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histórias da ilustração portuguesa

Deserto com vozes

Deserto com vozes, Urbano Tavares Rodrigues, Seara Nova, 1976

São paisagens estranhas, lunares, por vezes divididas por uma linha de horizonte. Para cima, céus vazios de ar, preenchidos com inquietantes monólitos suspensos. Para baixo, terra ressequida, contorcida em relevos aleatórios, escavada em depressões e túneis. Estas vozes no deserto, estes gritos mudos de revoltas adiadas são arte e ofício do artista plástico Henrique Ruivo (1935) e relacionam-se com as suas pesquisas gráficas, nomeadamente a sua Série Negra, pinturas e colagens de 1972 e 73. Ruivo usa variados media: tinta acrílica, de linóleo, líquido tira-nódoas, estampagem, frottage de rendas ou elementos vegetais.

Tomemos de perto o modus operandi da ilustração Deserto com vozes. Numa base de cartolina preta cromolux, uma máscara abre fundo para a representação da terra. Sobre um vidro tintado, plástico amachucado absorve a tinta ocre e é pressionado sobre a cartolina. Os dentes são pintados com tinta branca de linóleo. Outras máscaras recortam as nuvens, estampadas com uma esponja embebida em tinta vermelha. Estas paisagens, tão poéticas como literais e narrativas (em relação aos títulos das obras), são metáforas poderosas para as capas de livros de escritores portugueses contemporâneos, obras de assumido comprometimento político e social, algumas mesmo de feição neo-realista, publicadas no imediato pós-25 de Abril. E para a capa de um disco lp de Fernando Lopes Graça, ainda de 1973.

Um certo país ao sul, Casimiro de Brito, Seara Nova, 1975

De profundis, Faure da Rosa, Seara Nova

Três chamas na palma da mão, José Manuel Mendes, Seara Nova, 1976

Adágio, Faure da Rosa, Seara Nova, 1974

 

Sonata n.º 3/Sonata n.º 1/Três velhos fandangos portugueses, Fernando Lopes Graça, Sassetti, 1973

 


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