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histórias da ilustração portuguesa

A Morte fica-nos tão bem

“O veneno do amor”, por Fernando de Pamplona, Magazine Bertrand nº 31, julho 1929

Enredos da sociedade elegante, perdida na voragem dos cabarets e nas asfixiantes convenções da época ou a simétrica sordidez das gentes miseráveis serviram de pretexto para as desencantadas, e por vezes tétricas, composições de Carlos Carneiro (Porto, 1900-1971) nas páginas dos magazines mundanos de finais dos anos vinte e década de trinta. Carneiro fixa exemplarmente o espírito de fim de festa da época no frenesi gráfico que sugeria mais do que definia as formas, quase sempre inacabadas, construindo fantasmáticas presenças que conferiam ao tema uma expressiva morbidez. O traço múltiplo de Carneiro teve curioso paralelo com o contemporâneo Stuart de Carvalhaes mas revela propriedades cinéticas e uma elegância formal que o pincel crespo de Stuart nunca pretendeu. Alinhado pela segunda geração modernista, companheiro de Tagarro, Bernardo Marques e Roberto Nobre na ilustração das revistas, Carneiro refletia uma inquietação espiritual no seu trabalho a que não seria alheia a influência do pai, o pintor António Carneiro. O Simbolismo retardado que herdou do mestre prestava-se a livros de temática mística ou religiosa como Iluminuras, uma coletânea de contos de Serafim Leite editada em 1930. Carneiro ilustrou as mais importantes revistas e jornais da época, como o Magazine Bertrand, Civilização, Ilustração, Eva, Diário de Notícias Ilustrado ou o Jornal de Notícias. Foi prolífico na ilustração para a infância, com livros na Colecção dos Pequeninos da editora ENP, livros escolares e vasta obra n’O Comércio Infantil, suplemento do diário Comércio do Porto, de 1928 a 1936. A memória de António e Carlos Carneiro está preservada numa unidade museológica, a Casa-Oficina António Carneiro, mandada construir pelo próprio para residência e atelier, nos anos 20 do século passado, na cidade do Porto.

Death becomes us very well

 Carlos Carneiro (Porto, 1900-1971) observed and used the antics of members of high society adrift in their empty nightclub lives and stifling contemporary conventions, or else the contrasting squalor of the poor, in his disenchanted and sometimes gloom-ridden drawings for sophisticated magazines at the end of the 1920s and into the 1930s. Carneiro managed to capture this end-of-an-era spirit with his frenetic drawing style that hints at rather than delineates shapes, almost always unfinished, by creating eerie figures that make the subject matter gruesomely expressive. Interestingly, he drew with multiple lines much like his contemporary, Stuart de Carvalhaes, although Stuart had a stiff approach and never attempted liveliness or elegance of form. Aligned with second modernism, Carneiro worked as an illustrator for magazines alongside Tagarro, Bernardo Marques and Roberto Nobre. The spiritual uneasiness sensed in his work was due in part to his father’s influence. The painter António Carneiro passed onto him a familiarity with the latter period of Symbolism, and this lent itself to the mystical and religious in books such as Iluminuras, a collection of stories written by Serafim Leite and published in 1930. Carneiro did the illustrations for the leading magazines and newspapers of his time, such as Magazine Bertrand, CivilizaçãoIlustraçãoEvaDiário de Notícias Ilustrado and Jornal de Notícias. He did numerous drawings for children’s books in the Colecção dos Pequeninos that ENP published, schoolbooks and O Comércio Infantil, a supplement that came out with the daily newspaper Comércio do Porto between 1928 and 1936.  The legacies of António and Carlos Carneiro have been preserved in the Casa-Oficina António Carneiro, which the painter had built for himself as both home and studio in the 1920s in Oporto.

“História de uma carta azul”, por Fernando de Pamplona, Magazine Bertrand nº 42, junho 1930

“Idílio em terras de África”, por Maria Reis, Magazine Bertrand nº 38, fevereiro 1930

“Durga a deusa da vingança” por um oficial de marinha, Civilização, n.º 60, junho 1933

“A testemunha oculta” por Garnett Radcliffe, Civilização, n.º 36, junho 1931

“A alma das coisas”, por Maria Reis, Magazine Bertrand nº 30, junho 1929

“A Farrrusca sabe!” por Phillips Oppenheim, Ilustração 115, 1 outubro 1930

“No paiz dos moínhos” por Yolanda de Yonville, Civilização, n.º 89, maio 1936

Iluminuras, Serafim Leite, edição da revista Brotéria, 1930

Iluminuras, Serafim Leite, edição da revista Brotéria, 1930

Retrato de Carlos Carneiro, Civilização, n.º 33, março 1931

As ilustrações foram restauradas digitalmente The illustrations were digitally restored

Fontes Sources

António Carneiro, catálogo, Fundação Calouste Gulbenkian, 1973

Dicionário de Pintores e escultores portugueses, Fernando de Pamplona, 3.ª edição, 1991

Dicionário dos Autores de Banda Desenhada e Cartoon em Portugal, Leonardo de Sá e António Dias de Deus, Edições Época de Ouro, 1999

Casa-Oficina António Carneiro, Rua António Carneiro, 363, Bonfim, Porto

 

Filed under: Carlos Carneiro,

One Response

  1. Pedro Amaral diz:

    bellissimo!!!

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