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histórias da ilustração portuguesa

Lições republicanas

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As revoluções em Portugal têm destas coisas. Raramente os ventos de mudança penetram a cultura visual com a mesma violência com que o fazem na esfera política e social. Foi assim em 1974 com a proliferação da estafada iconografia soviética e chinesa, foi assim com a implantação da República em 1910. O novo poder político tinha em mãos uma sociedade rural e iletrada. Em 1917, às portas da ditadura de Sidónio Pais e de uma fraturante participação nas trincheiras lamacentas da Primeira Guerra Mundial, o regime empreende uma demanda pedagógica destinada a aplicar a moral republicana assente nos princípios humanistas consagrados pela matricial revolução francesa. Apesar da contemporaneidade da primeira geração modernista do Orfeu, onde pontuava Almada Negreiros, os 12 cartazes da série Quadros Educativos, que ornamentaram as paredes das escolas portuguesas, ficaram a cargo dos ilustradores e cartunistas académicos que seguiam as pisadas do oitocentismo, no traço piegas de dramalhões históricos de sabor romântico, na aguarela verista de costumes e usos tradicionais portugueses ou ainda no corrosiva sátira política de feição bordaliana. Os Quadros foram ilustrados por A. Quaresma, Hebe Gonçalves, F. Guedes, Hipólito Collomb, as manas Helena e Mamia Roque Gameiro, Rocha Vieira, Alonso e Alberto Souza (que tanto irritou os modernistas de Coimbra com o seu obssessivo registo da ruralidade portuguesa), e ainda o prolífico Stuart de Carvalhaes, balançando entre a tradição e os modernos. O design dos cartazes é rudimentar e passou ao lado da revolução em curso no cartazismo publicitário que operava em toda a Europa uma síntese gráfica e só vingaria em Portugal no início da década seguinte. O traço verista, adoçado pela sumptuosa impressão em litografia, ilustra princípios de caráter laico e igualitário (Ama a Árvore / Ajuda os Mais Fracos / O Trabalho Dá Alegria / Respeita os Mais velhos / Quem Semeia Colhe / Devagar Que Tenho Pressa) e desígnios nacionais, como o impressionante cartaz de Alfredo Moraes com a exaltação patriótica da participação do Corpo Expedicionário Português em França, no expressivo dramatismo com que Morais ilustrou centenas de novelas de sabor popular. Os Quadros Educativos têm uma curiosa sequela, 21 anos depois, nos sete cartazes A Lição de Salazar, editados em 1938 para comemorar os seus dez anos no Governo. Tal como os inflamados cartazes da Primeira República, também estes pretendiam doutrinar os futuros cidadãos.

Republican lessons

This tends to happen to revolutions in Portugal. It’s rare that the winds of change manage to penetrate visual culture with the same force as they do the political and social spheres. This was the case in the April 1974 revolution with its  profusion of rather stale Soviet and Chinese iconography, as well as in 1910 and the proclamation of the republic.  The new political powers found that they had a rural illiterate society in their hands. In 1917, at the start of Sidónio Pais’ dictatorship and Portugal’s divisive participation in the First World War and its muddy trenches, the government embarked on addressing the pedagogical need to set up a republican sense of morality. This was based on humanist principles enshrined in the model set by the French revolution. Although this happened concurrently with the first modernist generation of Orfeu artists, which included Almada Negreiros, it was academically-trained illustrators and cartoonists who were chosen to create the 12 posters of the Quadros Educativos [Educational Charts] to adorn the walls of Portuguese classrooms. These followed in the steps of 19th-century artists and their tacky depictions of historical dramas that appealed to romantic tastes, with their verisimo watercolours of traditional customs and costumes and also with caustic political satire in the style of Bordalo Pinheiro. The charts were illustrated by A. Quaresma, Hebe Gonçalves, F. GuedesHipólito Collomb, the sisters Helena and Mamia Roque GameiroRocha VieiraAlonso and Alberto Souza (whose obsessive depiction of Portugal’s country life so annoyed modernists in Coimbra) and the inexhaustible Stuart de Carvalhaes, who balanced tradition with modernism. The design of the posters is elementary and ignores the on-going transformation throughout the whole of Europe, but which only reached Portugal at the end of the 1920s, of graphical synthesis in publicity posters. Their realist drawing style was softened in sumptuous lithographic prints that illustrated secular and egalitarian principles (Love Trees / Help Those Who Are Weaker / Work Brings Happiness / Respect Older People / Those Who Sow Will Reap / Slowly Because I’m In A Hurry). They also showed Portuguese concerns such as the remarkable poster by Alfredo Moraes with its patriotic exaltation of the Portuguese Expeditionary Corps during the war in France and in the expressive sense of drama with which he illustrated hundreds of novels that appealed to popular tastes. There was an interesting development to Quadros Educativos some 21 years later in 7 posters entitled A Lição de Salazer [Salazar´s Lesson], which came out in 1938 to commemorate his tenth year in government. They were meant to indoctrinate future citizens in the very same manner as the inflammatory posters of the First Republic.

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Fontes Sources

Portugal Século XX, Crónica em Imagens, 1930-1940, Joaquim Vieira, Círculo dos Leitores, 2000

 

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O que é um quadrumano?*

Com a consolidação da ditadura, Salazar inicia em 1936 uma reforma do Ensino Primário que reduz a escolaridade obrigatória a três anos, generalizando também a separação dos alunos por sexos. Extinguem-se as classes infantis no ensino oficial e encerram-se as escolas do Magistério Primário. A doutrina do Estado Novo  e da Igreja Católica passam a ter uma presença sistemática nos conteúdos dos livros escolares e infantis com temas nacionalistas, valores morais conservadores e grotescas histórias de raiz popular. Em 1938, surge este belo livro, o ABC da escritora Maria de Carvalho, com 23 bichos para outras tantas letras. A fauna foi recorrente na ilustração para a infância na primeira metade do século XX, radicada no fabulário moralista e na exaltação do mundo rural e popular até que preocupações mais urbanas e existencialistas à volta do próprio mundo das crianças e das suas relações com os adultos foram gradualmente ocupando o seu espaço. Com animais da selva e da quinta, o ABC oscila entre a descrição naturalista e o paralelo com as qualidades e defeitos do bicho homem, sem paternalismo e mesmo com algum saudável cinismo.

Mamia, nome artístico de Maria Emília Roque Gameiro (1901, Amadora-1996), ilustrou a traço forte este abcedário. A notória incisão do traço sobre uma base negra, sem desgaste na textura, indicia ou copia uma técnica de gravura sobre suporte macio como o linóleo, em impressão sumptuosa a seis cores diretas: verde, castanho, azul, vermelho, amarelo e preto. Mamia pertenceu uma prolífica linhagem, filha de Alfredo, grão-mestre da ilustração histórica e etnográfica em aguarela, irmã da fabulosa Raquel Roque Gameiro, tia de Guida Ottollini, ilustradora de livros infantis e revistas de moda e, finalmente, mãe de Bixa (Maria Antónia), autora de quadradinhos para as revistas Lusitas e Fagulha. Em traço mais linear mas igualmente conciso, Mamia ilustrou vários livros para crianças como Varinha de condão, textos de Fernanda de Castro e Tereza Leitão de Barros, de 1924; e em duas marcantes edições da Livraria Bertrand, Papagaio Real e Bonecos falantes, ambos de Carlos Selvagem.

*Diz-se do, ou o que tem quatro mãos: os macacos são quadrúmanos. 
What’s ‘quadromanous’?*

Once his dictatorial regime was firmly established, Prime Minister Salazar began in 1936 a primary education reform that reduced compulsory schooling to three years and also made the separation of students by sex the general rule. Infant classes were closed in state education, as were primary school teacher training colleges. The doctrine espoused by Salazar’s New State and the Catholic Church then systematically pervaded the contents of school and children’s books with its nationalist themes, conservative moral principles and grotesque stories rooted in traditional values. In 1938, this beautiful book, ABC by Maria de Carvalho, came out with a different animal for each of the 23 letters of the Portuguese alphabet. Illustrations for children in the first half of the twentieth century were often of animals and were based on moralistic fables that exalted the countryside and its traditional lifestyles until more urban, existentialist concerns about a child’s world and its relations with adults gradually took over. The ABC illustrations are of both jungle and farmyard animals and vary from naturalist depictions to images that correspondence with the qualities and defects of the human animal, not paternalistic at all but with a dose of healthy cynicism.

Mamia, as Maria Emília Roque Gameiro (1901, Amadora – 1996) was known in the art world, illustrated this alphabet with her characteristically strong drawn line. Her well-known mode of cutting onto a black background, without spoiling the texture, shows and copies a technique of engraving on a thick support, such as linoleum, in sumptuous direct printing in six colours: green, brown, blue, red, yellow and black. Mamia belonged to a prolifically creative family; she was the daughter of Alfredo, the grand master of historical and ethnographic watercolour illustrations, the sister of the fabulous Raquel Roque Gameiro, the aunt of Guida Ottollini, illustrator of children’s book and fashion magazines, and finally, the mother of Bixa (Maria Antónia), who did comic book illustrations for Lusitas and Fagulha magazines. More linearly but with equal concision, Mamia illustrated several children’s books such as Varinha de condão with texts by Fernanda de Castro and Tereza Leitão de Barros in 1924, and the two outstanding Livraria Bertrand publications Papagaio Real and Bonecos falantes, both by Carlos Selvagem.

* Having four feet with opposable first digits, as primates other than humans.

As ilustrações foram restauradas digitalmente The illustrations were digitally restored

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Index de ilustradores em que a listagem da obra e bibliografia, embora tendencialmente exaustivas, não são raisonée. É um work in progress onde todas as contribuições são bem-vindas.

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