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histórias da ilustração portuguesa

Only Nylon

João Abel Manta Nylon 1

Um Têxtil Moderno/Uma Marca Moderna/Um Artigo Moderno

Em 1963, as camisas de poliamida faziam a sua entrada triunfante em Portugal. A invasão, francesa, exigia uma generosa campanha de publicidade e uma força de vendas com uma fé sem rugas na fibra artificial. A história conta-se numa brochura para lojistas, desenhada por uma conceituada agência de publicidade da época, a Marca. Depois de um passeio pedagógico pelas vantagens do nylon e batendo à exaustão a tecla da modernidade, a publicação desfia um verdadeiro arsenal de veículos publicitários ao serviço da marca NYLFRANCE, prometidos para o ano de 64, como cartazes, montras, rádio e televisão, jornais generalistas, revistas temáticas e  stands de exposição. Se a publicidade para têxteis e vestuário dos anos sessenta apresentava geralmente um realismo virtuoso, fotografado ou ilustrado, esta ação interna tolerava uma abordagem mais humorada e cartunesca.

Quando Orlando Costa, diretor da agência, e o jovem designer Carlos Rocha visitam João Abel Manta (Lisboa, 1928) e o convencem a ilustrar a obra, a propaganda das camisas NYLFRANCE vai ficar marcada com o mesmo traço negríssimo da sua empenhada sátira ao “Reino dos Pachecos”, o país triste e amordaçado dos anos cinzentos de Salazar, que Manta andava a exorcizar pela revista Almanaque de Cardoso Pires e Sebastião Rodrigues, e pela triunfal exposição Situação Shakespeariana no ICA, em Londres, nesse mesmo ano de 1963. Ironia suprema, as camisas de fibra, que dispensavam o ferro de engomar, destinavam-se a uma legião crescente de funcionários públicos e privados, alimentando respeitosamente as convenções de etiqueta no mundo dos negócios. Por entre os estereotipos sociais, ao fino bisturi de Manta não escapam as contradições indígenas. A confirmar, por exemplo, na ilustração do quiosque, entre as ousadas capas das revistas e a placidez doméstica da vendedora. Cronista cruel da ditadura, Manta deixa-nos aqui o retrato, tão benigno como exato, de uma modernidade alavancada à custa de uma camisa que se queria eterna. Quando a eternidade do nylon não era ainda um pesadelo ecológico.

Only Nylon

In 1963 nylon shirts made their triumphant entry into Portugal.  The invasion, a French one, needed an unsparing publicity campaign and a sales force with unwrinkable faith in this synthetic fabric. A leading advertising agency of the time called Marca designed a booklet to elucidate shopkeepers about it. After informative explorations into the advantages of nylon and endless repetitions about its modernity, the booklet paraded a well-stocked arsenal of advertising stratagems such as posters, shop-window displays, radio and TV, newspapers, trade magazines and exhibition stands, all in the service of NYLFRANCE and to be made available in1964. If publicity for textiles and clothing in the 1970s generally inclined towards realism, whether photographed or illustrated, this in-house booklet approached the subject in a more humorous manner, more like a cartoon.

When Orlando Costa, the agency director, and the young designer Carlos Rocha visted João Abel Manta (Lisbon, 1929) and persuaded him to illustrate the booklet, the NYLFRANCE shirt publicity campaign was about to feel the full impact of Manta’s very black drawing line. The same that he used in his absorbing satire on “The kingdom of the Pachecos”, that sad, gagged and muzzled Portugal of the bleak years of Salazar’s regime that Manta kept conjuring up in Cardoso Pires and Sebastião Rodrigues’ Almanaque magazine, as well as in the triumphant Situação Shakespeariana exhibition at the ICA in London also in 1963. The supreme irony was that nylon shirts, which require no ironing, were aimed at the growing legions of private- and public-sector workers, thereby respectfully adding to brand conventions in the corporate world. Contradictions among Portuguese social stereotype weren’t spared by Manta’s sharp scalpel, as in the illustration of a stand encased in magazine covers and the seller’s placid domesticity. Manta was a merciless chronicler of Portugal’s dictatorship but left us a portrait, as kindly as it is faithful, of modernity that arrives because of a shirt with an interminable lifetime at a time when nylon’s interminable non-degradability had yet to become an ecological nightmare.

João Abel Manta Nylon 2

O Homem moderno vê… televisão

João Abel Manta Nylon 3

O homem moderno vê… cartazes

João Abel Manta Nylon 4

O homem moderno lê… jornais diários

João Abel Manta Nylon 5

O homem moderno lê… revistas e jornais desportivos

João Abel Manta Nylon 6

O homem moderno ouve… rádio

João Abel Manta Nylon 7

O homem moderno escolhe nas montras

João Abel Manta Nylon 8

O homem moderno visita… stands

João Abel Manta Nylon 9

Folheto cedido por Carlos Rocha
As ilustrações foram restauradas digitalmente The illustrations were digitally restored
Fontes Sources
João Abel Manta – Obra Gráfica, catálogo. Lisboa: Câmara Municipal de Lisboa/Museu Rafael Bordalo Pinheiro, 1992.
João Abel Manta – Caprichos e Desastres, João Paulo Cotrim. Lisboa: Assírio & Alvim, El Corte Inglés e Câmara Municipal de Lisboa/Museu  Bordalo Pinheiro, 2008.

Filed under: João Abel Manta, ,

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