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histórias da ilustração portuguesa

A tesoura libertária

João da Câmara Leme 1

A tesoura, habitualmente símbolo de censura e restrição de liberdades, tranfigura-se nestas ilustrações em ferramenta libertária. Sabemos que o artista era dado a preguiças gráficas. E a preguiça terá sido, quem sabe, motor de uma simples mas ousada solução para este livro da Colecção Pequenos Pioneiros da Editora Portugália, pelo ano de 1967. Seu autor, João da Câmara Leme (Beira, Moçambique, 1930-Lisboa, 1983), já referenciado no Almanaque a propósito das suas expressivas e elaboradas ilustrações para o universo infanto-juvenil. A História da Coelhinha Branca, escrita por Maria Helena da Costa Dias, conta-nos as peripécias de uma comunidade de coelhos a contas com o trivial da sobrevivência: comer, reproduzir-se e escapar a ferozes predadores. Uma coelha branca de olhos de fogo, acidente genético numa comunidade de dominante pelagem parda, está condenada à irrelevância e ao sacrifício na boca de qualquer gineto ou raposa. Até que, num prolongado e alvíssimo inverno, chega a sua redenção, transportando infatigavelmente a subsistência alimentar para toda a tribo, iludindo com a sua perfeita camuflagem o cerco vigilante das feras. O argumento é movimentado, a reclamar figuração explícita para a simpática moral da história, mas tal não acontece. Câmara Leme despacha o livro em quatro sumaríssimas ilustrações que parecem, no seu minimalismo e simetria geométrica, um expedito trabalho de papel e tesoura. Círculos recortados com padrões radiais dão corpo a nuvens, árvores e flores e são complementados por repetitivas e estáticas silhuetas de láparos. E neste minimalismo reside o seu particular fascínio. É tentador comparar este trabalho de Câmara Leme com outra história de coelhos, o número três da mesma coleção, A Coelhinha do Rabito de Algodão, um texto de Erskine Caldwell ilustrado por um Tóssan preocupado em representar exatamente o que se conta, no seu traço maneirista e descritivo. Sem narrar a História da Coelhinha Branca, Câmara Leme conta uma outra história e confere às imagens uma leitura mais rica. E dá de bandeja um tentador exemplo para a miudagem exercitar os seus dotes de corta e cola, num registo gráfico que parece não ter idade.

Liberating scissors

Scissors usually represent censorship and curtailed freedoms but they become tools for liberation in these illustrations. We know that the illustrator was prone to drawing in a rather lazy fashion. And laziness could have been, who knows, what actually brought about the simple but daring graphic results in the book Colecção Pequenos Pioneiros, published by Editora Portugália in 1967. The Almanaque has already mentioned João da Câmara Leme (Beira, Mozambique, 1930 – Lisbon, 1984) and his expressive, elaborate illustrations for children’s literature.  A História da Coelhinha Branca [The Story of the Little White Rabbit] by Maria Helena da Costa Dias tells of the adventures of a group of rabbits and their everyday struggle to survive: they eat, reproduce and try to evade ferocious predators. A white rabbit with flame-like eyes, a genetic anomaly among brown rabbits, is doomed to a short existence to end in the jaws of some lynx or fox. That is, until the snow during a long winter camouflages her whiteness shielding her from sharp voracious eyes encircling them as she tirelessly finds food for the whole warren. It is a narrative with such pace that it begs for obvious figurative illustrations, but it doesn’t get them. Câmara Leme does the job with four rough drawings that seem, in their geometric minimalism and symmetry, a skilful piece of paper and scissors work. Circles cut out in radial patterns represent clouds, trees and flowers that are complimented by stationary young bunnies. It is precisely within this minimalism that its special fascination lies. Not narrating História da Coelhinha Branca, Câmara Leme tells another story that gives the images an even richer meaning. And he also sets an example that encourages young children to perfect their own cut and paste skills. 

João da Câmara Leme 2

João da Câmara Leme 3

João da Câmara Leme 4

As ilustrações foram restauradas digitalmente The illustrations were digitally restored

João da Câmara Leme, A história da coelhinha branca 1967

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One Response

  1. Pequena correcção: o João da Câmara Leme faleceu em 1983…

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