!

  2. RS Gold diz:

    Hi, My name is Daniel Berman and I am a TV series creator, producer/director, DP, editor, photographer and founder of the Mobile Photo Awards.
    Enjoy reading your post! Keep on doing good!
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  3. faw.com.ru diz:

    Oi eu sou Scott Lee, analista, consultor, palestrante, estrategista e escritor sobre temas relacionados com tecnologia de conteúdo digital.
    Post interessante!
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