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histórias da ilustração portuguesa

Rigor Mortis

Jogo da Glória, Almanaque dez 1960-jan 61

Foi o herdeiro das resmas de Almanaques, Almanachs e Almanaks que fizeram as delícias de século e meio de burgueses sedentos de cultura em comprimidos. A estrutura era a mesma, sortido fino e grosso de calendário e cultura geral, coisa engendrada pelo editor Figueiredo Magalhães, o escritor Cardoso Pires e mais uma mão cheia de venenosos escribas com muitas contas a ajustar com o seu cantinho à beira-mar. Este Almanaque tinha a mão do designer Sebastião Rodrigues, tecendo a sua obra prima de portugalidade gráfica e, a páginas tantas, o cronista fatal para aqueles cinzentos anos de um regime que, se abria mão aos prazeres do gazcidla e do frigorífico, amodorrava as consciências numa amnésia de naus e armaduras, censurando zelosamente todo o papel impresso e por imprimir. João Abel Manta (Lisboa, 1928) chega ao Almanaque em dezembro de 1960. E acabam logo ali os cartoons avulsos que eram tique sediço de outros Almanachs. E começa gloriosa cavalgada ilustrando o cadáver, já putrefacto nos anos sessenta, do Estado Novo, o malfadado Reino dos Pachecos, maquinação em código deste Almanaque. Foi a paródia aos epicenos (definição: nomes dos animais que designam indiferentemente o macho ou a fémea) inventariando as fases de vida de um típico casal com o seu cortejo de ilusões e secretas infidelidades. Foi a passerelle de uniformes urbanos de variegada fauna, os artistas reumáticos da Sociedade Nacional de Belas Artes, os intelectuais caixa de óculos que queriam salvar o mundo à mesa do café, os marialvas, toureiros e pintas de toda a pinta, que escondiam as mulheres em casa para se babarem de gozo na rua. Foram as mazelas escondidas da Lisboa capital, a precisar de novo terramoto. Foi, enfim, o retrato crudelíssimo de uma sociedade de tristes à espera de um longínquo Abril. O traço limpo e esquemático de JAM, parente rico do seu labor de arquitecto, haveria de se tornar mais nodoso e necrófilo ao longo dos sessentas e setentas, até à obra primíssima Caricaturas Portuguesas dos Anos de Salazar, o corpus-mortem mais empenhado da miséria lusa, se descontarmos o bisturi de outro médico legista um pouco mais desbocado, o famigerado José Vilhena. Caro leitor, Não lhe parece que o Reino dos Pachecos está de volta, ou mais precisamente, nunca acabou?

Rigor mortis

He inherited reams of almanaques, almanachs and almanaks that delighted for a hundred and fifty years the middle-class thirst for culture in a pill form. The structure was the same and consisted of a refined and a less refined choice of calendar events and general culture. It had been conceived by the publisher Figueiredo Magalhães, the writer Cardoso Pires and a handful of writers with venomous pens and many a score to settle with this their little homeland-by-the-sea. Behind the Almanaque was the designer Sebastião Rodrigues, whose illustrated ‘Portugueseness’ was a work of art. At some page or other, he would bleakly chronicle the grey years under Salazar’s New State, which allowed the country to enjoy the benefits of fridges and gas at home, but also dulled people’s awareness in an amnesia brought on by Portugal’s past, its caravels and armour. The regime zealously censored and controlled all and any paper that had been or was to be printed on. João Abel Manta (Lisbon, 1928) came to Almanaque in December 1960. And this put an immediate end to the assorted cartoons that had become the stale practice in other Almanachs. But it was the start of the glorious cavalry charge of the cadaver of Salazar’s regime, already putrid by the 1960s, in the ill-starred Reino dos Pachecos [Reign of the Pachecos], the Almanaque’s coded ruse to dodge the censors. It was a spoof on epicenes (animals that lack gender distinction) and listed the phases in the life of a typical couple and the trail of illusions and secret infidelities they leave behind. It was a parade of different animals in urbane uniforms: rheumatic artists from the National Fine Arts Society, bespectacled intellectuals who wanted to save the world while sitting in cafés, aristocratic rakes, bullfighters, creatures of all shapes and sizes who kept their womenfolk at home and out of sight while they drooled with the pleasures of the streets. They represented the concealed, squalid flaws of Lisbon, a capital in need of another earthquake. It was a bitterly cruel portrait of a sad society waiting for some distant April revolution. Manta’s clean, concise style, related to his architectural work, would become more voluminous and necrophiliac throughout the 1960s and 70s. He then produced that great work of art, Caricaturas Portuguesas dos Anos de Salazar, the most unwavering ‘corpus-mortem’ of Portuguese miserableness if we leave out another coroner with a scalpel, the remarkable and slightly bolder José Vilhena. Dear Portuguese Reader, doesn’t it seem to you that the Reino dos Pachecos has returned, or rather, it never really came to an end?

Pequeno Mostruário de Uniformes da Noite «Midnight Snacks» e Literatura de Chevet, Almanaque, maio 1961: o Sedutor; o Artista Plástico e o Proletário do Alto Pina; o Último dos Roupinhos e o Chefe de Repartição

Manifesto Suave Pela Reeducação dos Adultos, Almanaque, dezembro 1960-janeiro 1961

O Comum de Dois, Almanaque, fevereiro 1961

Quem Não Quer Ser Homem Não Lhe Veste a Pele, Almanaque, dezembro 1960-janeiro 1961

Monumentos (Subterrâneos e Subaquáticos) Ignorados de Lisboa, Almanaque, março-abril 1961

Pequeno Álbum de Fantasmas Genuínos Devidamente localizados e Referenciados, Almanaque, maio 1961: William (Wildbill) Peacock e Don Juan Baltasar Valdés de Alarcon; Ernesto da Purificação Semedo e Sturmbannfueher Hermann Rudolf Von Streicher

As ilustrações foram restauradas digitalmente The illustrations were digitally restored
Fontes Sources
João Abel Manta, Obra Gráfica, catálogo, Câmara Municipal de Lisboa, 1992
João Abel Manta, Caprichos e Desastres, João Paulo Cotrim, Assírio & Alvim / El Corte Inglés / CML, Museu Bordalo Pinheiro, 2008

Filed under: João Abel Manta,

4 Responses

  1. carlos rocha diz:

    João Abel Manta ( Lisboa 1905 ) foi lapso por como se sabe é (Lisboa 1928)

  2. Oops! Desculpas a todos e um obrigado ao Carlos Rocha

  3. Leonor diz:

    Consegui resgatar o Almanaque de Maio de 61 numa feira de velharias há bem pouco tempo, um tesouro.

  4. ken shouji diz:

    PARABÉNS PELO FELIZ DESEMPENHO NESTAS RESTAURAÇÕES ! ADMIRO AS LINDAS ILUSTRAÇÕES CÁ DO DISTANTE JAPÃO ! GUARDO ESTA ADMIRÁVEIS IMAGENS PARA A MINHA COLEÇÃO DE MEUS DESENHOS …

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