almanaque silva

Ícone

histórias da ilustração portuguesa

Abílio, o nazareno

zombro054

Medalhões de lagosta, frango em “cocotte”, ervilhas à inglesa, cenouras em manteiga, doce, queijo e café e vinhos portugueses constavam no luxuoso menu das refeições servidas nos jets intercontinentais da TAP em meados dos anos sessenta. Apresentadas aos viajantes em folheto, tinham a dobra picotada permitindo colecionar postais destacáveis no formato generoso de 23 x 15 cm. A série, com oito imagens e o título de «Danças Portuguesas», revelava um exuberante best off  ds costumes tradicionais portugueses. Repetida, em formato A4, com os mesmos motivos e sem a função postal, trazia a partitura das músicas tradicionais associadas aos pares dançantes. Nova série, em 1968, dá patrocínio e capa ao programa de espectáculos da Companhia Folclore de Lisboa, em larga digressão pelo Brasil, coproduzida pelo Clube Ginástico Português do Rio de Janeiro e pelo Centro de Turismo de Portugal. Companhia aérea de bandeira, a TAP alinhava assim com a propaganda oficial na exploração do filão regionalista, multiplicando os souvenirs folclóricos até mesmo em pequenas travessas de porcelana..

zombro060

zombro056

zombro057

zombro058

zombro055

zombro059

Os vistosos bailarinos eram obra de Abílio de Mattos e Silva (Sardoal, 1908-Lisboa, 1985), talentoso cenógrafo e figurinista das artes de palco e também ilustrador editorial, já destacado no Almanaque pelo seu trabalho para a «Campanha da Produção Agrícola» dos anos quarenta, em cartazes e brochuras editados pelo Ministério da Economia do qual Abílio era também funcionário. A paixão de Abílio pelos costumes tradicionais portugueses já vinha de longe, desde os anos trinta, e focou, sobretudo, a comunidade piscatória da Nazaré. A primeira manifestação gráfica que lhe conhecemos, versando a vila, é uma coleção de postais, datados de 1934 a 1936, que andam longe ainda dos garridos figurinos do teatro musicado e muito perto das premissas do desenho modernista e do chiaroscuro da art deco. A série é contemporânea da estreia de Abílio no teatro, curiosamente em cenários para a peça Tá Mar, cujo enredo se passa na vila, em  produção da Empresa Amélia Rey Colaço-Robles Monteiro para o D. Maria II.

zimbro135

zimbro136

zimbro132

zimbro137

zimbro138

zimbro134

zimbro133

Abílio não foi o único artista gráfico enamorado pela Nazaré. Raquel Roque Gameiro pintara já a faina  nas areias da praia em série de postais em cor sépia, ao jeito naturalista do pai Alfredo e Tom, o grande Thomaz de Mello, dera já corpo à obsessão da elite do Estado Novo num portentoso ensaio visual de 1958, justamente chamado Nazaré, livro onde passeia o seu virtuosismo plástico  em diversos modismos gráficos em que prevalece a gramática neorrealista. O fascínio pela Nazaré lança Abílio num cometimento ambicioso que entra claramente no campo da etnografia. Em O Traje da Nazaré, edição tardia de 1970, descreve os variados costumes das suas gentes, e documenta a confecção de roupas e acessórios. Abílio diverge da religiosidade oficial em relação ao tema, e desenha sem heroísmo nem tragédia uma versão benigna de varinas e pescadores, de uma elegância anatómica irreal, palrando em grupos e expondo aos nossos olhos as minudências dos seus trajares como se em palco ou montra estivessem. Referencial no desenho de cenários e figurinos de teatro, ópera, bailado e revista, o traço e as cores vívidas e contrastadas de um Abílio estilista contaminarão crescentemente a produção gráfica em papel. Encontramos o mesmo registo em quatro postais com desenhos datados de 57, e ainda numa variante mais sombria, em capas da Via Portucale, revista da empresa Rádio Marconi.

da nazaré capa

zombro061rec

zombro065rec

zombro063rec

zombro066rec

zombro068

zombro064

24 set 1965

peixeiras

pescador

pescadores

varinas

O Trajo da Nazaré agrega imagens produzidas ao longo de três décadas. Algumas das mais antigas, dos anos quarenta, têm abordagem naturalista, negando o palco e a cintura fina dos tagarelas que recheiam o livro. A mulher que espera sentada na areia, retrato pungente das incertezas do mar, serviu ainda de contraditório remate a um alegre folheto de promoção turística, datado de 1951.

zombro067

zombro069

Abílio, the Nazarene

Lobster medallions, chicken casserole, peas à l’anglaise, buttered carrots, dessert, cheese, coffee and Portuguese wines were the luxury meals that TAP served passengers on their intercontinental jet flights in the mid-1960s. A generous-sized postcard (23X15cm) could be detached from the menu along a perforated fold. It was part of a collection of 8 celebrating ‘Portuguese Dances’ – a joyful best of Portuguese traditions. The score of the music that the couples dance to came in A4 format with the same motifs but not as a postcard. A new series dated 1968 provided both sponsorship and programme cover for Companhia Folclore de Lisboa, which was touring Brazil in a co-production with the Clube Ginástico Português in Rio de Janeiro and the Centro de Turismo de Portugal. Portugal’s flag-carrier airline, TAP, joined the official propaganda in exploiting Portuguese local customs and proliferating folkloric souvenirs, even to the extent of their small porcelain dishes.

The drawings of these eye-catching dancers were by Abílio de Mattos e Silva (Sardoal, 1908-Lisboa, 1985), a talented theatre set and wardrobe designer. He was also an editorial illustrator and Almanaque has already mentioned his posters and brochures in the 1940s for Campanha da Produção Agrícola that were published by the Ministry of Economy, where he was employed. His passion for traditional Portuguese costumes had begun long before in the 1930s, and focused mainly on the fishing folk of Nazaré. His first known graphic work is a series of postcards devoted to this coastal town dating 1934 to 1936. They are a far cry from flashy musical theatre costumes and much closer to the ideas advanced in modernist drawings and art deco chiaroscuro.  The postcards came out at the same time as he began working in theatre: interestingly enough, on the set of the play Tá Mar, whose plot unfolds in Nazaré. It was an Amélia Rey Colaço-Robles Monteiro production for the Dona Maria II National Theatre in Lisbon.

Abílio was not the only artist to fall in love with Nazaré. Raquel Roque Gameiro painted Nazaré’s distinctive traditional ‘faina’ fishing practices in a group of sepia postcards much in the style of her father, Alfredo. And then Tom, the great Thomaz de Mello, brought to life the obsessions of the Estado Novo dictatorship’s elite in a magnificent visual essay in 1958 in a book called Nazaré, in which his artistic virtuosity is evident in a range of images in which neo-realism prevails. Abílio’s fascination with Nazaré led him to an ambitious undertaking that clearly touches upon ethnography. In O Traje de Nazaré, a book that came out later in 1970, he depicts the various garments worn by the people of Nazaré and also describes how these clothes and accessories are made. Abílio diverges from the sanctimonious official approach towards the subject and draws fishwives and fishermen talking in groups with sympathy that has nothing of the heroic or tragic. In his elegant, unrealistic adaptations, he reveals every detail of their garments as if they were on stage or in a shop-window. As in set and wardrobe design for theatre, opera, dance and music hall, Abílio’s draughtsmanship and vivid contrasting colours as a stylist had a growing influence on his work on paper. We find the same drawing style in four postcards dating to 1957, as well as more toned-down variations on the covers of Via Portucale, the Radio Marconi magazine.

O Traje de Nazaré brings together thirty years’ of drawings. Some of the older ones from the 1940s are more naturalist and avoid theatrical effects or the slimming of waists of the garrulous groups that fill the book. A woman sitting alone on the sand while she waits is a powerful reminder of the uncertainties of life at sea but was, paradoxically, the illustration on the back of a cheerful tourism brochure in 1951.

Fontes / Sources

Abílio, catálogo. Textos de Vítor Pavão dos Santos, Fernando de Azevedo, Maria José Salavisa. Município de Óbidos, 2008.

Abílio – Pintura, Desenho, Cenários, Figurinos, catálogo. Texto de Fernando de Azevedo. Fundação Calouste Gulbenkian, 1990.

30 Anos de Teatro, catálogo. Texto de Tomaz Ribas. Teatro Nacional de S. Carlos, 1970.

 

 

 

 

Filed under: Abílio de Mattos e Silva, Nazaré

Toca a lavrar!

Série B n.º 10, ETP, 1942

“Nenhuma fonte de substâncias alimentares, recanto ou nesga de terra podem ficar inactivos…”

O piretro, o sorgo, a garroba, a rutabaga, as ervilhacas, o gero, o chicharro e, claro, vegetais mais canónicos como o nabo ou o milho, eram apresentados como solução de cultivo e fonte de rendimento aos agricultores portugueses num esforço concertado do Ministério da Economia do Estado Novo para aumentar a poupança, a auto-suficiência e reduzir a pobreza e a deficiente nutrição que grassavam em Portugal durante a Segunda Guerra Mundial. A ambiguidade da diplomacia de Salazar e as conveniências das potências beligerantes pouparam o país aos horrores da guerra mas não impediram a espiral de pobreza nos campos, o racionamento e o mercado negro de géneros alimentares. Para estimular a produção agrícola e pecuária, que pretendia minorar também os efeitos das desastrosas colheitas de 1940 e 1941, o Ministério da Economia desenvolveu uma intensa campanha de cartazes e publicações técnicas de teor pedagógico, que não pareciam ter um modelo de design definido. A ilustração dos temas e a tipografia apresentavam variados registos, da fotografia à ilustração, do hiperealismo exuberante da Cultura dos Morangueiros até ao modernismo monócromo da Cultura da Batata. Gráficamente, de tudo havia, como no mercado. Ainda assim, as capas queriam-se atraentes, já que o interior era despachado sumariamente com um grafismo funcional. Considerando a alta taxa de analfabetismo em Portugal, que em 1940 era de 52%, podemos supor que a clientela primária dos folhetos seria a dos grandes proprietários e técnicos agro-pecuários estatais organizados e espalhados por todo o país em Brigadas Técnicas.

Autor recorrente das campanhas de sensibilização para a “batalha da produção”, Abílio de Mattos e Silva (Sardoal, 1908-Lisboa, 1985), ilustrou muitas das publicações da extensa Série B para a Campanha Agrícola do Ministério da Economia e uma série “concorrente” anterior do Ministério da Agricultura. Ilustrador de revistas como a Presença, Atlântico e Agricultura, muito do seu labor foi dedicado ao estudo e representação dos costumes tradicionais do litoral do país, declinado em coleções de postais, menus da TAP e no cativante álbum de costumes O Trajo da Nazaré, que o há-de trazer de novo ao écrã do Almanaque. O interesse pelas gentes do mar vinha da sua estadia na Nazaré, de 1931 a 36, e do contato estreito com pintores portugueses e estrangeiros que partilhavam o fascínio pela vila piscatória. Paixão que Abílio estendeu nas suas férias estivais de muitos anos à vizinha vila de Óbidos, que lhe dedica desde 2005 um museu com o seu nome. Mas a dimensão mais importante da sua obra gráfica foram os cenários e figurinos para teatro, ópera, ballet e cinema. Diretor de cena do Teatro São Carlos, o seu papel como decorador das artes do espetáculo, iniciado em 1936 com a peça Tá-Mar, foi justamente reconhecido numa exposição no São Carlos em 1970 e numa retrospetiva em Óbidos em 1984.

Back to ploughing again!

“No source of food, no piece or patch of earth may remain fallow …”

Pyrethrum, sorghum, rutabaga, several species of vetches and, of course, the more familiar vegetables such as turnips and maize, were presented as the agricultural answer for Portuguese farmers and a source of income in a concerted effort by the New State’s ministry of economy to increase savings, self-sufficiency and reduce poverty and deficiency of foodstuffs, which were rife in Portugal during the second world war. Salazar’s ambiguous diplomacy and agreements reached between warring nations spared Portugal the horrors of war but failed to stop spiralling poverty in the country, rationing and a black market. In order to mitigate the disastrous results of the 1940 and 1941 harvests, the ministry of economy launched an intensive campaign to inform the Portuguese and stimulate agriculture with posters and technical publications that share no clearly defined design. Illustration of themes and their typography vary between photographs and illustrations, exuberant hyperrealism in Cultura dos Morangueiros [Growing Strawberries] and monochrome Modernism in Cultura da Batata [Growing Potatoes]. Graphically speaking, there was a bit of everything, just as in a marketplace. Even so, the covers were supposed to be appealingbut the contents were quickly dispatched with functional graphics. Given the illiteracy rate in Portugal was 52% in 1940, we can only surmise that most people who got these booklets were landowners or then state-employed agriculture and farm livestock technicians, who were being sent out in Brigadas Técnicas throughout the country.

Creator of several campaigns to raise awareness of the “production battle”, Abílio de Mattos e Silva (Sardoal, 1908-Lisbon, 1985), illustrated many publications for the lengthy Campanha Agrícola do Ministério da Economia B seriesand a “rival” series beforehand for the ministry of agriculture. He did illustrations for magazines such as PresençaAtlântico and Agricultura, but much of his work was focused on researching and drawing the traditional costumes of coastal communities for postcard collections, TAP airline menus and the delightful album on costumes O Traje da Nazaré, which brings him back to our Almanaque. His interest in fishing folk was sparked when he lived in Nazaré between 1931 and 1936 and his close contact with Portuguese and foreign painters who were equally fascinated by the fishing village. This passion continued throughout the many summer holidays Abílio spent in the neighbouring town of Óbidos, where a museum in his name opened in 2005. But the most important facet of his work were the sets and wardrobe he designed for the theatre, opera, ballet and cinema. He was stage director at the Teatro São Carlos opera house, and his work as a performing arts decorator, which began in 1936 with the play Tá-Mar, was rightly acknowledged in an exhibition in the São Carlos in 1970 and a retrospective in Óbidos in 1984.

Série B n.º 5, Abílio de Mattos e Silva, 1942

Série B n.º 14, Abílio de Mattos e Silva, 1942

Série B n.º 25, Abílio de Mattos e Silva, 1942

Série B n.º 31, Abílio de Mattos e Silva, 1942

Série B n.º 44, Abílio de Mattos e Silva, 1943

Série B n.º 54, Abílio de Mattos e Silva, 1944

Ministério da Agricultura, Série Divulgação n.º 15, Abílio de Mattos e Silva, 1939

Fontes Sources

http://www.cm-sardoal.pt/pt

http://www.cm-obidos.pt

30 anos de Teatro, Catálogo, Teatro Nacional de S. Carlos, 1970

Portugal Século XX, Crónica em Imagens, 1940-1950, Joaquim Vieira, Círculo dos Leitores, 2000

Filed under: Abílio de Mattos e Silva,

Publicidade ilustrada

Index

Index de ilustradores em que a listagem da obra e bibliografia, embora tendencialmente exaustivas, não são raisonée. É um work in progress onde todas as contribuições são bem-vindas.

Visitas

  • 466.104

Posts