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histórias da ilustração portuguesa

Toca a lavrar!

Série B n.º 10, ETP, 1942

“Nenhuma fonte de substâncias alimentares, recanto ou nesga de terra podem ficar inactivos…”

O piretro, o sorgo, a garroba, a rutabaga, as ervilhacas, o gero, o chicharro e, claro, vegetais mais canónicos como o nabo ou o milho, eram apresentados como solução de cultivo e fonte de rendimento aos agricultores portugueses num esforço concertado do Ministério da Economia do Estado Novo para aumentar a poupança, a auto-suficiência e reduzir a pobreza e a deficiente nutrição que grassavam em Portugal durante a Segunda Guerra Mundial. A ambiguidade da diplomacia de Salazar e as conveniências das potências beligerantes pouparam o país aos horrores da guerra mas não impediram a espiral de pobreza nos campos, o racionamento e o mercado negro de géneros alimentares. Para estimular a produção agrícola e pecuária, que pretendia minorar também os efeitos das desastrosas colheitas de 1940 e 1941, o Ministério da Economia desenvolveu uma intensa campanha de cartazes e publicações técnicas de teor pedagógico, que não pareciam ter um modelo de design definido. A ilustração dos temas e a tipografia apresentavam variados registos, da fotografia à ilustração, do hiperealismo exuberante da Cultura dos Morangueiros até ao modernismo monócromo da Cultura da Batata. Gráficamente, de tudo havia, como no mercado. Ainda assim, as capas queriam-se atraentes, já que o interior era despachado sumariamente com um grafismo funcional. Considerando a alta taxa de analfabetismo em Portugal, que em 1940 era de 52%, podemos supor que a clientela primária dos folhetos seria a dos grandes proprietários e técnicos agro-pecuários estatais organizados e espalhados por todo o país em Brigadas Técnicas.

Autor recorrente das campanhas de sensibilização para a “batalha da produção”, Abílio de Mattos e Silva (Sardoal, 1908-Lisboa, 1985), ilustrou muitas das publicações da extensa Série B para a Campanha Agrícola do Ministério da Economia e uma série “concorrente” anterior do Ministério da Agricultura. Ilustrador de revistas como a Presença, Atlântico e Agricultura, muito do seu labor foi dedicado ao estudo e representação dos costumes tradicionais do litoral do país, declinado em coleções de postais, menus da TAP e no cativante álbum de costumes O Trajo da Nazaré, que o há-de trazer de novo ao écrã do Almanaque. O interesse pelas gentes do mar vinha da sua estadia na Nazaré, de 1931 a 36, e do contato estreito com pintores portugueses e estrangeiros que partilhavam o fascínio pela vila piscatória. Paixão que Abílio estendeu nas suas férias estivais de muitos anos à vizinha vila de Óbidos, que lhe dedica desde 2005 um museu com o seu nome. Mas a dimensão mais importante da sua obra gráfica foram os cenários e figurinos para teatro, ópera, ballet e cinema. Diretor de cena do Teatro São Carlos, o seu papel como decorador das artes do espetáculo, iniciado em 1936 com a peça Tá-Mar, foi justamente reconhecido numa exposição no São Carlos em 1970 e numa retrospetiva em Óbidos em 1984.

Back to ploughing again!

“No source of food, no piece or patch of earth may remain fallow …”

Pyrethrum, sorghum, rutabaga, several species of vetches and, of course, the more familiar vegetables such as turnips and maize, were presented as the agricultural answer for Portuguese farmers and a source of income in a concerted effort by the New State’s ministry of economy to increase savings, self-sufficiency and reduce poverty and deficiency of foodstuffs, which were rife in Portugal during the second world war. Salazar’s ambiguous diplomacy and agreements reached between warring nations spared Portugal the horrors of war but failed to stop spiralling poverty in the country, rationing and a black market. In order to mitigate the disastrous results of the 1940 and 1941 harvests, the ministry of economy launched an intensive campaign to inform the Portuguese and stimulate agriculture with posters and technical publications that share no clearly defined design. Illustration of themes and their typography vary between photographs and illustrations, exuberant hyperrealism in Cultura dos Morangueiros [Growing Strawberries] and monochrome Modernism in Cultura da Batata [Growing Potatoes]. Graphically speaking, there was a bit of everything, just as in a marketplace. Even so, the covers were supposed to be appealingbut the contents were quickly dispatched with functional graphics. Given the illiteracy rate in Portugal was 52% in 1940, we can only surmise that most people who got these booklets were landowners or then state-employed agriculture and farm livestock technicians, who were being sent out in Brigadas Técnicas throughout the country.

Creator of several campaigns to raise awareness of the “production battle”, Abílio de Mattos e Silva (Sardoal, 1908-Lisbon, 1985), illustrated many publications for the lengthy Campanha Agrícola do Ministério da Economia B seriesand a “rival” series beforehand for the ministry of agriculture. He did illustrations for magazines such as PresençaAtlântico and Agricultura, but much of his work was focused on researching and drawing the traditional costumes of coastal communities for postcard collections, TAP airline menus and the delightful album on costumes O Traje da Nazaré, which brings him back to our Almanaque. His interest in fishing folk was sparked when he lived in Nazaré between 1931 and 1936 and his close contact with Portuguese and foreign painters who were equally fascinated by the fishing village. This passion continued throughout the many summer holidays Abílio spent in the neighbouring town of Óbidos, where a museum in his name opened in 2005. But the most important facet of his work were the sets and wardrobe he designed for the theatre, opera, ballet and cinema. He was stage director at the Teatro São Carlos opera house, and his work as a performing arts decorator, which began in 1936 with the play Tá-Mar, was rightly acknowledged in an exhibition in the São Carlos in 1970 and a retrospective in Óbidos in 1984.

Série B n.º 5, Abílio de Mattos e Silva, 1942

Série B n.º 14, Abílio de Mattos e Silva, 1942

Série B n.º 25, Abílio de Mattos e Silva, 1942

Série B n.º 31, Abílio de Mattos e Silva, 1942

Série B n.º 44, Abílio de Mattos e Silva, 1943

Série B n.º 54, Abílio de Mattos e Silva, 1944

Ministério da Agricultura, Série Divulgação n.º 15, Abílio de Mattos e Silva, 1939

Fontes Sources

http://www.cm-sardoal.pt/pt

http://www.cm-obidos.pt

30 anos de Teatro, Catálogo, Teatro Nacional de S. Carlos, 1970

Portugal Século XX, Crónica em Imagens, 1940-1950, Joaquim Vieira, Círculo dos Leitores, 2000

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