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histórias da ilustração portuguesa

A viagem de Ícaro

Paulo Leal 1

Paulo Leal (Figueira da Foz, 1968) chegou ao jornal O Independente em setembro de 1996 para apresentar ao diretor de arte uma proposta de colaboração baseada nas suas pesquisas gráficas iniciadas nesse mesmo verão e em sequência do trabalho escolar na Faculdade de Belas Artes de Lisboa. Leal aparecera no timing certo. No final do ano anterior, uma remodelação gráfica e editorial da revista Vida, reencarnação do célebre Caderno 3 do jornal, tinha amalgamado os cronistas do magazine numa sequência ininterrupta de textos. A encomenda antecipada era ineficaz e as ilustrações passaram a intercalar os textos sem página ou tema predefinidos. Ressuscitava assim uma prática comum nos primeiros anos d’ O Independente, em 88 e 89, protagonizada pelo primeiro diretor de arte do jornal, Jorge Colombo, que a crismara como blind date. Este processo de trabalho eliminava um dos académicos atributos da ilustração: a subordinação da imagem ao texto. A blind date era um manifesto de liberdade criativa, sublinhando o meio como mensagem, valorizando os universos conceptual e gráfico do ilustrador. Os ilustradores entregavam regularmente ilustrações avulsas e cabia ao diretor de arte a oportunidade da sua publicação. As crónicas da Vida duplicavam-se, portanto, pelos textos e imagens, e os ilustradores podiam desenvolver livremente as suas pesquisas temáticas e visuais. Exemplos notáveis desses anos foram a série de astronautas de Pedro Amaral, as ilustrações-cartune de Alice Geirinhas e claro, as belas e bizarras metáforas de Paulo Leal. As 20 ilustrações publicadas, entre outubro de 96 e outubro de 97, tinham inegáveis qualidades narrativas, misturando referências visuais das artes eruditas e da cultura urbana contemporânea em surrealizantes colagens gráficas de solitárias presenças humanas, cenários de propaganda comercial e turística ou ainda máquinas e artefactos domésticos ou pré-industriais apropriados de gravuras do século XIX. Leal realizava-as num original cocktail de materiais de desenho, como acrílico, tinta permanente, modestas esferográficas BIC, tudo aplicado sobre uma base de cola misturada com tinta. Leal não imitava o registo das referências originais e operava um grafismo pessoal que podemos olhar hoje como pioneiro dos registos descritivos e informais no desenho e figuração nas artes visuais contemporâneas.

The voyage of Icarus

Paulo Leal (Figueira da Foz, 1968) arrived at the newspaper, O Independente, in September 1996 and proposed to the art editor that they should collaborate on work based on graphic research he had begun that summer for his course at the Faculty of Fine Arts in Lisbon. His timing couldn’t have been better because at the end of 1995 there was a reshuffle in the graphic and editorial departments of the Vida magazine (a reincarnation of the newspaper’s well-known Caderno 3 supplement), which had kept up in an unbroken sequence the magazine’s columns. The expected results had been disappointing and illustrations were being inserted into texts with no predetermined paging and themes. What had been the common practice in 1988 and 89 during the first years of O Independente was thus resuscitated by the newspaper’s first art editor, Jorge Colombo, who called it ‘blind dating’. This work process did away with one of those institutionalised ideas about illustration: that images are subordinate to text. The ‘blind date’ was a declaration of creative freedom thereby underscoring that the medium was the message and valuing the designer’s conceptual and graphic universe. Illustrators would regularly hand in an illustration and it was up to the art editor to decide when to publish it.  Texts and images duplicated in Vida magazine columns, and illustrators were left free to delve in thematic and visual explorations. Remarkable examples during those years were Pedro Amaral’s series of astronauts, Alice Geirinhas’ illustrations and strip-cartoons and of course, Pedro Leal’s beautiful, bizarre metaphors. The 20 illustrations that were published between October 1996 and October 97 were of indisputable narrative quality, combining visual references to the fine arts with contemporary urban culture in surrealistic graphic collages of solitary human presences, settings with commercial and tourist propaganda as well as household or preindustrial appliances and artefacts appropriated from 19th-centruy engravings. Leal used a unique cocktail of drawing materials: acrylic, permanent ink and the humble BIC ballpoint pen all of which were applied on a foundation of glue mixed with ink. Leal wasn’t imitating a registration of original references but was using a personal style of graphics that we may look at today as pioneering in descriptive and informal registers of drawing and figuration in today’s visual arts.

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Filed under: Paulo Leal,

3 Responses

  1. Manuel Paula diz:

    Que é feito do Leal? Onde pára? Que faz agora?

  2. Paulo Leal diz:

    O Leal pergunta muitas vezes o mesmo. O que faz, onde anda…
    Mas avançando, pode dizer que exerce design gráfico desde 98. Fez uma aparição no jornal da Oficina do Cego em 2011 e colaborou com o Teatro Bocage na realização de alguns materiais de comunicação. Nessa altura ensaiou também o registo da ilustração infantil para corporizar a imagem das peças de teatro. E é tudo, para já…

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