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histórias da ilustração portuguesa

Dextrogiras e levogiras

ETC, O Mosquito 422

Vilões e heróis batem-se a murro e pontapé em incríveis piruetas nas capas d’O Mosquito, a mais amada das revistas infanto-juvenis portuguesas dos anos quarenta. Em saloons e pradarias do oeste americano, convés de barcos piratas, gelos do Alaska, selvas luxuriantes ou nas cidades do policial negro, os protagonistas executam coreografias violentas sujeitas a espirais cinéticas bastante visíveis na composição da imagem, que conferem um tremendo dinamismo e provocam, não raro, a colisão com o ponto de vista do leitor. O efeito é acentuado pelo rebatimento de planos e o virtuosismo anatómico, sem depender demasiado das flutuações do registo gráfico. A espiral simboliza, desde tempos imemoriais, o ciclo da vida, da morte e do renascimento, ou uma sucessão crescente de acontecimentos que parece não ter fim. Significados bastante pertinentes para um banda desenhista requintado como Eduardo Teixeira Coelho (Angra do Heroísmo 1919-Florença 2005), autor destas capas d’O Mosquito.

Artífice fundamental da história da BD portuguesa, ETC desenhou mais de 300 capas para O Mosquito. A primeira, para o número 360 de 1942, a última para o 1404, de 1952. Ilustravam momentos-chave de pequenas novelas, geralmente de continuação, complementadas por outras ilustrações no interior. A aplicação da cor para a impressão litográfica, a cargo de Manuel Velez e, mais tarde, de José Ruy, também ele um prolífico banda desenhista, usava frequentemente um infalível jogo de cores complementares, onde imperavam o vermelho ou o vermelhão, e o verde. Se o desenho das poderosas massas musculares em tensão era irrepreensível, tanto não se pode dizer de algumas composições. A ausência de profundidade podia comprometer o resultado, como a confusão equestre do número 560 ou a mistura de cabeças humana e animal do número 663. As coreografias de ETC, em espirais dextrogiras, quando se voltam para a direita ou levogiras, quando se voltam para a esquerda, estilizavam a violência, em números circenses que atingiam o cúmulo nos upside down dos números 566 e 571, na novela Quero Ser Palhaço, com os meliantes sovados por um herói de collants brancos, o trapezista Ginlio do Circo Razamida.

Dextrorotation and levorotation

Heroes and villains punch and kick one another in unbelievable whirling spirals on the covers of O Mosquito, the most treasured of Portuguese children’s magazines in the 1940s. Whether in the saloons or prairies of the Far West, on deck of pirate ships, in icy Alaska, tropical jungles or cities of noir crime stories, our protagonists enact a choreographed violence ruled by the vigour of spiralling that very plainly emerges in the image’s composition to confer tremendous force and often crashes into the reader’s view. The effect is heightened by the rotation of drawing views and the virtuosity of anatomical drawing, without depending too much on the fluctuations of graphic recordings. The spiral has been since time immemorial a symbol of the circle of life, death and rebirth, or then of a growing sequence of events that seems endless. These meanings were of great import to a sophisticated comic strip cartoonist such as Eduardo Teixeira Coelho (Angra do Heroísmo 1919 – Florence 2005), the creator of these covers.

A major draftsman in the history of Portuguese comics, ETC drew over 300 covers for O Mosquito. The first was for Nº 360 in 1942 and the last was for Nº 1404 in 1952. He illustrated key moments in short novellas, generally in serialised form, as well as other inside images. Colour applied in the lithographic prints was the responsibility of Manuel Velez and later José Ruy, who was also a prolific comic strip cartoonist himself. Frequent use was made an infallible scheme of complementary colours in which red, or vermillion, and green predominated. If his drawing of powerful, taunt muscular mass was flawless, the same cannot be said of some compositions. Lack of depth of field could mar the result, as in the pile-up of horses in No. 560 and the combination of human and animal heads in No. 663. The choreographic movements in his work with their dextrorotary spirals, which turn to the right, and levorotary spirals, which turn to the left, stylised violence in circus-like acts that reached a peak in the upside down images in No. 571 in the Quero Ser Palhaço [I Want to be a Clown], where the villain get a hiding from a hero in white tights, trapeze artist Ginlio of Circo Razamida.

ETC, O Mosquito 460

ETC, O Mosquito 482

ETC, O Mosquito 488

ETC, O Mosquito 540

ETC, O Mosquito 560

ETC, O Mosquito 562

ETC, O Mosquito 566

ETC, O Mosquito 571

ETC, O Mosquito 573

ETC, O Mosquito 574

ETC, O Mosquito 575

ETC, O Mosquito 593

ETC, O Mosquito 647

ETC, O Mosquito 648

ETC, O Mosquito 663

ETC, O Mosquito 688

ETC, O Mosquito 711

Bibliografia

As Capas de Eduardo Teixeira Coelho para “O Mosquito”, org. Manuel Caldas, introd. António Dias de deus, Edições EMECÊ, Póvoa do Varzim, 2004 (Cortesia de José Vilela).
ETCoelho – A Arte e a Vida, Leonardo De Sá e António Dias de Deus, NonArte, Cadernos do Centro Nacional de Banda Desenhada e Imagem Impressa, Edições Época de Ouro, Costa da Caparica, 1998.

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Heróis de calções

Viriato: Com denodado ardor / as gentes lusitanas / enfrentam as romanas / vencendo o invasor.

Para o Estado Novo de Salazar, o corpo e a alma deviam ser treinados para o serviço de Deus, da Pátria e dos Chefes. Não esqueçamos a letra S gravada nos cintos da farda da Mocidade Portuguesa. Significava escrupulosamente Servir (e, maliciosamente, o nome do ditador). A Educação Física apurava a Raça e a exaltação dos feitos históricos contribuía para a formação patriótica dos infantes. Juntando História e Ginástica, o capitão Alberto Feliciano Marques Pereira, redigiu o livro O Valor Moral da Educação Física, quinto e último de uma série sobre ginástica infantil editada entre 1946 e 1951. Nos dois primeiros capítulos, o autor afeiçoava a formação física aos valores da moral cristã e do amor à Pátria. No terceiro capítulo, passava ao ginásio. O caráter belicista do programa inspirava-se em algumas das mais cruentas carnificinas da gesta portuguesa, escolhidas para ilustrar os exercícios, e complementava a integração das crianças em organizações militaristas como a Mocidade Portuguesa.

As quadras rimadas e as imagens aguçavam o interesse dos professores e da petizada. As ilustrações foram feitas a quatro mãos. As de Álvaro Duarte de Almeida (Moçâmedes, 1909-1972) prolífico ilustrador de literatura infantil e de uma interessante História da Tauromaquia; e as de Eduardo Teixeira Coelho (Angra do Heroísmo, 1919-Florença, 2005), monstro sagrado da história dos quadradinhos portugueses. O traço uniforme e limpo de Duarte de Almeida confere às cenas históricas uma extrema legibilidade, a regularidade do traço a rebater perspetivas, tornando as cenas imponentes como se pode confirmar no exercício das Invasões Francesas. Teixeira Coelho, apesar da sua competência em temas históricos (criou verdadeiras clássicos do género como O Caminho do Oriente, de 1946), ficou relegado nesta parceria para as mais modestas cenas de ginásio, raramente assumindo o seu famoso traço e as composições cinéticas da revista infantil Mosquito. Se a linearidade de Álvaro Duarte de Almeida resistiu melhor ao tempo, o interesse destas imagens radica sobretudo no retrato de uma ideologia  que nos parece agora um anacronismo de anedota.

O semeador: Bendigo a deus, a Deus louvo o valor / do nosso povo: marinheiro denodado, / alma de herói e soldado, / da terra cultivador, / camponês e lavrador…

A Batalha de Aljubarrota: Pela Pátria vencereis, / inda que um contra seis…

O Decepado: Ninguém soube guardar / melhor uma bandeira… / À mão que era estrangeira / jurou não a entregar… / Na História foi chamado / o Grande Decepado.

Partida de Vasco da Gama para a Índia: Eis a largada e já começa a ver-se / o mais belo Padrão da História a erguer-se / Eregem-no, a partir desse momento, / as velas desfraldadas pelo vento. / Ufana a Pátria as vê. Vasco da Gama / não procura a riqueza, nem a fama… / o pensamento leva outro ideal / quando no peito, bate Portugal.

Os Portugueses nos mares da China: Macau foi dado / aos portugueses / de bom grado / pelos chineses. / Foi paga imensa, / foi paga grata / da luta intensa / contra o pirata.

Luís de Camões: Em letras de oiro ‘sculpiu / o nome da terra amada. / Ninguém melhor esgrimiu / com a palavra e a espada.

Invasões Francesas: Desde o primeiro instante ao derradeiro / a Pária será por ti, meu coração!… / Lutar, morrer, mas nunca a sujeição / ao invasor, ao vil, ao mau estrangeiro!

1ª. Guerra Mundial: Heróicos actos encerra / Nove de Abril / Grande Guerra.

As ilustrações foram restauradas digitalmente

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Lá vamos cantando e rindo

A inquietante perspetiva de uma Espanha comunista em resultado da Guerra Civil e o fascínio da direita extremista portuguesa pelas ditaduras italiana e alemã forçaram Salazar à criação de organizações paramilitares como a Legião e a Mocidade Portuguesa em 1936. Esta última decidia-se a moldar os infantes portugueses aos valores nacionais e combater o internacionalismo bolchevista. Tratava-se de saturar a cabeça de doutrina e o corpo de exercício, até para evitar os malefícios do onanismo (práticas genésicas, como se dizia na altura). Avesso a extremismos, o ditador controla como pode estas problemáticas organizações, nomeando chefias da sua confiança. O principal doutrinador da MP, e mais tarde seu comissário geral, Marcelo Caetano, viria a ser o delfim e sucessor de Salazar. Em 1937, nascia a Mocidade Portuguesa Feminina, “sentinelas da alma de Portugal”, que enquadraria as suas filiadas no seio do lar e da família, oportuna retaguarda dos valorosos guerreiros da congénere masculina. A farda das MPs era peça fundamental na disciplina coletiva e na encenação de desfiles e paradas. As MPs dividiam-se em Lusitos/Lusitas, Infantes, Vanguardistas e Cadetes/Lusas, em categorias dos 7 aos 25 anos, cada uma com farda própria. A representação gráfica das MPs foi evoluindo ao sabor do seu papel político e social e do grafismo dos ilustradores de várias gerações. Nem o velhinho Alfredo Moraes (na altura, já com 65 anos) escapou à chamada, ilustrando os garbosos mancebos, logo em 1937, para um Livro de Leitura dos Liceus.

Portugal é grande, Livro de Leitura para o 1.º Ciclo dos Liceus, ilustração de Alfredo Moraes, Livraria Popular de Francisco Franco, 1937

Livro de Leitura para a 4.ª Classe do Ensino Primário, ilustração de Fernando Bento, Livraria Avis, Porto, s.d.

La jeunesse Portugaise à L’École, I.ere et II.e année, ilustração de Lino António, Livraria Sá da Costa Editora, 1939

O alistamento nas Mocidades era obrigatório dos 7 aos 14 anos e as suas actividades enquadradas a partir da escola. Naturalmente, os manuais escolares dos anos trinta a cinquenta refletiram esta presença obssessiva da MP, incluindo o diploma do Ensino Primário Elementar. Num curioso livro de Francês de 1939, Lino António ilustra com bonomia petizes orgulhosos das suas fardas por entre páginas carregadas de ideologia estado-novista. Os efémeros cadernos escolares de escrever e contar usaram abertamente a iconografia da MP nas suas capas de papéis baratos geralmente impressas a uma cor e sem menção de autor. Um dos mais curiosos talvez seja o do caderno Lusitos/Lusitas, onde compactas filas de miúdos rigorosamente iguais fazem lembrar um inquietante Mundo Novo ariano. Na literatura para a infância, as MPs assumiam a gesta histórica do país, somando-se à reconquista medieval e à epopeia dos Descobrimentos. No livro História de Portugal para Meninos Preguiçosos de Olavo D’Eça Leal (o menino preguiçoso era o filho do autor, Paulo Guilherme, reprovado em História mas futuro “doutor” em Ilustração e Design), a ilustração final, de Manoel Lapa, é um happy end, com as organizações irmãs, Mocidade e Legião, garantindo o devir português.

Caderno escolar, frente e verso, s.d.

Redacções, 4.ª Classe e Admissão aos Liceus, Livraria Popular de Francisco Franco, s.d.

A este devir vanguardista não foram insensíveis os ilustradores modernistas. Já em 1938, num opúsculo de Silva Tavares, Almada Negreiros desenhava uma juventude heróica e triunfal. Mas o esteticismo modernista cedeu o lugar à juventude belicista da década seguinte, com a escalada da Segunda Guerra Mundial, bem explícita na abundante produção gráfica de Júlio Gil, ele próprio destacado dirigente da organização. O Jornal da MP exemplifica o período de maior extremismo ideológico e doutrinação política. É tempo da pose firme e das baionetas caladas dissipando a treva bolchevista. Em Maio de 1943, temendo a invasão de inimigos ou aliados, os filiados da MP faziam caricatas rondas nos castelos e monumentos nacionais, gritando senhas de reconhecimento. O desfecho do conflito e a reorganização política e social sequente esvaziaram a importância da MP como bastião do regime. Gradualmente perdeu o seu cariz militarista e patriótico acabando na inofensiva organização de tempos livres, ao jeito dos Escuteiros, até à extinção natural em 1974.

Roteiro da Mocidade do Império, Silva Tavares, ilustração de Almada Negreiros, Agência Geral das Colónias, 1938

O canto da Mocidade, texto de Odette de Saint-Maurice, ilustrações de Mário Costa, Empresa Nacional de Publicidade, 1938

História de portugal para meninos preguiçosos, Olavo D’Eça Leal, ilustrações de Manuel Lapa, Livraria Tavares Martins, 1943

Tronco em flor, Joäo Carlos Beckert de Assunção, ilustrações de Júlio Gil, Mocidade Portuguesa, 1944, original, guache sobre papel

Jornal da MP, n.º 40, 11-XI-1944, ilustração de Júlio Gil

O valor moral da Educação Física, Alberto Feliciano Marques Pereira, ilustrações de Álvaro Duarte de Almeida e Eduardo Teixeira Coelho, 1949

Fontes

Mocidade portuguesa I [Masculina] e Mocidade Portuguesa II [Feminina], texto de Manuel A. Ribeiro Rodrigues, ilustração de Carlos Alberto Santos, editora Destarte, 2003.

Portugal Século XX – Crónica em imagens 1930-1940, 1940-1950, Joaquim Vieira, Círculo dos Leitores, 2000

Mocidade Portuguesa, Joaquim Vieira, A Esfera dos Livros, 2008

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