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histórias da ilustração portuguesa

Rei Sol

Portugal País de Turismo, Anuário, 1962-1963

Portugal País de Turismo, Anuário, 1962-1963

António Ferro foi afastado do Secretariado Nacional da Informação em 1949. Foi o princípio do fim da sua Política do Espírito e da tutela sobre uma fatia considerável das artes gráficas portuguesas. Eixo programático do SNI e do Estado Novo, o turismo glamouroso e elitista, assente na pureza do ar e dos costumes regionais, cedeu o passo ao turismo de massas, à iniciativa privada e a práticas de marketing mais agressivas e abrangentes. As praias e o clima tornaram-se a locomotiva desta estratégia e o Sol, entidade intangível e felizmente fora do alcance de mãos humanas, tinha bastante potencial iconográfico, alicerçado em profundas e espirituais relações com a história da Humanidade. O astro bonacheirão esbanjava calor neste cantinho à beira-mar e vendê-lo aos turistas com as estilizações gráficas modernistas dos anos quarenta não parecia ser opção. Queimando tempo até à invasão da fotografia, fazia falta pincel voluntarioso, saturando o papel de nuances cromáticas e texturas complexas, fazendo justiça a divindade tão gasosa quanto influente. E foi um arquiteto, Oskar (Óscar Pinto Lobo, Goa 1913-Lisboa 1995) quem desempenhou a tarefa, ilustrando pictóricos e calorosos discos solares nas inúmeras publicações que ao longo das décadas de 50 e 60 venderam os estatísticos 250 dias de sol por ano a estrangeiros ávidos de luz e calor. De 1932 a 1943, Oskar teve papel relevante em jornais humorísticos e revistas infantis, de que podemos realçar o Sempre Fixe e O Senhor Doutor, com as bds Aventuras de Tom Migas e do seu Cavalo Caralinda, e as adaptações de Bucha e Estica. Foi diretor gráfico do SNI e consultor técnico da Junta de Turismo da Costa do Sol. Ao serviço de instituições oficiais e privadas ligadas ao Turismo, desenvolveu muita da sua atividade como designer e ilustrador, com presença assinalável nas publicações da Junta e nos anuários Portugal País de Turismo onde dividiu a colaboração artística com Manoel Lapa. Oskar deu uma cara à propaganda turística portuguesa por mais de uma década com os seus energéticos sóis, fonte de vida … e de divisas.

The Sun King

António Ferro was removed from the State Propaganda Bureau in 1949. This meant the beginning of the end of his Política do Espírito [Policy of the Spirit] and his sway over a large portion of Portuguese graphic arts. The bureau had been the New State’s programming vehicle for Portugal’s glamorous and elitist tourism based on its clean, pure air and its regional customs. It now gave way to mass tourism, private initiative and more aggressive and wider-ranging marketing practices. Beaches and climate became the means to achieve targets and the intangible Sun, fortunately beyond man’s reach, had a great deal of iconographic possibilities rooted in its profound spiritual relations with the history of mankind. The cheerful old star beamed down on this little country by the sea. Selling it to tourists with modernist graphic stylizations of the 1940s hardly seemed an option. Until the arrival of photography, there was a need for a resolute paintbrush to saturate paper with chromatic nuances and complicated textures and do justice to the divinity up high, as gaseous as it was influential. It was an architect, Oskar aka Óscar Pinto Lobo (Goa 1913-Lisboa 1995), who took up the challenge. He created picturesque, balmy solar disks for numerous publications in which the statistically-determined 250 days of sun a year was sold to foreigners eagerly seeking light and sunshine in the 1950s and 1960s. He worked as a designer and illustrator for both state and private companies in the tourism business. He did striking illustrations for the Tourist Board and collaborated with Manoel Lapa in the artwork for the Portugal País de Turismo yearbooks. Oskar created the style for Portugal’s tourism board information for over a decade with his energetic suns, from whence came life … and foreign currencies.

Cascais e Seus Lugares, Revista de Cultura e Turismo, n.º XVII, fevereiro de 1963

Cascais e Seus Lugares, Revista de Cultura e Turismo, n.º XVII, fevereiro de 1963

Cascais e Seus Lugares, Revista de Cultura e Turismo, n.º XVII, fevereiro de 1963

Cascais e Seus Lugares, Revista de Cultura e Turismo, n.º XVII, fevereiro de 1963

Folheto Pesqueiros Cascais-Guincho, 1961

Folheto Pesqueiros Cascais-Guincho, 1961

Portugal País de Turismo, Anuário, 1961-1962

Portugal País de Turismo, Anuário, 1961-1962

Portugal País de Turismo, Anuário, 1962-1963

Portugal País de Turismo, Anuário, 1962-1963

Portugal País de Turismo, Anuário, 1964-1965

Portugal País de Turismo, Anuário, 1964-1965

Portugal País de Turismo, Anuário, 1962-1963

Portugal País de Turismo, Anuário, 1962-1963

Publicidade, Portugal País de Turismo, Anuário, 1966-1967

Publicidade, Portugal País de Turismo, Anuário, 1966-1967

Exposição conjunta com Paulo-Guilherme, na sede da Junta de Turismo da Costa do Sol, 1963

Exposição conjunta com Paulo-Guilherme, na sede da Junta de Turismo da Costa do Sol, 1963

As ilustrações foram restauradas digitalmente The illustrations were digitally restored
Fontes Sources
Dicionário dos Autores de Banda desenhada e Cartoon em Portugal, Leonardo de sá, António Dias de Deus, Edições época de Ouro, 1999

Filed under: Oskar, ,

2 Responses

  1. “Eixo programático do SNI e do Estado Novo, o turismo glamouroso e elitista, assente na pureza do ar e dos costumes regionais, cedeu o passo ao turismo de massas, à iniciativa privada e a práticas de marketing mais agressivas e abrangentes.”
    Faz-se aqui, na minha opinião, uma passagem demasiado rápida entre os anos de Ferro até 1949 (com o “Panorama” do seu tempo) e o início dos anos 60, que são já de facto os que se ilustram nas imagens publicadas.
    A invençao do Turismo como campo dos lazeres e da economia (o turismo moderno, já não restrito à aristocracia ociosa e aos artistas) é um processo longo, cujas 1ªs décadas coincidem com a actividade da SOCIEDADE PROPAGANDA DE PORTUGAL, progressivamente absorvida pelo Estado Novo, e em especial pelo SPN e depois o SNI. Nos anos 50, Portugal abre-se ± desconfiada e lentamente aos turistas estrangeiros, que, aliás, recomeçam só a circular nessa década, após a reconstrução da Europa devastada pela II Guerra (são já outros turistas diferentes dos dos anos 30, onde se incluem agora os que vêm descobrir um país retardatário) – e a fotografia tem aí um papel decisivo (de Cartier Bresson, Boubat, Kees Scherer, Peter Fink, etc – ver Jorge Calado, catálogos “Dedans Dehors” e “Olhares Estrangeiros”). No Facebook fui acrescentando mais informações sobre a SPP, que tantas vezes se confunde com SPN.
    Mas parabéns pelo levantamento e divulgação (propaganda) que tem vindo a fazer.

  2. Pedro Amaral diz:

    Excelente texto e notável trabalho de restauração gráfica das ilustrações. Obrigado por esta bela prenda de natal!

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