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histórias da ilustração portuguesa

Doces decapitações

Mulheres malvadas, sem pinga de instinto maternal, decapitam inocentes enteadas, presença insuportável da ‘outra’, e enterram os seus corpos no quintal. Mentem, envenenam e esquartejam sem escrúpulos, senhoras de um lar estranho que querem seu, e de um chefe de família estúpido que se redime apenas nas últimas linhas da história. Castigo divino dos tempos da família nuclear una, indivísivel e temente a Deus, as madrastas são um estereótipo das histórias infantis adaptadas vezes sem conto de tradições e fabulários cruéis perdidos no tempo. Floresceram nos anos quarenta do século passado em livros e fascículos que contornavam habilmente a representação gráfica da violência. Num curioso livro de 1946, Contos Populares, homenagem a Maria Clementina Pires de Lima Tavares de Sousa, falecida prematuramente, imprimiram-se alguns contos que a finada, folclorista de notável precocidade, tinha recolhido de fonte popular. Estes contos, em que as madrastas ocupam papel destacado, são ilustrados por Laura Costa (Vitória, Porto, 1910-Porto, 1992), uma das mais prolíficas ilustradoras de livros para crianças e de costumes tradicionais portugueses da década de quarenta.

Laura não retrata a fealdade dos vilões das histórias infantis. A mais cruel megera e o mais horrendo gnomo parecem tios feiotes mas simpáticos, criaturas apuradas por um paradoxal arianismo louro e azul que casava bem com o grotesco onirismo das fábulas. Laura evita a representação das odiosas cenas de sangue, fixando geralmente as personagens em trânsito ou em poses narcisistas que dispensam cenário, em trajos sumptuosos que naturalmente beneficiam do seu virtuoso traço. Se a ilustração, em geral, permite maltratar esteticamente a figuração masculina, temos em Laura Costa a excepção. Garbosos príncipes, rudes lenhadores e bondosos reis partilham o mesmo traço adocicado, efeminados até. O pouco que sabemos de Laura está em contradição aparente com a sua delicodoce obra. Senhora de refinada cultura, sem confissão religiosa, foi a primeira aluna das Belas Artes do Porto a participar voluntariamente nas aulas de desenho do nu masculino, quando na altura eram facultativas para o sexo feminino. Amava sobrinhos e primos como filhos, presenteando-os no Natal ou em aniversários com bonecas integralmente criadas e vestidas por si.

Laura Costa tem afinidades gráficas com a ilustradora Raquel Roque Gameiro, pelo primado do desenho, de traço constante e linear, pela ausência de profundidade e modelação de volumes. Mas o minimalismo nos enquadramentos e na paleta fisionómica afastam-na da ousadia cinematográfica da obra de Raquel. Centenas de ilustrações recheiam várias coleções da Editorial Infantil Majora, baseadas em adaptações de contos populares, como a Varinha Mágica, compilada por Fernando de Castro Pires de Lima, e a Série Prata e a Colecção Princesinha, organizadas por Maria Vitória Garcia Ferreira. E há mais contos infantis na Colecção Pinóquio, de 1946, compilada por Henrique Marques Júnior para a Livraria Latina Editora. Apreciamos hoje com algum cinismo a subtil sensualidade daqueles olhos semicerrados e orgulhosamente incomunicáveis com o leitor. A sua candura esconde segredos e crimes inconfessáveis que a literatura para crianças contemporânea já não pode tolerar.

Sweet decapitations

Wicked women without the slightest maternal instinct chop off the heads of their innocent stepchildren, the unbearable ‘other’, and bury the bodies in the garden. They are ruthless and lie, poison and kill. They are the ladies of strange homes they intend to make their own and wives of stupid heads of family who redeem themselves only in the last few lines of the story. Divine punishment in the days of unified, indivisible and God-fearing nuclear families, they are stepmothers, stereotypes in children’s stories in countless adaptations of cruel customs and fables lost in time.

They flourished in the 1940s in books and weekly instalments that skilfully avoided graphic depictions of violence. Contos Populares [Folk Tales], a curious book that came out in 1946 in tribute to Maria Clementina Tavares de Sousa after her premature death, was a collection of tales that this remarkably talented folklorist had found in popular culture. These tales, in which stepmothers play an important role, are illustrated by Laura Costa (Vitória, Porto, 1910-Porto, 1992), one of the most prolific illustrators of children’s books and Portuguese traditional customs in the 1940s. Laura doesn’t portray villains in children’s stories as hideous creatures. The cruellest of shrewish women and the most horrific gnomes look like ugly but nice uncles and aunts, stylised paradoxically in Arian blonde and blue that match the grotesque dreamlike quality of the tales. Laura avoids depicting horrifying bloody scenes and generally focuses on characters that are transient, or then in narcissistic poses that dispense with scenery and in sumptuous costumes that naturally benefit from her gifted draughtsmanship. If illustration generally allows men to be ill-served aesthetically, then Laura Costa is an exception. Elegant princes, rough woodcutters and kind-hearted kings are all given the same gentle, even effeminate, treatment. The little we know about Laura contrasts starkly with her delicately sweet work. A highly-cultured women with no apparent religious affiliation, she was the first female student at the Porto Fine Arts School to choose to attend male nude drawing classes when they were optional for women. She loved her cousins, nephews and nieces as her own children, and gave them at Christmas or birthdays dolls that she herself made and dressed. 

Laura Costa’s work resembles that of Raquel Roque Gameiro in the excellence of her drawing, her constant linear line drawing, lack of depth and modelling of volume. But her minimalist framing and her colouring for faces differ from Raquel’s daring cinematographic imagery. Hundreds of illustrations fill several Editorial Infantil Majora collections based on adaptations of folk tales. Today we enjoy somewhat cynically the subtle sensuality of those half-closed eyelids that proudly communicate nothing to the reader. Their candour hides unmentionable secrets and crimes no longer acceptable in current children’s literature. 


Os dois enteados e a madrasta, livro Contos Populares, Livraria Figueirinhas, 1946

A Gata Borralheira, livro Contos Populares, Livraria Figueirinhas, 1946

O Tio Novelo, livro Contos Populares, Livraria Figueirinhas, 1946

Aventuras dum órfão, livro Colecção Varinha Mágica 27, Editorial Infantil Majora, s.d.

Maria do Carmo, Colecção Pinto Calçudo 14, Editorial Infantil Majora, s.d.

Pantagruel, Colecção Pinóquio 10, Livraria Latina Editora, 1946

História de dois cães, livro Os Três heroísmos, Colecção Pinóquio 9, Livraria Latina Editora, 1946

A desventura do Zeca, livro Os Três heroísmos, Colecção Pinóquio 9, Livraria Latina Editora, 1946

Primavera, revista Portucale, n.º 7-9, janeiro-junho 1947

As ilustrações foram restauradas digitalmente

O Almanaque Silva agradece as informações biográficas facultadas por João Caetano

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Pernas para que te quero!

A literatura para a infância dos anos quarenta do século passado distancia-se dos ideais republicanos de progresso e igualdade e passeia-se pelas fábulas moralistas, cruéis e iniciáticas dos Irmãos Grimm e afins, vigiada por um Estado Novo mais concentrado nos malabarismos da sua ambiguidade pró-germânica e pró-aliada durante a guerra, e o seu calculista alinhamento pelos vencedores após a derrota do Eixo. A Majora, editora especializada em livros e jogos para crianças, inundou o mercado com obras atraentes e acessíveis, baseados em rocambolescas aventuras de petizes aventureiros, anões pencudos e animais falantes, enésimas adaptações de contos e fábulas de um inesgotável catálogo universal. Protagonista desta avalanche, autor simultâneo de texto e ilustrações, Gabriel Ferrão divide com Laura Costa e César Abbott a produção artística da Majora durante a década. Nos livros de Ferrão, de 1948 a 1950, há uma curiosa repetição: heróis como o Malaquias, o Tio Sabe Tudo, o Zé Pacóvio, o Serigaito, a Joanico, o Serapião Tobias, o Chico Pinoca, o Papo-Seco, o Julião Pespirete, e outros nomes cómicos de sabor popular, palmilham léguas em demanda de tesouros escondidos e vinganças adiadas, em turismo de pé-descalço por bosques e vales, por caminhos e atalhos bordados a vedações de madeira e cogumelos alucinogénicos, em cenários de casario medieval.

Esta obsessão pela aventura andarilha, arrostando perigos desconhecidos, é um arquétipo das histórias infantis, evidência dos ritos de passagem ao estado adulto, onde os obstáculos constituem prova de superação e aperfeiçoamento físico e moral. Os nossos protagonistas escapam-se habitualmente de patrões e padrastos violentos, desbaratam pelo caminho mentirosos, intriguistas, avarentos e ladrões, e chegam ao fim da jornada ricos e sábios. Do ilustrador Gabriel Ferrão pouco se sabe. Artífice prolífico e incontornável da literatura para a infância nos anos quarenta e cinquenta, Ferrão pagou com o ostracismo de historiadores e pedagogos a figuração cómica e naif dos seus bonecos, imitação irregular dos desenhos animados dos estúdios americanos. Sem o virtuosismo gráfico de um Vasco Lopes de Mendonça nem a elegância de uma Laura Costa, a patusca ingenuidade de enredos e ilustrações, espalhada por muitas coleções da Majora, como a Coelhinho Branco, Salta Pocinhas, Sarapico-Mafarrico, Gato Preto, Pequenina e Pequeno Detective, tem, passados sessenta anos, um irresistível encanto. E um aspeto de surpreendente modernidade: a tipografia desenhada e integrada na ilustração das capas é um paradigma gráfico absolutamente contemporâneo.

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Index

Index de ilustradores em que a listagem da obra e bibliografia, embora tendencialmente exaustivas, não são raisonée. É um work in progress onde todas as contribuições são bem-vindas.

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