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histórias da ilustração portuguesa

Histórias malucas

Se uma fábrica pode ser uma simples casa com um canudo de baixo para cima, um poço é uma chaminé ao contrário, um canudo de cima para baixo. Três malucos, o Zé, o Necas e o Manecas, decidem desenterrar um poço inteiro para completar o seu novo e estapafúrdio projeto, uma fábrica de guloseimas… Esta é o enredo de um dos contos do livro Histórias e Bonecos, raridade alfarrabista recheada de historinhas absurdas mas delicadas que, em 1947, contrastava com as madrastas vingativas, princesas casadoiras e príncipes palermas que pululavam nos livros da Editora Majora. O Modernismo decorativo da Política do Espírito de António Ferro nunca chegou a afirmar-se com consistência na literatura para crianças, e o naturalismo gráfico e cromático, ou a paródia cartunesca, eram registo habitual nos livros infantis daqueles anos de sujeição aos valores morais e pedagógicos do Estado Novo.

José de Lemos (Lisboa, 1910-1995), que ilustrou e escreveu estes sete contos de Histórias e Bonecos, revela uma figuração sintética e geometrizada, aplicada em cores planas. Lemos recorre a um repetido plano frontal, sem sombras nem perspetiva e complementa as suas cómicas personagens com os adereços indispensáveis ao enredo, tudo recortado no branco do papel. O livro, de impressão deficiente e registo de cor incerto, tem uma particularidade fascinante: a impressão tipográfica das cinco cores diretas permite alguma transparência e a sobreposição duplica o número de cores. É um livro referencial, segundo de uma mão cheia que o artista refinaria a traço negro na década seguinte, e já mostrados em post anterior (O Compadre Simplório tem os pés tortos). Lemos recebeu por duas vezes o prémio literário Maria Amália Vaz de Carvalho: com O Sábio Que Sabia Tudo e Outras Histórias, em 1944, e em 1947 para este Histórias e Bonecos, que a Editora Ática voltaria a reeditar em 1962.

 A fábrica do Zé Maluco, do Necas Maluco e do Manecas Maluco nunca chegou a ser construída já que o poço se recusou a cooperar. Foi, afinal, uma fábrica de gargalhadas para a população da terra que ria a bom rir da proeza dos três simpáticos empreendedores.

Crazy stories

If a factory can be an ordinary house with a long tube going up for a chimney, then a water-well can be the top of a chimney with the tube going down. Three loony guys, Zé, Necas and Manecas decide to dig up an entire well as they have a new nutty plan: a sweet factory… This is one of the stories in Histórias e Bonecos [Stories and Pictures], a rarity even in second-hand bookshops that is filled with absurd but charming goings-on that greatly differed in 1947 from the vengeful stepmothers, marriageable princesses and dilettantish princes galore in Editora Majora books. The decorative Modernism of the ‘Política do Espírito’ (‘Politics of Spirit’) advanced by António Ferro, head of the Salazar regime propaganda machine, never really managed to assert itself in children’s literature and graphic and chromatic naturalism and cartoonlike parody were the norm in children’s books in the years when the regime was dictating moral and pedagogic values.

José de Lemos (Lisbon, 1910-1995), who illustrated and wrote the seven stories in Histórias e Bonecos, showed an amazing talent for synthetic and geometric figuration in plain colours. He used repetitive frontal planes without shadows or perspective and complimented his comic characters with props necessary to the storyline and cut-out on white paper. The book, though poorly printed in imprecise colours, has a fascinating particularity: the typographical printing in five direct colours creates transparency and the overlapping colours doubles their number. It’s a landmark book, the second by an accomplished artist whose black drawing line refined in the next decade, as shown in a prior blog post (O Compadre Simplório tem os pés tortos). Lemos received the Maria Amália Vaz de Carvalho literary award twice: for O Sábio Que Sabia Tudo e Outras Histórias in 1944 and for Histórias e Bonecos in 1947, which Editora Ática reprinted in 1962.

The factory that crazy Zé, Necas and Manecas planned never got built in the end as the well refused to cooperate. But it became a factory producing great howls of laughter as people followed the deeds of the charming trio of entrepreneurs.  


As ilustrações foram restauradas digitalmente The illustrations were digitally restored

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O Compadre Simplório tem os pés tortos

O Compadre Simplório tem os pés tortos, Edições Ática, 1959

As histórias são amáveis quiproquós em pequenas peças de teatro do absurdo em que o autor foi mestre. São histórias de bairro e aldeia, pequenos enganos e grandes distrações, pacatos costumes cortados por um nonsense amável, sem sinal de pecado ou culpa. Nas ilustrações aqui apresentadas, em livros com histórias suas, na Colecção Infantil da Editora Ática nos anos de 57 e 59, o ilustrador revela uma extraordinária rarefação gráfica em ilustrações bidimensionais, sem perspectiva, com cores planas intensas, brancos amplos contrastados por traços finos e pretos compactos. A figuração angulosa dos personagens, tão comum na época, é matizada pelas curvas suaves que se constituiriam marca de autor. Em Histórias de pessoas e bichos e O compadre Simplório tem os pés tortos, a ilustração revela-se em surpreendentes dípticos, preto e branco na página par, cores directas na ímpar.

José de Lemos (Lisboa, 1910-1995) foi humorista melancólico em traço virtuoso e inconfundível. Teve participação notável no Papagaio, revista infantil de Adolfo Simões Müller, iniciada em 1935, em substituição de Thomaz de Mello (TOM). E uma ligação de sempre ao vespertino Diário Popular, onde começa a colaborar com a sua Página Infantil desde o início do jornal, em 1942. Ligado à segunda geração modernista portuguesa, Lemos personaliza o traço paulatinamente ao longo dos anos 50, já visível nestes três livros, e atingirá o seu esplendor no Diário Popular ao longo das prolíficas décadas de 60, 70 e 80, em bandas desenhadas, tiras cómicas, cartoons (o célebre Riso Amarelo), rubricas infantis e um prodigioso conjunto de tricromias para centenas de episódios policiais e de espionagem, nos suplementos Volta ao Mundo e Sábado Popular.

 

O Compadre Simplório tem os pés tortos, Edições Ática, 1959

Histórias de pessoas e bichos, Edições Ática, 1959

Histórias de pessoas e bichos, Edições Ática, 1959

 

O Compadre Simplório tem os pés tortos, Edições Ática, 1959

O sábio que sabia tudo e outras histórias, Edições Ática, 1957

 

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