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histórias da ilustração portuguesa

Um cavalheiro respeitável (I)

Vilhena 1972

Um alcoice dos anos 30, Grande Enciclopédia Vilhena, 1972

Com a Censura, o Estado Novo bem cedo relegou o desenho de humor impresso para estafadas piadas de maridos enganados, sogras detestáveis e mulheres ninfomaníacas. Pelos anos sessenta, o Regime apodrecia lentamente e José Vilhena (Figueira de Castelo Rodrigo, 1927 – Lisboa, 2015) fixava nas suas novelas auto-editadas um retrato cru da sociedade portuguesa: a igreja corrupta e manhosa; a alta burguesia lúbrica e abichadora de tachos, os latifundiários boçais e marialvas; o povo alarve, servil e invejoso. Toda a pirâmide social unida, enfim, na ganância do lucro e da carne. Mas o lápis azul não dormia e Vilhena e os seus livros eram clientes assíduos da DGS, apesar da distribuição quase clandestina por quiosques e botequins. No seu livro A Cama, de 1971, o autor queixava-se com suprema ironia: “Desgraçadamente, sabeis, porém, como venho sendo contrariado quando pretendo realizar-me artisticamente… Por tudo e por nada, a censura cai-me em cima, não me perdoando a mais ínfima liberalidade, encontrando o mal onde não havia senão inocência e atribuindo-me intenções equívocas que jamais afloraram o meu espírito.” Vilhena publicou 52 livros entre 1960 e 1974, recheados de sugestivas ilustrações nas capas e no interior. Por estes livros passam os narizes masculinos mais escrofulosos e as carnes femininas mais tentadoras do humor desenhado do seu tempo. Vilhena, se não tinha o traço erudito de um Abel Manta, tinha um requintado preciosismo gráfico, enganadoramente popular. E, obviamente, mais divertido. A licenciosidade visual estava afinada com os ventos da libertação sexual que assolavam a Europa conservadora e com as Blanche Éphiphanie e Paulette de Georges Pichard, ilustrador e banda-desenhista francês. O Portugal dos seus livros parecia assim uma versão pelintra da França burguesa pré-maio de 68. Vilhena alinhou no regabofe geral pós-25 de Abril com as piratarias fotográficas da Gaiola Aberta, mas a sua produção ilustrada saíu razoavelmente incólume da pornochachada geral. O traço simplificou-se até um discutível kitsch digital, mas a virulência do humor e as taras das suas personagens mantêm uma imagem indelével (e atualíssima) da política e da moral lusitanas.

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