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histórias da ilustração portuguesa

Les portugais sont toujours gais

Revista Portugal n.º 2, 24 agosto 1919

É uma das mais fascinantes ilustradoras portuguesas dos primórdios do século vinte. Contemporânea de Mily Possoz, Jorge Barradas e Stuart, foi pintora, ilustradora e exímia cantora de lied. Pertencia a uma das famílias mais cultas da burguesia lisboeta, os Rey Colaço. Gravitavam à volta do patriarca Alexandre, pianista e compositor de mérito, que facultou às suas quatro filhas Jeanne, Maria, Amélia e Alice uma cuidada e moderna educação artística. A irmã mais nova, Amélia Rey Colaço haveria de fundar uma notável dinastia no teatro português. O intenso tráfego artístico e social do clã, onde constavam recitais públicos com três das irmãs Colaço, pode confirmar-se numa curiosa carta de Alice, dirigida a Manoel de Sousa Pinto, escritor, publicista e biógrafo do pintor Malhoa, onde a ilustradora se escusa a uma colaboração com o pretexto de uma exposição próxima. Omissa em datas, a carta talvez se refira a uma exposição partilhada com Milly Possoz, na Sala Bobone, em 1919. Em livros, revistas e postais, teve Alice Rey Colaço (Lisboa, 1893-1978) uma continuada produção ilustrada em registo despreocupado, às vezes pícaro. A figuração de Alice, com as caraterísticas caras risonhas, corpos esbeltos e elásticos invariavelmente calçados com sapatos cardados ou leves tamancos, reflete ainda a visão idílica do Romantismo novecentista sobre o paupérrimo e inculto mundo rural português da época, subjugado pela Igreja, o caciquismo político e a tirania dos grandes proprietários. No segundo número de 1919 da Revista de Portugal, Jorge Barradas desenha a capa com o mesmo tema. Mas o virtuosismo descritivo de Barradas não rivaliza com o traço estilizado de Alice numa das páginas interiores. Com a ausência de contorno nos rostos ou as texturas gráficas dos trajes, Alice quebrava os cânones naturalistas dos ilustradores académicos Roque Gameiro e Alberto Souza e destacava-se na vanguarda da primeira geração modernista.

 

Segunda-feira

Exmo. Amigo,

Tenho a certeza que me perdoará se finalmente lhe não dou o prometido desenho para a sua revista! Eu estava, como viu, com o maior empenho em collaborar n’ella, porque sei que a sua apparição vae constituir um acontecimento mas tendo a necessidade de me concentrar para o trabalho de uma exposição que necessito fazer o mais breve possível, receio que estes dois ou três mezes que faltam mal cheguem para tudo o que tenho que fazer. Se a revista continuar, como tudo leva a crer, espero que depois da exposição me dê novamente o prazer de me incluir no numero dos seus collaboradores. Peço-lhe, acredite na admiração sincera da sua dedicada

Alice Rey Colaço

A tolice e a manha populares, consagradas na tradição oral e na cultura erudita, fizeram género cómico na literatura para a infância. Alice ilustra João Pateta, história tradicional de um saloio apalermado que arruína a economia doméstica com os disparates que comete no mercado local, para desespero da extremosa e inteligente esposa que o resgata num comovente happy end. O tema caricatural do livro, com as suas estampas polícromas coladas no miolo de papel pardo, tem semelhanças com algumas obras de Ana de Castro Osório, ilustradas por Leal da Câmara, reeditadas pelos finais dos anos dez.

 

A obra musical do pai, Alexandre Rey Colaço, foi pioneira ao relacionar temas populares portugueses com a música para piano. Cantigas de Portugal foi uma incursão pelo folclore nacional, 15 canções para piano e voz, com a colaboração vocal da mana Maria, e que teve em 1918 edição em vistoso álbum com ilustrações e vinhetas de Alice, litografadas em cores suaves. Alice revisita vários standards da vida campestre, do namoro à despedida, dos folguedos ao trabalho.

Os postais ilustrados foram um must do início do século e os trajes e costumes populares fizeram a sua aparição bem cedo, em 1904, pela mão de Alberto Souza. Os postais ilustrados por Alice são da década seguinte. Quadras amenas e pares esbeltos compõem duas séries dedicadas aos idílicos amores campestres e figuras típicas do comércio lisboeta integram a série Pregões de Lisboa. Apesar da glorificação da cidade e do progresso tecnológico operada pelo Modernismo, a versão estilizada do mundo rural haveria de ter um longo e sedutor percurso durante a primeira metade do século, acabando enquadrada no programa ideológico e estético do Estado Novo e dos seus organismos de propaganda, como o SPN e o SNI.

As alegres criaturas de Alice roçaram o paradoxo no livro Os Lobos, célebre peça de teatro, de Francisco Lage e João Correia de Oliveira, levada à cena em 1920, contando nos principais papéis com a irmã Amélia e o cunhado Robles Monteiro. A peça foi adaptada a filme logo em 1923, realizado por Rino Lupo. Esta “Tragédia Rústica em Três Actos”, conta um medonho drama passional numa aldeia serrana, cujo desfecho acaba com um assassínio à machadada. A crueldade da história fica bem servida na notável capa do livro, com a aparição de uma  vampiresca personagem. Mas as três ilustrações do interior, em extratexto, retomam o estilo alegre de Alice, sem sombra de tensão dramática. Outra peça de teatro, Zilda, tem também uma excelente capa. Mais uma vez, a família está presente no palco e Zilda é, claro, representada pela irmã Amélia. Aguarelas descritivas no miolo do livro revelam os cenários da peça, ilustradas também por Possoz e Barradas.

Les portugais sont toujours gais

She is one of the most fascinating Portuguese illustrators of the early 20th century. A contemporary of Mily Possoz, Jorge Barradas and Stuart, she was a painter, illustrator and an outstanding lied singer. She was a Rey Colaço, one of Lisbon’s most cultured bourgeois families, whose members orbited around the patriarch, Alexander.  He had carefully provided his four daughters, Jeanne, Maria, Amélia and Alice with a fine artistic education. The youngest sister, Amélia Rey Colaço, was to found a remarkable theatrical dynasty. The family’s intense social and artistic activities – three of the Colaço sisters gave public recitals – is attested to by an interesting letter she wrote to Manoel de Sousa Pinta, a writer, publicist and biographer of the painter Malhoa. In it, Alice makes her excuses for not collaborating with a magazine on the grounds that she has an approaching exhibition. The undated letter could well refer to an exhibition she and Milly Possoz held together in the Sala Bobone in 1919. Alice Rey Colaço (Lisboa, 1893-1978) produced a steady stream of light-hearted, sometimes rather sly, illustrations for books, magazines and postcards. Her characters have smiles on their faces and graceful, lithe bodies and are invariably clad in light clogs or slippers. They mirror a still idyllic 19th-century Romantic vision of the poverty-stricken and ignorant Portuguese country people of the time, crushed by the Church, political cliques and despotic landowners. In the second edition in 1919 of Revista de Portugal, Jorge Barradas designed the cover on the same theme.  But the virtuosity of Barradas’ descriptive drawing bears no comparison with Alice’s stylized drawings in one of the pages inside. With their absence of contour around the faces and the graphic texture of the costumes, her drawings break away from the naturalist canons of the academic illustrators Roque Gameiro and Alberto Souza, and place Alice in the front line of the first Modernist generation.

 

Common folk’s foolish and crafty ways emerge in both oral traditions and high culture and were a comical genre in children’s literature. Alice illustrated the book João Pateta, which tells the story of a slow-witted country bumpkin who ruins his family with his brainless doings at the local market to the despair of his intelligent but doting wife.  However, she manages to save him in the poignant happy end. The humour in the book with its coloured illustrations pasted onto brown paper is similar to that of works by Ana de Castro Osório with illustrations by Leal da Câmara, which were republished at the end of the 1910s.

 

Alexandre Rey Colaço was a pioneer in arranging popular Portuguese themes for the piano. He ventured into Portugal’s folklore with 15 songs for voice and piano – and the vocal assistance of their sister Maria – which came out in a striking-looking album called Cantigas de Portugal with Alice’s lithographed illustrations and vignettes in soft shades. Alice revisited standard examples of country life, ranging from peasant courtships and farewells to their pastimes and work. Illustrated postcards were considered a must at the start of the century and Portuguese costumes and customs appeared in them in 1904 in Alberto Souza’s work. Alice’s illustrated postcards arrived the next decade. There are sweet little verses and charming couples in two sets of postcards devoted to idyllic country love and typical Lisbon tradesmen in Street Cries of Lisbon. Despite Modernism’s technological advances and glorification of the city, stylised versions of country life were to continue their long, charming trajectory in the first half of the 20th century to became part of the New State regime’s ideological and aesthetic programme and its propaganda machine.

Alice’s cheerful characters become almost absurd in Os Lobos [The Wolves], a famous play by Francisco Lage and João Correia de Oliveira. It was performed in 1920 with her sister Amélia and brother-in-law, Robles Monteiro, in the leading roles.  The play was soon adapted in 1923 into a film directed by Rino Lupo.  This “Tragédia Rústica em Três Actos” is a horrific tale of passion in a mountain village and ends with a hatchet murder. The cruelty of the story is well matched by the remarkable book cover in which an unhinged vampiresque creature appears.  But the three extra-text illustrations within the book are a return to Alice’s joyful style without a shadow of dramatic tension. Another play, Zilda, has an excellent book cover as well. Once again, the Rey Colaço family performed on stage and Zilda was, of course, played by her sister Amélia. The watercolours in the book are of the stage sets, which were also illustrated by Possoz and Barradas.

O título do post é um verso da ópera cómica Le jour et la nuit (1881) de Charles Lecocq.

Fontes Sources

Amélia Rey Colaço, Fotobiografias Século XX, Júlia Leitão de Barros, coord. Joaquim Vieira, Círculo dos Leitores, 2009

Filed under: Alice Rey Colaço,

6 Responses

  1. dora diz:

    o post é uma justissima ilustração do tal verso da “Le Jour et la nuit” ( si vrais … )

  2. Pedro Amaral diz:

    muito belo.. e a carta…uma delícia, o fax da altura, agora e mail…🙂

  3. Ele há coincidências…
    Um abraço do Almanaque ao lishbuna.blogspot.com

  4. Raquel Patriarca diz:

    Isto parece bruxedo… ainda a semana passada estive a carpir o não me terem deixado fotografar o exemplar do João Pateta da Biblioteca Pública Municipal do Porto! O seu trabalho, Jorge, já merece um parágrafo ou dois de agradecimentos na minha tese!
    Um abraço e mais obrigados,
    Raquel Patriarca

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