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histórias da ilustração portuguesa

Tóssan, o rei da selva

macacão

Animais, Esses Desconhecidos

Suspiram elefantes apaixonados, ronronam inquietos leões e cabriolam humaníssimos macacos, na tumultuosa selva de António Fernando dos Santos, Tóssan (Vila Real de Santo António, 1918 – Lisboa, 1991), que enfileira na galeria dos nossos grandes ilustradores animalistas. Se a bicharada eleita por Tóssan enchia uma Arca de Noé, este trio de selvagens é bastante repetente na obra do ilustrador dedicada às crianças. Para elas ilustrou quatro livros a meio da década de sessenta: A Coelhinha do Rabito de Algodão, de Erskine Caldwell, o Gil Vicente Para Crianças e uma compilação de crónicas de Maria Helena da Costa Dias da sua rubrica «Animais, Esses Desconhecidos», publicadas no Juvenil, suplemento do Diário de Lisboa, onde Tóssan recicla a preto a bicharada das bicromias pessimamente estampadas no jornal, em pincelada dura, sem meias tintas. Estas pedagógicas curiosidades sobre o reino animal trazem já o selo inconfundível de um caricaturista nado e criado nas centenas de perfis de estudantes, impressos nos livros de curso das academias de Coimbra e Lisboa nas duas décadas anteriores. Pela mesma data aparece O Leão Heitor, de Camille Mirepoix, em generoso formato e papel couché, na editora Portugália. Aqui o investimento ilustrado é outro, e o resultado, magnífico, de resto, elogiado pela autora do texto. O Leão Heitor, o Gil Vicente Para Crianças, e ainda as ilustrações para dois contos da Revistinha de Natal, suplemento da revista Brasil, de 1962, são da mesma colheita, com figuração geometrizada a modelar formas e volumes, em suves gradações tonais, receita que não era exclusiva de Tóssan, como o provam livros de João da Câmara Leme na mesma época).

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Animais, Esses Desconhecidos, Juvenil, Diário de Lisboa, 1958

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O Leão Heitor, Portugália Editora, 1965

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O Macaco Mágico, José Lins do Rego, revista Brasil, dezembro de 1961

O 25 de Abril traz de novo Tóssan às crianças. Aos 55 anos e com a tranquilidade de um emprego, proporcionado pelas editora Terra Livre, no ministério da Comunicação Social, Tóssan inicia uma fulgurante série de 16 livros, dos quais 13 com o seu amigo de infância Leonel Neves, publicados regularmente ao longo de uma década. Começa em 1975 com A Amizade Bate à Porta, de Sidónio Muralha, O Leão Vegetariano, de Madalena Gomes e, já com Leonel Neves, Bichos de Trazer Por Casa e Sete Contos de Espantar, para as editoras Comuna e Atlântida. Tóssan deixa cair as artificiosas geometrias da década anterior e o traço vai afinando pelo estilo cartunesco que proliferava na ilustração e na publicidade dos anos setenta. A partir de O Elefante e a Pulga, de 1976, (e também para o Velho, o Rapaz e o Burro, de Curvo Semedo, de 1978), Tóssan dá-nos uma pureza linear, aqui e ali salpicada de aquosas tintas, e uma paginação desenvolta, cúmplice da escrita ritmada de Leonel e das aliterações, acrósticos e lengalengas que Tóssan também praticava nos seus poemas absurdos e satíricos. Para lém do O Elefante e a Pulga, as selvas africanas fazem-se representar n’Uma Dúzia de Adivinhas, de 1981, e no espantoso O Livrinho dos Macacos, de 1978, cuja capa repete a exuberante (e graficamente virtuosa) família de «macacos, macacões e macaquinhos» das páginas centrais do livro. A zombaria da Lógica Zoológica, crónica escrita e desenhada por Tóssan, impressa no jornal humorístico o bisnau, de 1983, teve registos mais exuberantes, num zodíaco decorativo que marcou animais domésticos e, mais uma vez, o inevitável primo macaco. (ver Zoo-lógica)

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Tóssan, King of the Jungle

Amorous elephants sigh, restless lions purr and very humanlike monkeys frolic in the rowdy jungle that António Fernando dos Santos, Tóssan (Vila Real de Santo António, 1918 – Lisbon, 1991) included in the gallery of our leading animal illustrators. If creatures chosen by Tóssan would fill Noah’s ark, this trio of wild beasts was to recur frequently in his illustrations for children. He did four books for them in the mid-1960s: ‘Molly Cottontail’ by Erskine Caldwell, ‘Gil Vicente Para Crianças’ and a collection of stories that Maria Helena da Costa Dias wrote for her Animais, Esses Desconhecidospieces in Juvenil, a Diário de Lisboa supplement, for which Tóssan recycled in black, with decisive bold strokes, his two-colour illustrations that had been poorly reproduced in the newspaper. These educational curiosities about the animal kingdom was already revealing the unmistakeable stamp of a caricaturist born and bred in the hundreds of profiles he drew for Coimbra and Lisbon academic course books twenty years before. Meanwhile, Portugália Publishers brought out O Leão Heitor’ by Camille Mirepoix in a generous format with couche paper. This was of a different order of investment and the magnificent result was praised by the author. ‘O Leão Heitor’,  ‘Gil Vicente Para Crianças’ as well as illustrations for two short stories in ‘Revistinha de Natal’, a Brazil magazine supplement in 1962, belong to the same period. Their geometric figures form shapes and volume in softly gradient tones, a style not exclusive to Tóssan as can be seen in João Câmara Leme’s books of the time.

The 25th April revolution brought Tóssan back to work for youngsters. At the age of 55 and with the stability of a job with Terra Livre Publishers at the Ministry of Social Communication, Tóssan began an astonishing series of 16 books, 13 of which he worked on with his childhood friend, Leonel Neves, and which were regularly published for ten years. In 1975, he began ‘A Amizade Bate à Porta’ by Sidónio Muralha, ‘O Leão Vegetariano’ by Madalena Gomes and with Leonel Neves, ‘Bichos de Trazer Por Casa’ and ‘Sete Contos de Espantar’ for the Comuna and Atlântida Publishing Houses. Tóssan abandoned his geometric style of the previous decade for the more cartoon-like drawing line that became widespread in illustrations and publicity in the 1970s. Starting with ‘O Elefante e a Pulga’ in 1976, (and also ‘O Velho, o Rapaz e o Burro’ by Curvo Semedo, 1978), Tóssan produced a clean line with a spattering of watercolour here and there, and a ingenious layout to fit Leonel’s rhythmic writing as well as the alliterations, word puzzles and nonsense verse that Tóssan himself created in his farcical and satirical poetry. Apart from ‘O Elefante e a Pulga’, African jungles re-appear in ‘Uma dúzia de Advinhas’ in 1981 and the amazing ‘O Livrinho do Macacos’ in 1981 with a cover that echoes the boisterous (and graphically virtuoso) family of ‘monkeys, big and small’ in the book’s central pages. The mockery in ‘Lógica Zoológica’, written and illustrated by Tóssan for the humour magazine ‘o bisnau’ in 1983, showed more high-spirits in a decorative zodiac with domestic animals, and once more, the inevitable monkey cousin. (See Zoo-lógica)

vegetariano 1

vegetariano 2

o leão vegetariano - macaco

O Leão Vegetariano, Madalena Gomes, Atlântida, 1975

elefante 3 29x34

elefante 1 36,5x25,5

O Elefante e a Pulga, Leonel Neves, Livros Horizonte, 1976, tinta da china sobre papel

macacos 01 rec

macaco astronauta

O Livrinho dos Macacos, Livros Horizonte, 1978

elefante 34x45 marc+guache

macaco 26,5x37,5 m

«O Elefante» e «O Macaco», o bisnau, 1983, marcador e guache sobre papel

Fontes
Tóssan, Festa da Ilustração, Setúbal 2018 / Casa do Design Matosinhos, 2018

Agradecimentos
José Pereira Gens, A. M. Marques Neves e Rui Sena

 

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