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histórias da ilustração portuguesa

Os Bonecos de Tom (4) — Ai Nazaré

Capa dura do álbum Nazaré, estampada a preto sobre tecido

«A ti, Nazaré, e à tua Virgem; aos teus dias de sol e às tuas noites de Inverno; aos pescadores feitos de pedra viva; ao ondular das saias das tuas mulheres, que lembra os movimentos das marés; aos teus barcos, que são ondas transformadas em preces — ofereço este livro. Perdoa o pouco que te dou, e acredita no muito que te quero.» — Dedicatória de Tom, álbum Nazaré, 1958

 

A elite intelectual e artística aparentada ao Estado Novo tinha particular fascínio pela vila piscatória da Nazaré. António Lopes Ribeiro, Leitão de Barros, Martins Barata, Lino António ou Chianca de Garcia, calcorreando-a no verão e no inverno, plasmando-a nos papéis de jornal ou dos teatros, nas telas do cinema ou dos quadros pintados. A crueldade do mar e uma comunidade coesa nos seus trajes e labutas, simbolizava a pureza tão ao gosto de uma propaganda oficial apegada à pureza dos costumes e ao heroísmo do seu povo. Tom está em rota de colisão com esta visão idílica. Sem o lirismo de Ribeiro de Pavia, o ilustrador referencial do Neorrealismo português, apresenta-nos em Nazaré, álbum editado pela Ática em 1958 (com prefácio do cineasta António Lopes Ribeiro), a mesma crueza do álbum anterior, Por Terras de Portugal, de 1948, ambos tributários da estética neorrealista. Ainda em 1957, a um ano da publicação em livro, Tom aplicou uma das composições feitas para Nazaré numa tapeçaria executada na Manufactura das Tapeçarias de Portalegre. Exibida na Feira de Artesanato de Munique de 1958, Nazaré foi distinguida com a Medalha de Ouro do Estado da Bavária.

Nazaré, Manufactura das Tapeçarias de Portalegre, tapeçaria em fio de lã, decoração a negro, 107 x 168 cm, 1957

O humanismo sofrido de Nazaré está bem documentado nas sombrias ilustrações do luto das mulheres pelos desaires da faina. Na sobriedade cromática e no traço áspero, Tom exibe o seu virtuosismo gráfico, em inúmeros registos, longe dos ditames da Política do Espírito de António Ferro, referencial para a segunda geração modernista de artistas gráficos portugueses. Nazaré está longe das varinas gaiatas dos anos 30, de um alegre modernismo em guaches de cores vibrantes, regularmente exibidas nas primeiras exposições de Tom nos anos 20 e 30. E de que o dramaturgo António Pedro (sócio de Tom na Galeria UP) registou saudades: — «[A varina da minha rua] Era uma estilização tão bela, tão sugestiva e simultaneamente tão próxima da realidade de algumas ruas de Lisboa, que todos nós, vendo e admirando a sua varina, ficávamos com pena, imensa pena, de não morarmos na rua de Tom…»

Fontes: Tom, Jorge Silva, editora Arranha-céus, 2020

Filed under: Thomaz de Mello, Tom, ,

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