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histórias da ilustração portuguesa

O Sol brilhará para todos nós! (1)

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O Almanaque volta  ao convívio dos leitores com uma desusada produtividade, fazendo também seu o otimismo necessário à quarentena covídica. Este post será o primeiro de uma série, tão resiliente quanto a pandemia, que nos transporta para outra era de incorrigível esperança no futuro, os anos de brasa do PREC. Às voltas com um antiquado meio de propaganda que fazia prova de fé em ardorosos ideais e fanáticas tribos políticas, além de angariar fundos para a causa, a série estreia-se com oito autocolantes da célula do bairro lisboeta de Campo de Ourique do Movimento Democrático Português/Comissão Democrática Eleitoral (MDP-CDE) organização política que já vinha do tempo da Oposição Democrática à ditadura do Estado Novo. Fundado em 1969 para concorrer às eleições legislativas, constitui-se como partido político após o 25 de Abril e, durante uma década, gravita à volta do Partido Comunista. Dissidente do PCP em 1987, dará lugar, sete anos depois, ao movimento Política XXI, corrente fundadora do Bloco de Esquerda.

Séries extensas como esta são raras e tinham obviamente intenção colecionadora. Os oito quadros, com uma cercadura que parece evocar o ecrã da televisão, cumpriam a vulgata ideológica da esquerda comunista e refletem já uma atitude de resistência perante a iminente derrocada dos ideais da Revolução de Abril, que justifica também o início e fecho da série com as catárticas palavras de ordem “Fascismo Nunca Mais!” A intenção pedagógica e o registo cartunesco usam e abusam da iconografia “oficial” na caraterização das personagens, abrindo as hostilidades com um capitalista de charuto e cartola. O design revela mão competente e três cores diretas sabiamente aplicadas e, como era uso e costume neste meio de propaganda, o seu caráter urgente e utilitário dispensava ninharias como a assinatura do autor da obra (mal vista pelo preponderante coletivismo) e a data de realização. O último autocolante da série permite, ainda assim, uma sugestão temporal, já que as convulsões e golpes nos media referidos no desenho, como o jornal República, tiveram cronologia certa. A série será, portanto, posterior a maio de 1975. Apesar da iconografia ingénua, que hoje é pura arqueologia, o grafismo manual e o humor de traço rápido envelheceram bem, escapando à estética do realismo socialista, aos altos contrastes fotográficos e às tipografias decalcáveis, que deram o tom a muita da produção autocolante da época.

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Filed under: Autocolantes

One Response

  1. Paulo Muge diz:

    FundamentALL

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