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histórias da ilustração portuguesa

O menino dança?

vaidosa

O Armindo e o Cruz e Souza tinham um caso. Amor jurado em música passada ao papel nas partituras que eletrizavam saraus de coletividades populares ou salões afrancesados da burguesia citadina. Armindo e Souza dançavam afinados o tango, a valsa, o charleston, o fox-trot ou um entusiástico (acreditamos) samba-fado-marcha. A música do maestro e pianista Souza seria tão diversa como os géneros musicais em moda naqueles primeiros anos da década de trinta, mas o lápis do ilustrador Armindo tinha o repertório mais curto, traçando a régua e tesoura pares românticos em pleno beijo apressando o desfecho dos preliminares dançantes, ou refinando no chiaroscuro passado à pedra litográfica. Da vida do Souza nem o omnisciente google sabe. Do Armindo nos ficam estes fresquíssimos altos contrastes cromáticos, a léguas do preciosismo de Jorge Barradas e Bernardo Marques, ou do humorismo de Botelho, mas bem perto da gramática sintética com que Piló nos brindaria, anos mais tarde, em postais ilustrados com costumes regionais. Armindo Teixeira Lopes (1905-1976) foi artista autodidata, decorou palacetes em Belo Horizonte, no Brasil e, regressado a Lisboa em 1948, foi bolseiro da Gulbenkian e expôs com frequência desenho e aguarela. Tem em Mirandela, terra natal, um museu com o seu nome.

Ah, do que sabemos, Armindo foi sempre fiel ao Souza. Não se lhe conhecem outras aventuras gráficas na música. Já o Souza tinha coração largo e algumas das suas marchas-canção andaram por outras mãos, como as do grande Stuart de Carvalhais.

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Fontes
«Contemporâneos de Stuart», Sofia Bicho, in O Fado Por Stuart de Carvalhais, EGEAC, 2005

«O senhor dos pincéis» [Gil Teixeira Lopes], Ana Pago, in Diário de Notícias, 10 fevereiro de 2014

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O regresso da “mulher da hortaliça”

Pelo final dos anos vinte há uma contrareforma na ilustração à volta da identidade nacional. Jorge Barradas, modernista elegante e feérico ilustrador das capas publicitárias do Bristol Club no magazine ABC, pode demonstrar a mudança destes tempos. Voltam os garridos trajes populares, a inocente vida da aldeia, sem os malefícios da cidade corruptora. A consolidação do Estado Novo não explicava tudo, era o regresso do naturalismo oitocentista que nunca tinha sido erradicado das artes visuais portuguesas. Mas a “mulher da hortaliça” já não era a mesma criatura rude das aguarelas de Alberto Souza. Rregressa como artista de cinema, elas umas Pola Negri esfíngicas, eles uns Valentinos de lábios pintados, tão fatais como elas. Os serões musicais das famílias burguesas passam a tocar e bailar viras e corridinhos da revista e filmes à portuguesa. Mesmo que enxertados em tangos e one-steps. Stuart de Carvalhaes (Vila Real, 1887-Lisboa, 1961) é o grande artífice destas esplendorosas capas de partituras musicais, desdobrando-se entre as editoras discográficas Sassetti e Valentim de Carvalho. A reabilitação chega mesmo ao fado, apagados os ardores do nacionalismo radical. A dolência fadista vai passar a fachada do suave fascismo português.

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Index

Index de ilustradores em que a listagem da obra e bibliografia, embora tendencialmente exaustivas, não são raisonée. É um work in progress onde todas as contribuições são bem-vindas.

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