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histórias da ilustração portuguesa

Morde o pó, canalha!

Billy The Kid, Buck Jones, Buffalo Bill, Matt Marriott, Cisco Kid, Davy Crockett, Dick Daring, Jim Bridger, Kansas Kid, Kit Carson, Lance, Matt Dillon, Red Ryder, Sam Billie Bill, Sargento Kirk, Texas Kid… Uma legião de justiceiros, artilhados com um seis-tiros e a inseparável cavalgadura, monopolizaram durante três anos as páginas e, sobretudo, as capas, de uma das mais populares revistas de quadradinhos portuguesas de sempre: o Mundo de Aventuras. A partir do número 538 de janeiro de 1960, a revista dedicou-se exclusivamente a histórias de índios e cowboys. Tarzans e Mandrakes haveriam de esperar pelo número 698 para dar um ar da sua graça e as coboiadas mantiveram-se em franca maioria até esmoreceram aí pelo número 753, dando lugar à espada cantante do Príncipe Valente. A obsessão pelo Oeste americano vinha do cinema, claro, ainda longe da violência estilizada do western spaghetti dos anos 70 e da violência amoral do western crepuscular das décadas seguintes. O maniqueísmo do enredo e a virilidade justiceira (as mulheres têm apenas papel decorativo) eram motor de incontáveis e anónimas produções americanas ou italianas que pelos anos sessenta enchiam os cinemas de bairro e alimentavam o espírito irrequieto da pequenada, sedenta de um fast food moral que as fitas e quadradinhos do Oeste propiciavam.

Artífice exclusivo desta cavalgada ilustrada, Carlos Alberto Santos (Lisboa, 1933) tinha o virtuosismo anatómico e a qualidade narrativa capazes de alimentar capas credíveis para respeitáveis heróis como o Cisco Kid de Jose Luis Salinas ou o Sargento Kirk de Hugo Pratt. Há nos seus guaches uma mistura de realismo mainstream e marca autoral inconfundível, dados pela carnalidade voluptuosa, pela plasticidade das roupas e da musculatura facial, algo maquiavélica, e a composição dinâmica que, se não tinha o esquematismo erudito das capas de Eduardo Teixeira Coelho para o Mosquito, tinha a competência cinematográfica dos filmes de série B. O ritmo infernal de produção do artista, a braços com todas as publicações da editora Agência Portuguesa de Revistas, não permitia uma qualidade constante, mas há excelentes ilustrações de uma vertiginosa coreografia onde os punhos ou o revólver ditavam a lei do mais forte. Se um realismo de contornos e volumes mais suaves marcou a produção dos primeiros anos, nas capas de 1963 e 64 Carlos Alberto abre outros caminhos, com traço mais duro e paleta monocromática, tintando heróis e vilões em cores complementares da titulação ou alternando cores frias e quentes, que plasmava também nas inúmeras coleções que complementavam o Mundo de Aventuras, como a Colecção Águia. Atributo de inteligência gráfica que o ilustrador repetiu numa das mais bonitas coleções de cromos da nossa infância, Camões, em 1966.

 

Fontes

Mundo de Aventuras, Carlos Bandeiras Pinheiro, Estudos Aventura Gráfica n.º 1, 1999

História da BD publicada em Portugal, Edições Época D’Ouro, 1995

http://www.bdportugal.info/Comics/Col/MA/MA1/index.html

http://www.inverso.pt (excelente site de João Manuel Mimoso com a história da Editora APR)

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Latin lovers

“Ao tornar-se famoso, ele esqueceu o primeiro amor… Mas esperava-o uma grande lição” Foto-Romance n.º 18

happy end de um casamento convencional era a obsessão das portuguesas dos anos cinquenta e sessenta. Ou assim parecia, dada a quantidade industrial de foto-romances, fotonovelas na ligeiríssima aceção portuguesa, com que os editores bombardeavam o público feminino, ávido de romance e crente do mito do príncipe e da pastora. Os homens, mais prosaicos, preferiam o sexo explícito, ou quase, dos livrinhos do Vilhena e das revistas de cinema com atrizes sumariamente vestidas. Arte popular, mas de produção sofisticada, tributária do cinema e da televisão, o romance fotográfico resistiu até aos anos oitenta, mas acabou por ser vítima do seu paradoxo: o extremo realismo da fotonovela não era compatível com o estatismo das suas fotografias, ao contrário da banda desenhada, onde o grafismo codificado dá ao leitor maior liberdade para ligar a sequência de imagens. A aceleração da cultura visual e o progresso social e cultural tornaram a fotonovela uma relíquia kitsch, perdida no tempo e apenas reciclada episodicamente em registo de paródia.

Herdeiro dos cine-romances dos anos vinte e trinta, o primeiro foto-romance viu a luz do dia em Itália em 1947 na revista Il Mio Sogno. Chamava-se Nel fondo del cuore e estrelava a debutante Giana Loris, a futura diva do cinema italiano Gina Lollobrigida. O foto-romance foi também uma extensão natural do romance desenhado, de figuração erotizada e muito popular pelos anos quarenta. A propagação do novo género foi quase intantânea e alastrou pela França, Bélgica e Espanha. Como de costume, as xaroposas histórias fotográficas chegaram tarde a Portugal, em adaptações compradas aos grandes grupos editoriais franceses e italianos, mas nas fichas artísticas da rara produção autótone podemos encontrar vedetas portuguesas do teatro e da televisão.

A coleção Foto-Romance, editada semanalmente por Aguiar & Dias em 1959, e que se assumia como “a primeira revista do género publicada em Portugal”, tinha curiosas capas ilustradas pelo único português capaz de ombrear com talentosos ilustradores estrangeiros, como o espanhol Emilio Freixas, que prevaleciam no mercado de revistas e livros cor-de-rosa, com as suas ilustrações veristas e anatomicamente virtuosas. Na realidade, durante toda a década de sessenta, Carlos Alberto Santos (Lisboa, 1933) inundou os quiosques e livrarias com românticas policromias pintadas a guache para centenas de publicações da Agência Portuguesa de Revistas. Mas as capas da Foto-Romance são algo muito diferente. Em esplendoroso preto e branco sobre cartolina laranja, Carlos Alberto traça pares românticos em flagrantes de sedução num registo linear impecável. Uma absoluta raridade, quando comparada com publicações similares espanholas, francesas ou italianas e até mesmo com a deriva fotográfica posterior das revistas portuguesas do género.

“Não sabia sequer os nomes dos pais, mas deveria por isso renunciar ao amor?” Foto-Romance n.º 5

“Nada sabiam um do outro, mas o seu amor resistiu a tudo…” Foto-Romance n.º 8

“Quando o coração tem razões que o cérebro não entende” Foto-Romance n.º 2

“Quando o amor nasce à mesa de um café” Foto-Romance n.º 10

As ilustrações foram restauradas digitalmente.

Fontes

Les Années Roman-Photos, Editions Veyrier, 1991

Portugal, Século XX – Crónica em imagens 1960-1970, Joaquim Vieira, Círculo de Leitores, 2000

http://www.historia.com.pt/APR/CarlosAlberto.htm

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Bela e perigosa

A maldição veio do Inferno, n.º 1, 1 março 1976 (original)

A Revolução de Abril de 74 abriu as portas ao trash erótico e humorístico em Portugal. Em Março de 1976, a editora Portugal Press de Roussado Pinto (Lisboa, 1926-Lisboa, 1985) lança a revista Zakarella, de 36 páginas. Apresentava um sortido de histórias de terror de valor irregular, provenientes da americana Creepy, da editora Warren, com pepitas do calibre de um Frank Frazetta ou de um Esteban Maroto e muito terror pelintra. A justificar o nome, esta versão lusa da americana Vampirella, tinha um conto de Ross Pynn (o mesmo Roussado Pinto). Por ironia do destino, outra consequência de Abril liquidou a revista ao número 28. O Banco de Portugal não autorizou a Portugal Press a pagar em divisas os direitos de publicação das histórias da Warren com a justificada precisão dos dólares para importar bens de primeira necessidade.

Zakarella é uma renegada, em fuga de um Inferno terrestre governado por um cruel Satã. Teletransportada directamente para Lisboa, ignorante da malvadez e lascívia lusitanas, a ingénua Zakarella sujeita-se às mais bizarras sevícias sexuais saídas da caneta delirante de Roussado e apimentadas com as carnes voluptuosas, adereços fálicos, monstros infernais e fluidos pútridos do pincel de Carlos Alberto Santos (Lisboa, 1933). Anatomista precioso, o prolífico ilustrador da história heróica de Portugal em coleções de cromos e de infinitas capas para aventuras em cenários de crime, guerra e faroeste da Agência Portuguesa de Revistas, pinta laboriosas composições a guache e tinta da china para esta capitosa morena de curvas estonteantes e indumentária mínima, que tem o feliz poder de regenerar o seu corpo após toda a casta de malandrins e bicharada lho arrancar literalmente aos pedaços. A história acaba invariavelmente numa orgia de sangue e horror, a contento do amo Satã e dos leitores da revista, que ainda hoje suspiram por este pecadilho juvenil.

Os homens de sangue frio, n.º 2, 15 março 1976

A maldição veio do Inferno, n.º 1, 1 março 1976

…E os ratos possuíram-na, n.º 3, 15 abril 1976

Luxúria no fundo do mar, n.º 7, 15 junho 1976

No sangue vive o amor, n.º 17, 1 fevereiro 1977

Os homens de sangue frio, n.º 2, 15 março 1976

…E os ratos possuíram-na, n.º 3, 15 abril 1976 (original)

A lava sensual, n.º 4, 1 maio 1976 (original)

O rapto de Zakarella, n.º 18, 1 março 1977 (original)

Fontes

http://www.inverso.pt (originais das capas)

http://zakarella.blogspot.com

Zakarella n.º 28, março 1978

Carlos Alberto Santos, Exposição-Homenagem, Leonardo de Sá e João Manuel Mimoso, edição BD Amadora, 2005

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Index

Index de ilustradores em que a listagem da obra e bibliografia, embora tendencialmente exaustivas, não são raisonée. É um work in progress onde todas as contribuições são bem-vindas.

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