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histórias da ilustração portuguesa

Savil contra Savil

SAVIL—CHANG CONTRA SAVIL

Thomas Birch, James Black, Fred Criswell, Marcel Durand, Max Felton, Henry Jackson, Nelson Mackay, Peter O’Brion, James W. Sleary, Pierre Souvestre, Joe Waterman ou Joelson foram pseudónimos usados por um prolífico escritor que não acreditava na generosidade dos leitores portugueses para comprar romances policiais da autoria de um tal Mário Domingues. Nas capas de inúmeras coleções dos seus livros, que se alargavam a horizontes mais vastos de ação e aventura, temos o seu filho António Domingues (Lisboa, 1921-Lisboa, 2004), cuja exemplar modéstia subtraíu a assinatura aos inúmeros títulos que ilustrava para o pai Mário. Domingues filho, artista agregado ao movimento neorrealista e, mais tarde, ao Surrealismo, conferia às suas ilustrações para os livros policiais uma dramática carnalidade, acentuada por exuberantes impressões em litografia e grafismos modernistas, bem visível em algumas capas da «Colecção Savil» ou em outras coleções de bolso, como a «Detective», «Max Tedd, o Ás dos Detectives» e «Crime e Castigo». 

A «Coleção Savil» é um quebra-cabeças em matéria de datação mas percorre toda a década de quarenta, repartida por duas editoras lisboetas, A Agência Editorial Brasileira, onde terá começado, e a Livraria Figueirinhas. A coleção, de apenas 20 volumes, duplicada em duas séries de grafismos diferentes, tinha como protagonista um ocioso príncipe oriental de nome Savil que, à semelhança do francês Arsène Lupin, era um bandido com princípios, a contas com bandidos sem eles e com a incompetência das polícias. O sexto volume dá-nos o mais absurdo título de toda a edição policial portuguesa, A História Sem Nome Dum Homem Sem Pernas, bem ilustrada, na edição de 1949, por uma cópia desajeitada da primeira edição, de 1941. O desacerto gráfico foi, aliás, constante em toda a coleção, já contemporânea da «Vampiro», que haveria de requalificar a literatura policial, a partir de 1947. As capas da Savil ou, mais concretamente, sobrecapas, com as suas explícitas cenas dramáticas, de composição cinematográfica, acompanharam a menorização do policial como género literário que, com a honrosa exceção da «Os Melhores Romances Policiais» da Clássica Editora, foi uma constante desde os longínquos fascículos de Sherlock Holmes, de 1909.

SAVIL—GREGOR MÃO DE FERRO

SAVIL—O PENITENCIÁRIO 1022

SAVIL—OS FORÇADOS DA ILHA SEM NOME

SAVIL—SAVIL CONTRA SAVIL

SAVIL—UM CRIME NAS RUAS DE NOVA IORQUE

SAVIL—UM HOMEM SEM PERNAS

Fontes
Crime e Castigo, Jorge Silva, Arranha céus, 2019

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O Sol brilhará para todos nós! (4)

1.º de maio 78 constituição

Na campanha de 1978 para as eleições legislativas, as últimas a que se candidatou isolado, o PCP tinha já perdido, nas reviravoltas do PREC, o furor internacionalista a amarelo e vermelho em grafismos que, entretanto, se tinham tornado imagem de marca dos aguerridos concorrentes (e inimigos) do PCTP-MRPP. Era tempo então, para um suave e abrangente nacionalismo a verde e vermelho da bandeira portuguesa que caraterizou, por algum tempo, muita da comunicação visual do PCP. Por entre os milhares de ilustrações e grafismos anónimos que alimentavam a frenética criação do autocolante de propaganda, do apelo ao voto no partido até às reivindicações das organizações sindicais que lhe eram próximas, destacam-se facilmente algumas séries, de rara perfeição visual, com os seus altos contrastes de raiz fotográfica mas desenhados com plasticidade, e grafismo erudito baseado em fontes lineares como a Akzidenz e a Helvética. Se a ausência de assinatura quadrava bem com as exíguas dimensões do objeto e com a crença num coletivismo sem heróis, foi relativamente fácil chegar ao criador destes exemplares autocolantes. 

Artista plástico com obra de pintura, gravura, serigrafia, cenografia, escultura e fotografia, haveria de consumir cinco décadas da sua vida na Fábrica de Sant’Ana, desde o ano de 1936, desenhando maquetas para projetos de azulejaria, concebendo moldes para escultura em barro, em alto ou baixo relevo, pintando painéis e garantindo também a direção dos artistas e artesãos da Sant’Ana. Sempre desvalorizou o seu trabalho de ceramista e pintor de azulejos, e queixava-se de que a rotina da fábrica destruía toda a capacidade inventiva e imaginação. Dizia que «pintar é um acto de felicidade» e montou ateliê na Avenida da Liberdade, onde se tornou um pintor de domingos. Apesar da sua vasta obra na Fábrica de Sant’Ana, o artista e militante comunista mostrava-se frequentemente frustrado, sobretudo pelas encomendas de gosto académico e revivalista adotado pelo SNI ou por arquitetos e decoradores que praticavam a arquitetura da Casa Portuguesa ou o oficial «Português Suave».

Graças à memória de alguns companheiros da militância política dos anos setenta, sabemos que Rogério Amaral (Lisboa 1917-Costa da Caparica 1996) foi o criador destes preciosos autocolantes.

1.º de maio 78 nacionalizações

1.º de maio 78 reforma agrária

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portimão

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Fontes
Elementos para a História da Fábrica de Faiança e Azulejos Sant’ Anna, desde 1741, Gonçalo Couceiro, 2015

O Almanaque agradece a colaboração de José Araújo, Leonardo De Sá, Manuel Quadros Costa e Teresa Dias Coelho.

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O alpinista ilustrado

ARCINDO PORTUGAL 1

Como turistas de sofá que somos agora, viajemos em segurança por estas paisagens deslumbrantes, dos inselberg da portuguesíssima Monsanto aos 3.454 metros de altura do Jungfrau, na Suíça, pelos olhos de um verdadeiro globetrotter do pincel e pioneiro dos nossos contemporâneos urban sketchers. Arcindo Madeira (Coimbra, 1915-Brasil, 2002), foi uma glória das revistas infanto-juvenis dos anos trinta, sobretudo n’O Papagaio, onde refinou o seu grafismo desenhado, tornando-o inconfundível. Emigrado no Brasil desde 1941, onde continuou a trabalhar profusamente em revistas e jornais, Arcindo veio à Europa no Verão de 1958, deixando no jornal O Primeiro de Janeiro desenhos das suas viagens pelo país e pela Europa. Voltaria a Portugal dois anos depois e daqui iniciou nova e longa excursão. As duas séries de crónicas gráficas percorrem vários países do continente nas páginas do diário portuense, a partir de 16 de setembro de 1958, publicadas com o título comum de «Canhenho Dum Artista» e não são mais que o resultado da observação direta nas suas curtas estadias em paisagens de montanha,  sempre em contraponto com as arquiteturas, trajes e costumes das populações autótones. Longe da exuberância da sua produção gráfica para crianças, Arcindo compõe mosaicos de ilustração descritiva, com a mão de profissional batido, confirmada no realismo estilizado, disfarçado de apontamento rápido, e nas múltiplas combinações de escala e composição que nos oferece em cada pedaço deste diário gráfico.

A preferência andarilha de Arcindo por países e localidades com altitudes elevadas, explica-se pelo seu hobby preferido, o alpinismo, de que foi instrutor e praticante durante décadas.

ARCINDO PORTUGAL 3

ARCINDO SUIÇA 6

ARCINDO SUIÇA 10

ARCINDO SUIÇA 11

ARCINDO SUIÇA W

ARCINDO SUIÇA X

ARCINDO SUÉCIA 43

ARCINDO FINLÂNDIA 44

Fontes: Dicionário dos Autores de Banda Desenhada e Cartoon em Portugal, Leonardo de Sá e António Dias de Deus, Edições Época de Ouro, 1999

A tesoura descuidada que cortou os formatos irregulares das imagens não é capricho do Almanaque, mas de um anónimo colecionador que criou um pequeno dossiê de recortes, dedicado ao «Canhenho Dum Artista», encontrado numa feira de alfarrabistas. 

 

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O Sol brilhará para todos nós (3)

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O Almanaque, em rigoroso confinamento algures nas Terras de Idanha, associa-se às comemorações domésticas do 25 de Abril, revelando mais um pedaço da riquíssima coleção de autocolantes de Vânia Sampaio que agora pertence à Biblioteca Silva. Dado o contexto desta coleção, já contado em post anterior, as três coleções situam-se na esfera política do Partido Comunista Português.

A primeira série, de oito autocolantes, constitui uma sequência desenhada dos acontecimentos, antes, durante e após o 25 de Abril, numa narrativa simples e doutrinária. Editada pelo Centro de Trabalho do PCP de Ramalde, freguesia do concelho do Porto, era uma declinação de um caderno publicado em abril de 1975 pelas Edições Avante, com texto e ilustração de Ernesto Neves. O registo de Ernesto, aparentemente naif, apresenta uma excelente qualidade de composição. O verde cadavérico para opressores e o laranja saudável para oprimidos e libertadores dão o tom á caraterização cartunesca das personagens e tipos sociais.

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A segunda série não tem autoria mas, tal como a seguinte, festeja o terceiro aniversário do 25 de Abril, em 1977. A ausência de traço nas ilustrações, a síntese gráfica das figuras, e as cores planas em impressão direta, evidenciam uma erudição gráfica de parâmetros bastante contemporâneos.

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A terceira série é assinada pela célula de Campo de Ourique do Movimento Democrático de Mulheres (MDM), organização nascida na sequência das Comissões Eleitorais de Mulheres, criadas em 1968 no seio do Movimento de Oposição à ditadura, para as eleições de deputados à Assembleia Nacional. O registo oscila entre o cartune e a bd, ilustrando causas que foram (e algumas ainda são) parte importante da militância política das esquerdas.

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O Sol brilhará para todos nós! (2)

batalha da produção

Vânia colecionava autocolantes. E marcadores de livros, porta-chaves, pins, caixas de fósforos e bilhetes de elétrico com capicuas. E ainda selos, bonecos de gelados, brindes de bolo-rei, botões, leques, etiquetas de fruta, postais, chávenas e copos, medalhas e miniaturas. Mas o colecionismo não era o seu único hobby. A cerâmica era outro, manifestação de uma carreira artística frustrada pela família, que não a deixara cursar as Belas Artes. Acabaria por se licenciar em Farmácia e trabalhou como analista quase toda a vida no hospital Pulido Valente. Pertenceu ao MUD Juvenil e foi militante do Partido Comunista Português. Vânia nasceu em 1929, em Seia e o seu exótico nome, à época, deveu-se à paixão que a mãe tinha pelos livros de autores clássicos, como O Tio Vânia, peça teatral do escritor russo Tchékhov. Vânia faleceu em Lisboa em 2007. A sua coleção de autocolantes, cerca de 4.500 exemplares, relacionada com o universo ideológico e partidário do PCP nos anos do PREC, pertence agora à Biblioteca Silva. A difusão pública deste acervo, de que a série de posts «O Sol brilhará para todos nós!» dá o primeiro passo, é um merecido tributo à memória da colecionadora Vânia Amália Sampaio.

A quantidade incomensurável de propaganda política e a sua espantosa pulverização geográfica e ideológica, após o 25 de Abril, foram uma janela de oportunidade para milhares de artistas amadores que traçaram com entusiasmo palavras e imagens em pequenos retângulos de papel autocolante, rapidamente impressos em gráficas amigas, repartidos por células e comitês, oferecidos ou vendidos com convicta militância pelos camaradas, em escolas, empresas e ruas. Ajeitando a mão pelos cartunistas da moda ou copiando os camponeses e operários heróicos do realismo socialista soviético, ilustres desconhecidos, sem escola nem estilo, faziam gato-sapato das leis da perspetiva, da anatomia do corpo humano, ou das mais elementares regras de composição tipográfica, numa inocência desenhada que foi o espelho exato da inocência de fazer política nos tempos do PREC.

DAMAIA

MOMPOR

SEIXAL

SAAL TAVIRA

TIMEX

SEIXAL RA

V N GAIA

viva o povo trabalhador

TUDOR

cedofeita

MÓVEIS BAÍA

17 TMG

ALENQUER

FUNDOS EM LOURES

UJC

 

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Romance

ROMANCE 18

«Os Caminhos da Felicidade», Romance n.º 18, 3 de maio de 1958, Aguiar & Dias Lda., Carlos Alberto Santos

«Ela sofria tanto de ser pobre que só nutria uma ambição: desposar alguém que a arrancasse ao meio onde vivia. Mas não é fácil renegar os seus.»

Inserto no conto «Juventude  do Coração» no número 6 da revista Romance — Contos e Novelas, este lead é uma justa síntese das toneladas de novelas e romances que replicaram, ao longo de décadas, a história universal da Gata Borralheira. Tal abundância tinha os seus cultores nacionais, mas era importada sobretudo de Espanha e Itália, abastecendo uma miríade de publicações nacionais que apostava na produção barata mas, ainda assim, atraente ao olhar do público feminino. A Romance, datada de 1958, seria uma curiosa antecessora de um género que atingiria o apogeu, já nos anos sessenta, a inolvidável fotonovela. Com 32 páginas e um formato generoso a rondar o A4, a Romance foi um fenómeno editorial fugaz, conhecendo o Almanaque 23 números, com publicação semanal ao sábado. 

(Quanto à rapariga da história, acabou por ficar com o rapaz pobre e de bom coração, renegando o fidalgote rico e má rês por quem se embeiçara no início do conto.)

ANÚNCIO 2

O que significava, para o editor da Romance, ser um «desenhador hábil» argumento suficientemente relevante para constar de vários anúncios insertos na revista? provavelmente um artista capaz de representar uma cena passional com qualidade narrativa e uma anatomia exemplar, um ilustrador, portanto, capaz de ombrear com um Emilio Freixas, ilustrador espanhol especialista da literatura cor de rosa da época. O género teve entre nós um cultor de grande gabarito, visita regular deste Almanaque: o «hábil» Carlos Alberto Santos (Lisboa, 1933-Lisboa, 2016), uma verdadeira máquina de ilustrar que alimentou a prolífica editora Agência Portuguesa de Revistas durante duas décadas, em todos os temas possíveis da literatura popular, da guerra ao faroeste, do soft porno ao histórico, do policial à espionagem. Pela Romance pontuaram outros talentos, sem biografia reconhecível, como um Gayo, na capa do número 17. As ilustrações do miolo da revista, impressas a preto em sofrível papel, foram, na quase totalidade, criadas por Carlos Alberto Santos, que repartia as capas da Romance com outros dois portugueses, José Manuel Soares (São Teotónio, 1932-Costa da Caparica, 2017) e José Antunes (Lisboa, 1937-Lisboa, 2010), artistas gráficos talhados na ilustração narrativa, afeiçoada à banda desenhada e às encomendas da indústria publicitária. O realismo desenhado exige, no entanto, mão disciplinada e uma visão cinematográfica, que só tiveram realização plena com Carlos Alberto. Comparem-se as capas dos números sete e nove para aferir o virtuosismo deste e as tropelias anatómicas de José Antunes. Após a euforia modernista das décadas de 20 e 30, o verismo pictórico voltava a ser peça fundamental para conferir à literatura do coração os standards de beleza, masculina e feminina, que as concorrentes fitas de Hollywood praticavam nos cinemas de Lisboa e Porto.

ROMANCE 2

«Cartas antigas», Romance n.º 2, 11 de janeiro de 1958, Aguiar & Dias Lda., José Antunes

ROMANCE 4

«O amor era mais forte», Romance n.º 4, 25 de janeiro de 1958, Aguiar & Dias Lda., José Antunes

ROMANCE 6

«O pássaro de fogo», Romance n.º 6, 8 de fevereiro de 1958, Aguiar & Dias Lda., José Manuel Soares

ROMANCE 7

«O elefante de jade», Romance n.º 7, 15 de fevereiro de 1958, Aguiar & Dias Lda., Carlos Alberto Santos

ROMANCE 9

«Amar é fácil», Romance n.º 9, 1 de março de 1958, Aguiar & Dias Lda., José Antunes

ROMANCE 12

«Não passou dum sonho…», Romance n.º 12, 22 de março de 1958, Aguiar & Dias Lda., José Antunes

ROMANCE 15

«Um beijo dado a Ângela», Romance n.º 15, 12 de abril de 1958, Aguiar & Dias Lda., Gayo

ROMANCE 17

«Um homem pacífico», Romance n.º 17, 26 de abril de 1958, Aguiar & Dias Lda., Carlos Alberto Santos

ROMANCE 20

«A filha do professor», Romance n.º 20, 17 de maio de 1958, Aguiar & Dias Lda.

ROMANCE 23

«Milagre de amor», Romance n.º 23, 7 de junho de 1958, Aguiar & Dias Lda.

 

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O Sol brilhará para todos nós! (1)

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O Almanaque volta  ao convívio dos leitores com uma desusada produtividade, fazendo também seu o otimismo necessário à quarentena covídica. Este post será o primeiro de uma série, tão resiliente quanto a pandemia, que nos transporta para outra era de incorrigível esperança no futuro, os anos de brasa do PREC. Às voltas com um antiquado meio de propaganda que fazia prova de fé em ardorosos ideais e fanáticas tribos políticas, além de angariar fundos para a causa, a série estreia-se com oito autocolantes da célula do bairro lisboeta de Campo de Ourique do Movimento Democrático Português/Comissão Democrática Eleitoral (MDP-CDE) organização política que já vinha do tempo da Oposição Democrática à ditadura do Estado Novo. Fundado em 1969 para concorrer às eleições legislativas, constitui-se como partido político após o 25 de Abril e, durante uma década, gravita à volta do Partido Comunista. Dissidente do PCP em 1987, dará lugar, sete anos depois, ao movimento Política XXI, corrente fundadora do Bloco de Esquerda.

Séries extensas como esta são raras e tinham obviamente intenção colecionadora. Os oito quadros, com uma cercadura que parece evocar o ecrã da televisão, cumpriam a vulgata ideológica da esquerda comunista e refletem já uma atitude de resistência perante a iminente derrocada dos ideais da Revolução de Abril, que justifica também o início e fecho da série com as catárticas palavras de ordem “Fascismo Nunca Mais!” A intenção pedagógica e o registo cartunesco usam e abusam da iconografia “oficial” na caraterização das personagens, abrindo as hostilidades com um capitalista de charuto e cartola. O design revela mão competente e três cores diretas sabiamente aplicadas e, como era uso e costume neste meio de propaganda, o seu caráter urgente e utilitário dispensava ninharias como a assinatura do autor da obra (mal vista pelo preponderante coletivismo) e a data de realização. O último autocolante da série permite, ainda assim, uma sugestão temporal, já que as convulsões e golpes nos media referidos no desenho, como o jornal República, tiveram cronologia certa. A série será, portanto, posterior a maio de 1975. Apesar da iconografia ingénua, que hoje é pura arqueologia, o grafismo manual e o humor de traço rápido envelheceram bem, escapando à estética do realismo socialista, aos altos contrastes fotográficos e às tipografias decalcáveis, que deram o tom a muita da produção autocolante da época.

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Literatura Cor-de-Rosa

ema e cristina

Contos eróticos em pequenos fascículos, as coleções Côr de Rosa, com 14 volumes, e a Caprichosa, que se ficou pelo número um, alimentaram os sonhos e as manias dos cavalheiros da primeira metade da década de trinta do século passado. Os enredos passavam-se entre a burguesia citadina, alta e média e, como é costume, desfiavam as peripécias de sportsmen ociosos e mulheres insaciáveis que facilmente faziam gato-sapato dos impenitentes conquistadores. Os livrinhos eram acompanhados por cintas publicitárias que excitavam o apetite do leitor e sublinhavam a licenciosa vida das personagens  malgrado o volume VIII, As Três Negas  de Anselmo Xavier, trazer uma desencorajadora cinta titulada «Efeitos desastrosos duma enterocolite». Design e ilustração rondaram o Modernismo, essencialmente  pela mão do ilustrador Ilberino dos Santos, mais nítido nos dois últimos volumes da Côr de Rosa e no único da Caprichosa, assumidamente sequente da primeira coleção. A carnalidade suave das capas, com um dos seios desnudado era, ainda assim, versão envergonhada das exuberantes Marianas da primeira República cuja nudez, a coberto do patriotismo, era bem mais explícita. Os volumes tinham, como era normal na edição fascicular, capas polícromas e miolo em austero preto, onde quatro ilustrações intercalavam o texto. Vários ilustradores acompanharam Ilberino na ilustração de sete destas modestas novelas. Pinto de Magalhães ilustra cinco volumes, Calderón Diniz, dois, e um enigmático Ribeiro fecha a contagem, com um. O número um d’A Caprichosa anunciava uma feliz continuação, a sair no dia 30 de janeiro (de 1932) que nunca saíu: A Mulher Que Procurava a Volúpia nunca a encontrou.

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Colecção Côr de Rosa n.º 1, Pinto de Magalhães

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Colecção Côr de Rosa n.º 2, Pinto de Magalhães

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Colecção Côr de Rosa n.º 3, Pinto de Magalhães

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Colecção Côr de Rosa n.º 4, Pinto de Magalhães

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Colecção Côr de Rosa n.º 5, Pinto de Magalhães

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Naquela Noite de Entrudo, Pinto de Magalhães

 

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Colecção Côr de Rosa n.º 6, Ilberino dos Santos

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Colecção Côr de Rosa n.º 7, Ilberino dos Santos

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Colecção Côr de Rosa n.º 8, Ilberino dos Santos

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Colecção Côr de Rosa n.º 9, Ilberino dos Santos

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Colecção Côr de Rosa n.º 10, Calderón Diniz

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Colecção Côr de Rosa n.º 11, Calderón Diniz

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Colecção Côr de Rosa n.º 12, Ribeiro

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Colecção Côr de Rosa n.º 13, Ilberino dos Santos

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Colecção Côr de Rosa n.º 14, Ilberino dos Santos

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Colecção A Caprichosa n.º 1, Ilberino dos Santos

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Como Elas Caem…, coleção «A Caprichosa», n.º 1

 

 

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Os números de sempre

1931 CRIANÇAS

Velai pelas crianças, 1931

«Na capital do Norte, mais de 30 por cento das crianças, no primeiro ano da sua existência, vão para o cemitério». Em 1931, o Almanaque d’O Século denunciava, no artigo «Velai pelas crianças», a elevada mortalidade infantil das principais cidades portuguesas. Criado em 1897, o Almanaque Ilustrado do Jornal o Século cumpria a miscelânea sacramental dos almanachs da época: cultura geral, informação útil, anedotas e passatempos. Mas o almanaque d’O Século acrescentava também a matriz jornalística da casa e publica, a partir dos anos finais da Monarquia, peças de estatística com indicadores que hoje se enquadrariam no Índice de Desenvolvimento Humano, bitola para avaliar o grau de barbárie e civilização das nações. Em comparação regional ou internacional, sobretudo com outros países da Europa, os indicadores publicados no almanaque d’O Século, apimentados ainda pelo curso assustador da Primeira Grande Guerra, tinham óbvia intenção pedagógica e inseriam-se no programa reformador das elites republicanas que dominavam a vida intelectual portuguesa desde a monarquia constitucional. A crescente asfixia da comunicação social pelo Estado Novo, a partir dos anos 30 ditou, provavelmente, a extinção destas peças jornalísticas, cujas conclusões não bateriam certo com a propaganda do regime.

A ilustração assume um papel relevante nestas peças editoriais. Anónimas durante as primeiras edições, as infografias serão assinadas, a partir de 1916, por Rocha Vieira (Angra do Heroísmo, 1883-Lisboa, 1947), que será colaborador das publicações da empresa d’O Século durante quarenta anos. Rocha Vieira teve uma prolífica carreira na ilustração, cartune e banda desenhada, e a seu crédito a criação da primeira tira diária de jornal, em 1920, da primeira banda desenhada realista de continuação («Aventuras Extraordinárias de Jorginho» no ABC-zinho em 1921), e da primeira prancha dominical de jornal, em 1922. Enquanto o sociólogo austríaco Otto Neurath desenvolvia o sistema ISOTYPE (International System of  Typografic Picture Education), a partir de meados da década de 20, matriz dos pictogramas que ainda hoje conhecemos da infografia e da sinalética, Rocha Vieira entretinha os leitores na figuração académica e descritiva, baseada muitas vezes na iconografia típica do desenho de humor. O resultado artesanal das páginas do almanaque d’O Século tem hoje o seu encanto, mas andava longe dos modernistas contemporâneos, como  Jorge Barradas, Bernardo Marques ou Roberto Nobre. Este último executa uma rara infografia, em 1930, para o mesmo almanaque, onde aplica a sua gramática, ainda assim bem longe das pesquisas abstratizantes de Gerd Arntz, artista plástico alemão, convidado a criar as representações figurativas do ISOTYPE, sob a orientação de Otto Neurath.

O deleite, masoquista, por estas pioneiras infografias preserva ainda hoje o seu cariz pedagógico: compreendemos facilmente a razão dos ainda lamentáveis indicadores contemporâneos que atrapalham a economia e a cultura portuguesas.

1930 CUSTO DE VIDA E SALÁRIO

Custo da vida e o salário, 1930

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infografia Almanaque do Século 1919 Rocha Vieira

O analfabetismo nos exércitos, 1919

infografia Almanaque do Século 1916 Rocha VieiraO analfabetismo, 1916

infografia Almanaque do Século 1919 Rocha Vieira

População do Mundo, 1919

1930 BIBLIOTECAS

Há mais livros que leitores, 1930

infografia Almanaque do Século 1921 Rocha Vieira

infografia Almanaque do Século 1921 Rocha Vieira

Tonelagens da Primeira Grande Guerra, 1921

1930 polícias

Os que nos guardam a nós, 1930

1931 exodo

O êxodo dos trabalhadores, 1931

1930 TEATROUm ano de Teatro em Portugal, 1930, ilustração de Roberto Nobre

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As ilustrações foram restauradas digitalmente

Fontes
Dicionário dos Autores de Banda Desenhada e Cartoon em Portugal, Leonardo de Sá e António Dias de Deus, Edições Época de Ouro, 1999

http://www.gerdarntz.org

Agradecimento a Luís Taklim

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Tóssan, o Magnífico Reitor

medicina veterinária 1939

Livro de Curso, Medicina Veterinária, Coimbra, 1939

Naquele tempo um quilo de fiambre – que vinha dentro de uma lata – custava trinta escudos. Internado no Sanatório de Covões, Tóssan cansava-se facilmente da monótona comida do hospital. Quando os estudantes apareciam para ele os caricaturar, à razão de 30 escudos cada, um moço amigo dizia-lhe: «Tóssan, vêm aí 30 latas de fiambre!». À tradição dos Livros de Curso, inventada na longínqua Queima das Fitas de 1903, aplica-se Tóssan, apurando os narizes dos estudantes das academias de Coimbra e Lisboa a partir de 1938 e, em 1944, tira olhos e acrescenta ângulos agudos nos quartanistas do Curso de Medicina, replicando o acerto dos caricaturistas modernos da década anterior, como Teixeira Cabral. António Fernando dos Santos, Tóssan (Vila Real de Santo António, 1918 – Lisboa, 1991) brilha facilmente nos Livros de Curso onde colabora, praticamente nunca se cruzando com outros habitués profissionais, como Baltazar ou José Vilhena. Centenas de caricaturas traçadas ao longo de duas décadas vão academizando o seu traço, refém das inúmeras cumplicidades que vai tecendo na cidade, bem à vista nos amáveis perfis para as quartanistas de Letras de Coimbra de 1953, suas colegas no TEUC.

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Livro de Curso, Ciências, Coimbra, 1944

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Livro de Curso, Medicina, Coimbra, 1944

zimbro315 ok

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Livro de Curso, Letras, Coimbra, 1953

 

quartanista direito

Livro de Curso, Direito, Coimbra, 1952

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Depois das andanças iniciais pelo Teatro Lethes de Faro, o apego de Tóssan ao palco frutificou em Coimbra, ocupando de 1947 a 1966 as funções de cenógrafo e caracterizador  do TEUC, Teatro dos Estudantes da Universidade de Coimbra. O percurso escolar de Tóssan tinha-se finado pelo Liceu de Faro. A sua fixação em Coimbra abre-lhe as portas da Academia mas sempre longe das salas de aula. Os tempos de boémia estudantil, onde o não-estudante Tóssan encaixava perfeitamente, podem ser recordados no livro O Teatro dos Estudantes de Coimbra no Brasil,uma extensa tournée do TEUC em que as peripécias começaram logo na viagem a bordo do paquete Serpa Pinto, ou na memória (traiçoeira, é certo, trocando uma parede pelo teto), de Augusto Camacho, cantador de fados e serenatas, futuro doutor em medicina desportiva, a propósito da pintura Ceia dos Loucos na República Palácio da Loucura: «Desembrulhados das nossas capas e de copo na mão, parámos à porta da sala de jantar e ali ficámos de olhos abertos, quase não acreditando no que víamos: o Tóssan, empoleirado lá no alto, em cima de um tabuleiro feito de cadeiras, tábuas e caixotes, qual Miguel Ângelo inspirado na sua Capela Sistina, pintava com desaforo e sem preconceitos, o tecto dessa dependência, ou seja, o Ministério dos Bons Usos e Costumes – a Sala de Jantar –. E vejam lá, de pincel na mão saltavam pinceladas a encarnado, amarelo, preto, lilás e azul, salpicando o teto de ideias sublimes traduzidas numa Ceia de Loucos, ou não fosse a república o Palácio da Loucura. E assim ia desenhando, pintando a todo o comprimento e largura as figuras das empregadas que voavam com as travessas enormes em equilíbrio milagroso donde esvoaçavam frangos depenados e de bico aberto e das quais ia caindo o spaghetti feito de massas, desenhando cifrões.»

vitral TEUC

Auto da Barca do Inferno, cartaz, TEUC, 1951

teuc no brasil

O Teatro dos Estudantes de Coimbra no Brasil, Santos Simões, TEUC, 1952

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Ceia dos Loucos, República Palácio da Loucura, Coimbra, 1952

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Pela sua espantosa vitalidade e exuberância, Tóssan tornou-se uma referência lendária na cidade, cúmplice também das tertúlias dos movimentos literários que frutificavam à volta da Universidade, como o Neo-Realismo, ou no emocionante convívio com os escritores estrangeiros que aportavam a Coimbra, como os brasileiros Agrippino Grieco e José Lins do Rego. A meia dúzia de traços capaz de imortalizar um rosto, seria uma das suas marcas, visível também em posteriores retratos de escritores portugueses, como José Régio, ou em amigos e mestres, como o carismático criador do TEUC Paulo Quintela. O mais célebre de todos retrata seu amigo António Aleixo, traçado logo em 1943, que terá coincidido com a estadia de ambos no Sanatório de Covões e onde também encontrou Manuela, enfermeira e sobrinha do diretor do hospital, companheira e cúmplice de toda a sua vida futura.

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Agrippino Grieco, folheto, 1952

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José Lins do Rego, folheto, 1951

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Paulo Quintela, marcador sobre papel, 1986

josé régio

José Régio, marcador e grafite sobre papel, sem data

antónio aleixo 29x22,5 gr

António Aleixo, grafite sobre papel, 1943

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Tóssan, Manuela e António Aleixo no Sanatório de Covões, sem data

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Fontes
Tóssan, Festa da Ilustração, Setúbal 2018 / Casa do Design Matosinhos, 2018

Agradecimentos
Fundação António Aleixo (retrato do poeta)
José Pereira Gens
Miguel Gouveia (fotografia d’A Ceia dos Loucos)
Norberto Correia (Livro de Curso Medicina Veterinária 1939)
Rui Sena

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