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histórias da ilustração portuguesa

Baby boom

Em 1917, O Corpo Expedicionário Português, mal equipado e treinado, deixava-se massacrar nas trincheiras lamacentas de França e em Portugal a ingovernável vida política da Primeira República tinha um desfecho previsível na ditadura presidencialista de Sidónio Pais. No meio de tanto horror e desolação, nasceu um glorioso hino à vida e à esperança num futuro risonho para as crianças portuguesas… bem, não para todas. O Livro de Bèbé, edição da Papelaria Guedes, registava os episódios notáveis dos primeiros anos de vida da criança. Em jeito de diário, anotado pelos extremosos pais, constituía uma memória de tempos felizes onde não faltava sequer lugar para uma madeixa de cabelo. Se alguns dos sucessos descritos são interclassistas e universais, como o primeiro dente ou a primeira palavra, outros eram atributo de elite possidente e letrada, como a primeira vacina, a primeira papinha ou o primeiro exame. Há quatro versões do livro, de 1917 a 1969. Na primeira, O Livro de Bèbé, a autoria era dividida pelas ilustrações Belle Époque de Raquel Roque Gameiro (Lisboa, 1889-1970) e pelos versos xaroposos do escritor Delfim Guimarães. Na edição de 1925, mantiveram-se as quadras mas Raquel redesenhou os episódios no seu caraterístico traço a uma cor. Na terceira versão, A História do Bèbé, com datação provável da década de 40, Raquel renovou as ilustrações para os mesmos temas com textos de vários autores, adicionando episódios finais relacionados com o aumento da escolaridade e a renovada influência da Igreja.

A imutabilidade do traço nas segunda e terceira versões, que acumularam reedições sucessivas ao longo de três décadas, acrescenta um interesse adicional à sua comparação. Podemos apreciar dois retratos de época, onde evoluem trajes, penteados e hábitos sociais. Evolui também a gramática decorativa da ilustradora, da luxuriante natureza vegetal Art Nouveau de 1925 à sóbria Art Deco, de ornamentação mais geométrica. Raquel é uma das mais virtuosas ilustradoras portuguesa da primeira metade do século XX. Provavelmente a única comparável aos grandes clássicos da época como o inglês Arthur Rackham ou o francês Edmond Dulac, ilustradores que Raquel assumidamente apreciava. Produziu vasta obra na literatura para a infância e na documentação de costumes tradicionais, onde se revelou exímia aguarelista, herança genética do pai Alfredo Roque Gameiro. Mas é na espantosa claridade da tinta negra que as suas ilustrações brilham. O traço tem uma insuperável limpidez e precisão, a espessura e definição são constantes em todos os planos, e a composição cinematográfica não teme a perspectiva e a assimetria.

No tocante prefácio da derradeira edição, a um ano da sua morte, Raquel refere as dedicatórias das várias edições às sucessivas gerações Roque Gameiro: primeiro aos pais, em seguida aos filhos, depois aos netos, e, por último aos bisnetos, quando os seus olhos cansados já precisam das mãos da sua filha Guida Ottolini com quem reparte a autoria deste A História do Bébé – Recordações.

Baby boom

While the Portuguese Expeditionary Corps, ill-equipped and poorly trained, were being slaughtered in the muddy trenches of France in 1917, Portugal had become ungovernable under the First Republic and the presidential dictatorship of Sidónio Pais to come was all but inevitable.  Born in the midst of so much horror and despair came a glorious hymn to life and hope in a smiling future for Portuguese children … well, not quite for all of them. O Livro de Bèbé [The Baby Book], published by Papelaria Guedes, recorded notable events in a child’s first years in the form of diary entries and notes by doting parents, and even a lock of hair had a place in this collection of happy memories. If some of the recorded achievements, such as the baby’s first tooth and words, are universal and classless, others, such as the baby’s first vaccination, first solid food and doctor’s examination are restricted to a wealthy and cultured elite.  Four versions of the book came out between 1917 and 1969. Authorship of the first version is shared between the Belle Époque illustrations by Raquel Roque Gameiro (Lisbon, 1889-1970) and saccharine poems by Delfim Guimarães. The 1925 edition kept the verses but Raquel illustrated the episodes again with her habitual one-colour drawings.  In the third version, A História do Bèbé [The Baby’s Story], probably dating to the 1940s, Raquel revamped her illustrations on the same themes with texts by several authors and additional final episodes related to increased schooling and the renewed influence of the church. 

That her characteristic line in drawings remains constant in the second and third versions, which were reprinted successively for thirty years, makes them even more interesting to compare. We see two portrayals of an epoch and how clothing, hairstyles and social habits developed, as did the grammar of decorative arts from the luxuriant use of nature in Art Nouveau in 1925 to the more restrained geometrical ornamentation of Art Deco. Raquel is among the Portuguese illustrators of the greatest virtuosity of the first half of the 20th century and probably the only one comparable to the great classic illustrators of the time, such as the Englishman, Arthur Rackham, and the Frenchman, Edmond Dulac, both of whom Raquel openly admired. She produced an enormous amount of work for children’s literature as well as recording traditional customs, where she showed herself a superb watercolourist, a talent she inherited from her father, Alfredo Roque Gameiro. It is in the astonishing clearness of black ink that her illustrations shine. Her drawing line is of matchless clarity and precision, its thickness and definition remain constant throughout each plane, and its cinematographic composition is not afraid of perspective and asymmetry.

In the touching preface to the last edition a year before she died, Raquel refers to the successive Roque Gameiro generations in her dedications. First, her parents, then her children, later her grandchildren and finally her great-grandchildren. By then, her tired eyes needed the help of the hands of her daughter, Guida Ottolini, who shared the authorship of this A História do Bébé – Recordações [The Baby’s Story – Recollections].

As ilustrações foram restauradas digitalmente The illustrations were digitally restored

Fontes Sources

http://roquegameiro.com.sapo.pt

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Feliz Natal, Sr. Lourenço

Boas Festas e Felicidades no Ano Novo“, “Agradecimentos pelos Amáveis Votos de Boas Festas Cordialmente Retribuídos” ou “Natal Alegre e Ano Novo Muito Feliz“. Escolhia-se a frase, preenchiam-se remetente e destinatário, dobrava-se o impresso em seis partes e a simpática missiva estava pronta para aumentar a Paz na Terra aos Homens de Boa Vontade. Manuel Cerejeira, amigo íntimo de Salazar, ascendeu a cardeal-patriarca de Lisboa em 1930. Igreja e Estado Novo partilharão doravante a ideologia e retribuirão favores e obediências, ela ressentida dos desmandos da Primeira República, ele esperando ajuda na pacificação do rebanho. O sucesso dos telegramas postais ilustrados dos CTT no Natal (BF), a partir de 1934, multiplicou-se em 1936 com o envio de impressos similares pela Páscoa (PAX). Circularam até 1972 e constituem um emaranhado de designações conforme as versões com frases pré-definidas ou de texto livre, e modos de envio, a partir dos postos dos Correios ou diretos do remetente ao destinatário (directos e autógrafos). A face frontal dos telegramas tinha moldura apelativa com ilustrações alusivas à quadra natalícia.

A iconografia estereotipada do nascimento e ressurreição de Jesus pedia mão realista e virtuosa como a de Júlio Gil (1924-2004), Alfredo Morais (1872-1971) e Raquel Roque Gameiro (1889-1970). São do infatigável Morais três exemplares de BF com risonhos querubins vestidos de bibe, Reis Magos em trânsito, e uma ternurenta Natividade, em aguarelas naturalistas salpicadas a ouro, a dos benjamins a lembrar a de Raquel, ilustradora mais preciosista com as suas rosadas criancinhas. Júlio Gil, cujo grafismo ascético se prestou sempre à ilustração da doutrina e da fé, ilustrou os restantes exemplares em generosas impressões a cinco e seis cores diretas. Caros e raros, os telegramas ilustrados podem ser encontrados em feiras de colecionismo especializado como a do Mercado da Ribeira, em Lisboa, aos domingos de manhã.

Alfredo Moraes, s.d.

Alfredo Moraes, s.d.

Alfredo Moraes, 1957

Raquel Roque Gameiro, 1956

Júlio Gil, s.d.

Júlio Gil, 1958

Júlio Gil, 1962

Júlio Gil, s.d.

Júlio Gil, s.d.


Publicidade ao serviço PAX, ilustração de Oskar, 1942

Fontes

http://www.inteirospostais.com/ostelegramaspostaispax.htm

Catálogo de Inteiros Postais Portugueses, 1º Volume de José da Cunha Lamas e A.H. de Oliveira Marques”

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Index

Index de ilustradores em que a listagem da obra e bibliografia, embora tendencialmente exaustivas, não são raisonée. É um work in progress onde todas as contribuições são bem-vindas.

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