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histórias da ilustração portuguesa

Zoo-lógica

 

Tóssan carneiro

Chegou a declamar a sátira O Futebol no famoso programa de televisão ZIP-ZIP, em 1969. Dele disseram Raul Solnado e Mário Viegas que “poderia ter sido um homem do humor” e o maior ator cómico da segunda metade do século. Viegas, velho amigo, levou ao palco em 1992 textos seus inéditos, num espetáculo a que deu o nome de Tótó. Mas se a carreira de palco lhe passou ao lado (foi, ainda assim, cenógrafo e caraterizador no TEUC) António Fernando dos Santos, Tóssan (1918-1991) deixou no papel estimável obra humorística. Foi um notável ilustrador de animais, emparceirando no seu tempo com outros virtuosos animalistas como Zé Manel e o lendário Fernando Bento. Tinha notória predileção por alguma bicharada, a começar pelos cães, sobre os quais publicou o curioso Cão pêndio, em 1959, na editora Portugália, coletânea de trocadilhos fáceis e difíceis sobre a vida canina. Ou pelos elefantes e leões, habitués das duas dezenas de livros ilustrados para crianças que nos deixou. Em dois álbuns ilustrados, O Leão Heitor, da Editora Portugália de meados de 60, e O Leão Vegetariano, da Editora Atlântida, de 1975, Tóssan relata amáveis histórias onde o rei dos animais renega a sua natureza carniceira, ao sabor dos ventos pacifistas daqueles anos. Mas a comicidade atingiu o auge na Livros Horizonte, em 1978, com O Livrinho dos Macacos, do escritor Leonel Neves, com quem Tóssan teve prolífica parceria durante os anos de setenta e oitenta.

“Ao burro sobra em orelhas o que lhe falta em miolos. A meio da espinha tem a albarda e, ao fundo, uma cauda e um buraco por onde sai a burrice ou o borrão.” Assim iniciava Tóssan a primeira de vinte e tantas crónicas, de seu nome Lógica Zoológica, ilustradas e estampadas n’o bisnau, jornal semanário de humor, editado pelo grupo de O Jornal em 1983. Humorista por inteiro, Tóssan ridicularizava o Homo lusus à custa de criaturas de quatro patas e assestava uns valentes coices na politiquice da época. Os animais retratados são quase todos domésticos e a sua cumplicidade com o bicho-homem aguça a zombaria, espelho eterno da estupidez humana. O Zoo privativo de Tóssan n’o bisnau afastava-se da organicidade e corrosão do traço de Artur Henriques, Vasco, Serer ou Barradas, outros cartunistas residentes do jornal e caprichava no desenho a compasso e régua em geometrias e contorcionismos decorativos, muito a propósito das aliterações do floreado texto. Estes bizarros animais, que não custaria ver em generosas aplicações murais, são a apoteose da erudição formal que Tóssan requintou ao longo de três décadas, num sofisticado artesanato urbano com raiz nos intemporais motivos ornamentais da arte popular.

Tóssan burro

Tóssan coelho

Tóssan canguru

Tóssan cágado

Tóssan sapo

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Index de ilustradores em que a listagem da obra e bibliografia, embora tendencialmente exaustivas, não são raisonée. É um work in progress onde todas as contribuições são bem-vindas.

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