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histórias da ilustração portuguesa

A idade do linóleo

A viagem da galinha, O Livro da Stelinha, Colecção Carrocel, 1964. Ilustrações dos alunos da Escola Técnico Elementar Francisco Arruda.

A viagem da galinha, O Livro da Stelinha, Colecção Carrocel, 1964. Ilustrações dos alunos da Escola Técnico Elementar Francisco Arruda.

Um revolução pedagógica, baseada na ingénua e encantadora criatividade de desenhos monocolores gravados em vulgares placas de linóleo, irradiou a partir de uma escola-modelo de Lisboa e contaminou o Ensino Preparatório de todo o país, nos primeiros anos da década de sessenta. A famosa Educação Pela Arte propunha o ensino intensivo da linogravura às crianças, baseada numa excelente expressividade gráfica, baixo custo, salutar aprendizagem técnica e a aliciante reprodução em série, conferindo às crianças uma educação artística contemporânea. Líder deste movimento, Manuel Calvet de Magalhães (Lisboa, 1913-1974), diretor e professor da Escola Técnica Elementar Francisco Arruda, aplicou o trabalho dos seus alunos nos livros da Colecção Carrocel, editada em parceria com a escritora Lília da Fonseca. No prefácio, Calvet proclama um verdadeiro manifesto sobre a ilustração feita pelas crianças para as crianças, contra os preconceitos e o artificialismo da ilustração feita por adultos (ver post O Carrocel Mágico). Calvet queria “erradicar da opinião pública conceitos sediços acerca da arte infantil” e tinha como alvo as populares revistas infanto-juvenis como O Mosquito ou o Cavaleiro Andante, cuja toxicidade se devia à origem estrangeira dos quadradinhos e ao seu pequeno formato, podendo ser lidas à socapa dentro dos insuspeitos manuais escolares. A Educação pela Arte combatia também as moralistas histórias tementes a Deus e ao Estado Novo, ou o absurdo freak show de anões e gigantes, príncipes burros, bruxas más e madrastas ainda piores, que saturavam os livros da editora Majora. A visão libertária da Colecção Carrocel, baseava-se em histórias reais. N’ O Livro da Stelinha, terceiro volume da Série A – Histórias de Animais, os oito contos foram adaptados de fait divers do Diário de Notícias repescados ao longo do ano de 1963. Calvet desdobrar-se-ia na propagação da prática da linogravura através de prefácios e comentários em livros e periódicos. Na Panorama de setembro de 1963, Revista Portuguesa de Arte e Turismo, Calvet comenta uma coleção de postais linogravados com motivos culturais e paisagísticos da cidade de Tomar, realizada por alunos da Escola Industrial e Comercial da cidade, enquadrada numa iniciativa do SNI (Secretariado Nacional de Informação). Calvet conclui aí que “Aprende-se tudo alegremente, sem teorias enfadonhas, e muitas vezes as raparigas abandonam de bom grado a costura para trabalhar no linóleo.” Calvet revela também a inspiração desta cruzada nos linóleos polícromos das classes infantis de arte de orientadas pelo checo Franz Cisek no princípio do século XX em Viena.

O pombo tem um automóvel, O Livro da Stelinha, Colecção Carrocel, 1964. Ilustrações dos alunos da Escola Técnico Elementar Francisco Arruda.

O pombo tem um automóvel, O Livro da Stelinha, Colecção Carrocel, 1964. Ilustrações dos alunos da Escola Técnico Elementar Francisco Arruda.

O Tesouro das Ilhas Selvagens, Manuela de Azevedo, Colecção Carrocel, 1964. Ilustrações dos alunos da Escola Técnico Elementar Francisco Arruda.

O Tesouro das Ilhas Selvagens, Manuela de Azevedo, Colecção Carrocel, 1964. Ilustrações dos alunos da Escola Técnico Elementar Francisco Arruda.

Mas Calvet de Magalhães não foi o pioneiro da aplicação da linogravura em Portugal. Num curioso livro de 1931, Meninos Que Vão à Escola, o autor, Abel Viana, traça no final um breve manual técnico da linoleogravura e atribui a introdução da técnica nas escolas primárias do país a Álvaro Viana de Lemos, professor da Escola do Magistério Primário de Coimbra e um dos mais internacionais pedagogos portugueses da época. Divulgador das técnicas de Celéstin de Freinet no movimento Escolas Novas, acabou preso em 1934 pelo Estado Novo. Meninos Que Vão à Escola é um verdadeiro livro para-escolar. Abel Viana ministra noções essenciais das matérias de estudo, da moral às ciências naturais, através de dois miúdos que substituem o estudo livresco por pedagógicas deambulações numa “linda aldeiazinha do Norte”. As gravuras do livro foram criadas por alunos das Escolas Oficiais dos concelhos de Caminha e Cerveira, mas não tinham a exuberante escala e cromatismo das edições dos anos sessenta. Nesta década, a linogravura prolifera em jornais e coletâneas escolares, de que revelamos alguns exemplos, como o jornal Nova Luz, da Escola Preparatória Augusto Moreno, em Bragança, editado de 1969 a 1973, com grafismo e séries de gravuras notáveis. Ou o Fala Barato, jornalinho de quatro páginas do Centro de Recuperação de Crianças de Senhora da Hora, Matosinhos, editado por Leonardo Coimbra, em que os linóleos complementam tocantes testemunhos escritos de crianças com deficiência mental. Tal como nos livros da Carrocel, a impressão em cores diretas para desenhos e fundos confere às gravuras impressas nestes jornais equivalente autenticidade à das impressões artesanais.

A ilustração infantil em linogravura encerra um paradoxo. A linguagem gráfica intrínseca à incisão e estampagem da linogravura sobrepõe-se facilmente à ingenuidade (ou inabilidade) da figuração infantil que, quando executada com materiais simples como lápis ou pincéis, não tem apreciável valoração artística na indústria da edição. A linogravura, ao contrário, propõe uma intermediação gráfica que confere uma qualificação estética que poderíamos considerar erudita. O desenho esculpido com a goiva é de tal modo condicionado que o resultado se pode aproximar facilmente de uma execução por mãos adultas. As linogravuras escolares dos anos sessenta e setenta juntam o melhor de dois mundos, a figuração expontânea infantil e o grafismo rude e expressivo do linóleo. A prova está nas deliciosas ilustrações que mostramos, com uma inalterada frescura de 50 anos.

Retrato de... [alunas do 2.º E] jornal Nova Luz, n.º 4, junho 1972, alunos da Escola Preparatória Augusto Moreno, Bragança.

Retrato de… [alunas do 2.º E] jornal Nova Luz, n.º 4, junho 1972, alunos da Escola Preparatória Augusto Moreno, Bragança.

Retrato de... [alunas do 2.º E] jornal Nova Luz, n.º 4, junho 1972, alunos da Escola Preparatória Augusto Moreno, Bragança.

Retrato de… [alunas do 2.º E] jornal Nova Luz, n.º 4, junho 1972, alunos da Escola Preparatória Augusto Moreno, Bragança.

Uma colecção de candeias, jornal Nova Luz, n.º 3, junho 1971, alunos da Escola Preparatória Augusto Moreno, Bragança.

Uma colecção de candeias, jornal Nova Luz, n.º 3, junho 1971, alunos da Escola Preparatória Augusto Moreno, Bragança.

Piu piu..., jornal Nova Luz, n.º 4, junho 1972, alunos da Escola Preparatória Augusto Moreno, Bragança.

Piu piu…, jornal Nova Luz, n.º 4, junho 1972, alunos da Escola Preparatória Augusto Moreno, Bragança.

Piu piu..., jornal Nova Luz, n.º 4, junho 1972, alunos da Escola Preparatória Augusto Moreno, Bragança.

Piu piu…, jornal Nova Luz, n.º 4, junho 1972, alunos da Escola Preparatória Augusto Moreno, Bragança.

Bom dia, jornal Nova Luz, n.º 2, junho 1970, alunos da Escola Preparatória Augusto Moreno, Bragança.

Bom dia, jornal Nova Luz, n.º 2, junho 1970, alunos da Escola Preparatória Augusto Moreno, Bragança.

Bom dia, jornal Nova Luz, n.º 2, junho 1970, alunos da Escola Preparatória Augusto Moreno, Bragança.

Jornal O Fala Barato, n.º 1, primavera 1962, alunos do Centro de Recuperação de Crianças, Senhora da Hora.

Bom dia, jornal Nova Luz, n.º 2, junho 1970, alunos da Escola Preparatória Augusto Moreno, Bragança.

Jornal O Fala Barato, n.º 1, primavera 1962, alunos do Centro de Recuperação de Crianças, Senhora da Hora.

O Malmequer Amarelo, ilustrações de alunos do Ciclo Preparatório da Escola Industrial e Comercial de Estremoz, 1963.

O Malmequer Amarelo, alunos do Ciclo Preparatório da Escola Industrial e Comercial de Estremoz, 1963.

Tomar vista pelas suas crianças, por M. M. Calvet de Magalhães, Panorama, setembro 1963.

Tomar vista pelas suas crianças, por M. M. Calvet de Magalhães, alunos da Escola Industrial e Comercial de Tomar, Panorama, setembro 1963.

Meninos que Vão à Escola, Abel Viana, Casa Editora de A. Figueirinhas, ilustrações de alunos de Escolas oficiais dos concelhos de Caminha e Cerveira, 1931.

Meninos que Vão à Escola, Abel Viana, Casa Editora de A. Figueirinhas, ilustrações de alunos de escolas oficiais dos concelhos de Caminha e Cerveira, 1931.

Meninos que Vão à Escola, Abel Viana, Casa Editora de A. Figueirinhas, ilustrações de alunos de Escolas oficiais dos concelhos de Caminha e Cerveira, 1931.

Meninos que Vão à Escola, Abel Viana, Casa Editora de A. Figueirinhas, ilustrações de alunos de escolas oficiais dos concelhos de Caminha e Cerveira, 1931.

As ilustrações foram restauradas digitalmente The illustrations were digitally restored

Fontes Sources
http://jornalgatafunho.blogspot.pt/2010/03/alvaro-viana-de-lemos-patrono-do-nosso.html
http://educar.no.sapo.pt/pedagogos.htm
http://amota.wordpress.com/2010/10/18/em-memoria-de-calvet-de-magalhaes/
Tomar vista pelas suas crianças, por M. M. Calvet de Magalhães, Panorama, setembro 1963.
15 Contos que Nunca Ouviste…, Nota final por M. Calvet de Magalhães, Edições Sousa & Almeida, s.d.

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O Carrocel Mágico

O Livro do Marinho, Lília da Fonseca, Colecção Carrocel 2, 1963

“Assim, ao utilizar a colaboração de crianças na ilustração, estaremos a diligenciar erradicar da opinião pública sediços conceitos acerca da arte infantil e, ao mesmo tempo, a proporcionar às crianças leitoras a contemplação de produções gráficas com as quais se possam sentir perfeita e naturalmente identificadas.”

Excerto do texto Explicação da coleção Carrocel, por Lília da Fonseca e M. Calvet de Magalhães

Com a participação dos alunos de uma escola-modelo de Lisboa, a Escola Técnico Elementar Francisco Arruda, a escritora Lília da Fonseca (Benguela, 1916-Lisboa, 1991) e o arquiteto M. Calvet de Magalhães (Lisboa, 1913-Lisboa, 1974) empreenderam uma interessante aventura editorial no início dos anos 60. Os livrinhos da Colecção Carrocel apresentavam uma visão libertária da literatura para a infância, propondo a ilustração feita por crianças, contra os preconceitos e o artificialismo da ilustração feita por adultos. Se hoje nos parece uma abordagem ingénua, admiramos o seu pioneirismo como programa consistente. À patetice das histórias fantásticas de bruxas e feiticeiras e à proliferação da banda desenhada de origem estrangeira, os autores contrapunham um humanismo alicerçado nas conquistas sociais e científicas da Humanidade. A História real, factos do quotidiano, até mesmo fait divers em notícias de jornal, eram a matéria-prima para os contos da coleção. Sob a direcção de M. Calvet de Magalhães, a experiência dos livros da Carrocel foi replicada na editora Portugália com o livro de Matilde Rosa Araújo O Palhaço Verde, em 1962. A figuração expontânea, não erudita, combinada com a técnica rude da gravura e do linóleo, têm uma beleza intemporal. Os livros ilustrados por crianças para crianças não foram, no entanto, uma invenção da Carrocel. Já tinha acontecido em 1957, na primeira edição do Livro da Tila, da mesma Matilde Rosa Araújo.

O Baptizado da Coelhinha, Maria Amália Vale, Colecção Carrocel 7, 1963

O Grande Acontecimento, Lília da Fonseca, Colecção Carrocel 4, 1962

O Livro do Marinho, Lília da Fonseca, Colecção Carrocel 2, 1963

O Palhaço Verde, Matilde Rosa Araújo, Colecção Os Pequenos Pioneiros, Portugália, 1962

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