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histórias da ilustração portuguesa

Histórias de chocolate

Cottinelli Telmo, ABC-zinho 10

“O verdadeiro castigo dos assassinos de D. Inês, foi este! Amarrados diante de uma explêndida caixa de bombons da SIC sem lhe poderem chegar, morreram afogados na água que lhes cresceu na boca! Coitadinhos!”

Eis uma das deliciosas legendas que acompanhavam os anúncios aos bonbons e chocolates portugueses da marca SIC, numa longa série de quadros sequenciais da História de Portugal, a História do Chocolate, impressos na revista infantil ABC-zinho, logo desde o seu primeiro número, em outubro de 1921. Textos e desenhos  tinham a mão de Ângelo Cotinelli Telmo (Lisboa, 1897-Cascais, 1948), apogeu da geração  que desbravou o Modernismo português. Cottinelli foi o talentoso arquiteto da Standard Eléctrica em Lisboa, arquiteto-chefe da exposição do Mundo Português, e escreveu e realizou A Canção de Lisboa, primeira filme sonoro português e matriz das futuras fitas de comédia bairrista. Poeta, ator, designer, ilustrador, foi o verdadeiro pai da imprensa infanto-juvenil portuguesa, com a criação e direção do ABC-zinho, desde o seu início em 1921, até ao número 200 da segunda série, em 1929. O anacronismo histórico era recurso comum na infância publicitária de uma sociedade de consumo moderna, sedenta de mordomias domésticas que a ressaca da Primeira Guerra Mundial e o progresso tecnológico proporcionavam, mas a série de 30 quadros históricos dos chocolates SIC é de um humor negríssimo, quase absurdo. No número 50 da revista-mãe ABC, fazia-se a apologia desta abordagem publicitária reclamando a sua eficácia como sendo “10 vezes mais proveitosa do que anunciando por qualquer outro dos habituais meios”. A hilariante saga ilustrava alguns dos episódios mais sangrentos da gesta lusitana, começando nas cabeças sarracenas cortadas a esmo pelo rei Afonso Henriques e acabando numa dúvida existencial sobre a estátua equestre de D. José, não faltando pelo meio o episódio brejeiro de D. João V e da sua amante Madre Paula e uma partida em falso, com o episódio bíblico de Adão e Eva. O traço de Cottinelli era rápido, sintético, já presente nas suas pioneiras e frenéticas bandas desenhadas, como as Aventuras (e com razão) do Pirilau que Vendia Balões e A Grande Fita Americana, publicadas simultaneamente na revista ABC. Cottinelli Telmo não assinou todos os episódios da História do Chocolate. Emmérico Nunes, presença constante na primeira série da revista, desenharia pelo menos quatro dos quadros. A série terminou em 1923, ao número 40 do ABC-zinho. A heresia da História do Chocolate aproveitava os ventos libertários da I República, renegava o romantismo histórico da literatura e artes visuais portuguesas da época, e estava ainda longe da instrumentalização da História pelo Estado Novo, que teria uma presença obsessiva nas revistas infanto-juvenis e manuais escolares a partir de meados dos anos 30.

Chocolate stories

This was how Dona Inês’ murderers were really punished!  They were tied down in front of a splendid box of SIC bonbons just beyond their reach and they drowned in their drool!  Poor things!”  This was one of the delightful captions of advertisements for SIC bonbons and chocolates based on a series of famous events in Portuguese history.  The children’s magazine ABC-zinho came out with História do Chocolate in their first issue in October 1921. It was written and illustrated by Ângelo Cotinelli Telmo (Lisbon, 1897 – Cascais, 1948), a typical example of the innovative generation of Portuguese modernism.  Cottinelli was a gifted architect working for Standard Electric in Lisbon and chief architect of the Mundo Português Exhibition.  He also wrote and directed A Canção de Lisboa [Lisbon Song], Portugal’s first sound film and a model for future comedies about life in old neighbourhoods.  Poet, actor, designer and illustrator, he was the founder of Portuguese children’s publications.  He set up and edited ABC-zinho from its start in 1921 until issue No. 200 in the second series in 1929. Children’s advertisements commonly fell back on historic anachronisms in an age of modern consumer yearning for household utilities following the privations of the first world war but which were now available thanks to technological progress.  Yet the humour underlying the 30 history sketches for SIC chocolates is very dark, almost absurd.  The hilarious saga illustrated a few of the goriest episodes in Portuguese history beginning with King Afonso Henriques randomly cutting off Moorish heads in battle and ending up with existential uncertainties about the equestrian statue of King José – not forgetting the salacious episode involving King João V and his mistress, the nun Mother Paula, a false begin with the biblical story of Adam and Eve.

Cottinelli drew swiftly and deftly in a style already evident in his pioneering frenetic strip cartoons such as Aventuras (e com razão) do Pirilau que Vendia Balões and A Grande Fita Americana, published simultaneously in the ABC magazine.  The winds of liberty released by the First Republic allowed História do Chocolate to oppose and reject the historic romanticism of Portuguese literature and arts of the time. Salazar’s New State was still to come with its instrumentalisation of historical narratives, which was to be so obsessively present in children’s magazines and school books as from the mid-1930s.

Cottinelli Telmo, ABC-zinho 1

Cottinelli Telmo, ABC-zinho 2

Cottinelli Telmo, ABC-zinho 3

As ilustrações foram restauradas digitalmente The illustrations were digitally restored

Fontes Sources
O Pirilau que Vendia Balões e outras Histórias de Cottinelli Telmo, Carlos Bandeiras Pinheiro e João Paulo Paiva Boléo. Bedeteca de Lisboa e Baleiazul, 1999.
A História do Chocolate SIC, separata de O Pirilau que Vendia Balões e outras Histórias de Cottinelli Telmo, Carlos Bandeiras Pinheiro e João Paulo Paiva Boléo. Bedeteca de Lisboa e Baleiazul, 1999.
ABC-zinho 1 a 40 amavelmente cedidos por João Paulo Paiva Boléo

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Preto Papusse Papão

O Modernismo português, iniciado em 1909 com a primeira geração de Coimbra, chega tarde ao livro ilustrado. É preciso esperar por 1920 e pel’ O Mundo dos meus bonitos (bonitos = brinquedos), que não é um verdadeiro livro para crianças, mas uma melancólica evocação dos tempos perdidos da infância, em poemas inflamados de Augusto Santa Rita. As ilustrações de capa e dos separadores a cor, em originais em papel de lustro (bastante diferentes da versão impressa), revelam um construtivismo inusitado, em corte absoluto com a ilustração Belle Époque de Alonso e com a herança de Bordalo Pinheiro, geometrizando dramaticamente a tipografia e os medos da infância, polvilhados com o racismo típico das élites da época.

Ângelo Cottinelli Telmo (Lisboa, 1897-Cascais, 1948), foi um empreendedor e multifacetado artista, cartunista, ilustrador e banda desenhista, arquiteto de obras públicas do Estado Novo, arquiteto-chefe da Exposição do Mundo Português em 1940, realizador do primeiro filme sonoro, A Canção de Lisboa, em 1933. E também o impulsionador da mais emblemática revista infantil dos anos 20, o ABC-zinho. Na senda de um Quim e Manecas, de Stuart, já tinha criado inovadoras bandas desenhadas, publicadas no ABC em 20 e 21: As aventuras Inacreditáveis (e com razão) do Pirilau que Vendia Balões e A Grande Fita Americana. Cottinelli foi expoente de uma geração febril e talentosa que traçou a modernidade das artes gráficas portuguesas.

Fontes

O Pirilau que vendia balões e outras histórias de Cottinelli Telmo, Carlos Bandeiras Pinheiro e João Paulo Paiva Boléo, edição Bedeteca/Baleiazul, 1999

Dicionário dos Autores de banda desenhada e cartoon em Portugal, Leonardo de Sá e António Dias de Deus, Edições Época de Ouro, 1999

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