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histórias da ilustração portuguesa

Tóssan ao sábado

juv 00000b - 23.04.1957

Eusébio Maldonado, o mundialmente famoso detetive Pararraios, dava a cara, e o seu inseparável funil, para antecipar as suas estapafúrdias aventuras no Diário de Lisboa, numa sequência que se prolongou pela segunda quinzena de abril de 1957. O diário vespertino anunciava assim em campanha teaser um novo suplemento semanal, o Diário de Lisboa Juvenil, a sair ao sábado. Ao leme estavam os jornalistas Augusto Dias, Mário Castrim e o ilustrador Tóssan (António Fernando dos Santos, Vila Real de Santo António, 1918 – Lisboa, 1991). A colaboração deste foi intensa nos primeiros quatro anos do suplemento, com centenas de ilustrações desdobradas em múltiplos registos, acabando por contagiar o Magazine, miscelânea cultural vizinha do Juvenil.

Embora partilhasse a colaboração ilustrada com António Domingues, primeiro, e Figueiredo Sobral, nos anos finais, Tóssan imprimiu o seu cunho ao Juvenil, desenhando cabeçalhos de rubricas e ilustrações que recheavam as séries de continuação. Destacam-se desde logo as aventuras do Pararraios e do seu ajudante Basílio Sofito; as crónicas da escritora Maria Helena da Costa Dias, «Animais, esses desconhecidos», onde Tóssan anteciparia o seu incondicional amor à bicharada, reunidas em livro na década seguinte com álbum cartonado da editora Portugália. A oito anos dos seus primeiros livros para crianças, Tóssan ilustrava alguns dos poemas de Castrim, alegorias humanistas onde transparecia a dissidência política com o regime totalitário do Estado Novo, uma orientação geral do Diário de Lisboa.

A versatilidade gráfica de Tósssan não ficou imune à influência de grandes ilustradores do seu tempo, como José de Lemos, artista residente no rival Diário Popular, ou Maria Keil, no seu traço cinético. Sem o mesmo apuro gráfico de outros registos, Tóssan despachou algumas rubricas de longa duração, como «Os cavaleiros da Távola Redonda» numa aproximação à banda desenhada das revistas infanto-juvenis. Em ilustrações sortidas para as crónicas curtas «Apontamentos para os tempos futuros», de Diógenes e Manuel Agra, Tóssan alternava o picaresco que o celebrizou com o modernismo poético de Lemos ou mesmo o neorrealismo rude que praticara nos anos quarenta.

juvenil cabeçalho

juv 35 - 04.01.1958

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«O Grande Detective Pararraios  — O Fugitivo do Saturnia», Diário de Lisboa Juvenil, 19 de abril de 1958

juv 45 - 08.03.1958

«O Grande Detective Pararraios — Em busca das pérolas», Diário de Lisboa Juvenil,     8 de março de 1958

DL33

DL13

gente nossa + cruzadas

Disco da Semana, Gente Nossa, O Livro da Semana, Palavras Cruzadas, Diário de Lisboa Juvenil, 1957-1960

1959.05.16 mag 45 um espír de equi c poucos

«Um espírito de equipa como poucos», Diógenes, Diário de Lisboa Juvenil, 16 de maio de 1959

1959.05.30 mag 47 solidão Ai dão, Ai dão

«Solidão ai dão, ai dão», Diógenes, Diário de Lisboa Juvenil, 30 de maio de 1959

1959.06.06 mag x os sebastianistas

«Os sebastianistas», Diógenes, Diário de Lisboa Magazine6 de junho de 1959

1959.06.27 mag 51 os teddy-boys de cab bran

«Os teddy boys», Diógenes, Diário de Lisboa Juvenil, 27 de junho de 1959

1959.10.17 mag 66 a mul é ig ao hom?

«A mulher é igual ao homem?» Henri Crespi, Diário de Lisboa Juvenil, 17 de outubro de 1959

1960.01.02 mag 77 mud os t mud as vont

«Mudam-se os tempos mudam-se as vontades», Augusto da Costa Dias. Diário de Lisboa Juvenil, 2 de janeiro de 1960

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«Flash — O balão não rebenta», Manuel Agra, Diário de Lisboa Juvenil, 4 de abril de 1959

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DL27

«Caracol», Mário Castrim, Diário de Lisboa Juvenil, 22 de março de 1958

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«Haja respeito pelas crianças», Maria Helena da Costa Dias, Diário de Lisboa Juvenil, 9 de janeiro de 1960

1959.06.06 mag x flores de plástico

«Flores de plástico», Mário Castrim. Diário de Lisboa Magazine, 6 de junho de 1959

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«A ópera de Paris», Gilbert Cesbron, Diário de Lisboa Juvenil, 27 de agosto de 1960

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«Anúncio», Francisco José Fernandes, Diário de Lisboa Juvenil, 29 de novembro de 1958

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«Avó», Mário Castrim, Diário de Lisboa Juvenil, 20 de setembro de 1958

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«Flash — O barco chega», Manuel Agra, Diário de Lisboa Juvenil, 17 de janeiro de 1959

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«O alcoolismo não é um vício é uma doença»Diário de Lisboa Juvenil, 2 de julho de 1960

As ilustrações foram restauradas digitalmente.

Fonte do texto: Tóssan, Jorge Silva. Editora Arranha-Céus, 2018

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Leituras primárias

Primeiros passos b

O Almanaque vai à escola. Para aprender as primeiras letras num contraditório ramalhete de manuais, publicado pela Livraria Popular de Francisco Franco já em tempos da Ditadura de Maio mas lustrando os valores da Primeira República. À sequência feliz de títulos, que são também programa pedagógico: Primeiros Passos, Pouco a Pouco, Mais Adiante e Finalmente…, junta-se a inteligente narrativa sequencial das quatro capas, que nos levam a um happy end civilizacional, não faltando numa delas o dedo luso nas indispensáveis caravelas que «deram novos mundos ao mundo». Sem data expressa mas referenciados na Biblioteca Nacional pelo ano de 1932, o conjunto é uma formidável encomenda ilustrada por Alfredo Morais (1872-1971), um verdadeiro faz-tudo da época que só terá sido ultrapassado em quantidade pelo gigantesco Stuart de Carvalhais. Nas 260 ilustrações espalhadas pelos quatro livros, nascidos nas vésperas do Estado Novo (a 5.ª edição do livro da Terceira Classe Mais Adiante já traz enxertados panegíricos sobre o Marechal Carmona e Salazar), Morais aplica o seu exímio talento de naturalista, caprichando nas antiquadas convenções do início do século, desde as cadres incompletas ao sombreado a traço, tributário da gravura em madeira ou talhe doce. Uma década depois dos bonecos modernistas para As Aventuras de Felício e Felizarda ao Pólo Norte que Mily Possoz tinha desenhado para um livro de leitura da 5.ª Classe, o romantismo gráfico continuava a ser a opção das conservadoras elites republicanas, cujos confessados ideais já foram aqui revelados no post sobre a Biblioteca Para a Infância, de Maria O’Neill. Sem as meias tintas e os dramalhões passionais ou bélicos que outras literaturas, também populares, exigiram a Morais, estes manuais escolares revelam um must do seu ágil traço a negro, aqui e ali avivado em combinações de duas ou três cores. A mão certeira de Morais e a indisfarçável doçura das suas crianças colavam bem ao arrebatado amor ao próximo e à exaltação pagã da matéria de que eram feitas a terra e as gentes do Portugal da Primeira República.

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Pouco a Pouco

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Mais Adiante

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Finalmente... 12.ª

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4 classes

 

 

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Leme em 45 rotações

brôto certinho 1962

Mandamentos do Broto

Qualquer garota linda
A florescer
Precisa achar no amor
O seu caminho
Mas para isso
Tem que conhecer
Os quatro mandamentos
Do brotinho!

Se ele for atrevido
E no cinema levar
Mesmo sendo seu querido
Não se deixe dominar
Mamãe não manda recado
Diretamente a falar
Um conselho bem sacado:
Tenha juízo
Não beijar!

Se o garoto é delicado
E mora no coração
No escuro
Sentado ao lado
Durante toda a sessão
Tem direito a uma casquinha
E um pouquinho de emoção
Para não perder a linha
Pode só pegar na mão!

Pense bem
Que o tempo passa
Devagar, mas vai passar
O sonho é como a fumaça
Pode um dia dissipar
Para um futuro com juízo
E uma vida regular
Não se esqueça que é preciso
Estudar, sempre estudar!

A noite suavemente
Como um sussurro de vento
Você seguirá contente
Este doce mandamento
Pensando no seu brotinho
Pode no sono encontrar
Aquele que é seu carinho
E sonhar, sonhar, sonhar!

É de paixão que falamos, daquelas que nunca morrem. Para reacender a chama, nada como uma novidade, mesmo a passar o meio século, pela voz de Célia Benelli Campello, aliás Celly Campello (São Paulo, 1942-2003). Cantora yé-yé, precursora do rock no Brasil, enfileirou na Jovem Guarda, movimento cultural brasileiro onde pontuavam também Roberto Carlos, Wanderléia e Erasmo Carlos. As canções açucaradas de Celly iam certeiras ao coração dos brotinhos, o equivalente às teenies de hoje, e chegavam a Portugal em eps da Parlophone, discográfica subsidiária da Warner, em capas ilustradas por João da Câmara Leme (Beira, Moçambique, 1930-Lisboa, 1983), onde liliputianas figuras acrescentam um toque inocente aos brotinhos dos três eps de Celly Campello. Se o talento de Câmara Leme se prova à saciedade nos livros, nas revistas e na propaganda do Turismo, de fácil acesso em bibliotecas e alfarrabistas, os discos extended play, sem contabilidade estudada, são jóia rara, apesar do seu baixo valor comercial. Sem data impressa, arrumam-se facilmente nos primeiros anos da década de sessenta, desde logo pelo uso do caligráfico «Câmara Leme», assinatura comum nas suas ilustrações editoriais da época. A discografia caótica do ilustrador, a que se acrescenta o folclore alentejano e a música para crianças é, afinal, um mini catálogo de virtuosos registos, contemporâneos das suas melhores capas para a Biblioteca dos Rapazes, a Biblioteca das Raparigas, a Contemporânea e O Livro de Bolso, coleções mais que emblemáticas da Portugália, a editora que Câmara Leme iluminou em toda a década de sessenta.

BrotoLegal

o meu amor vai passar

AGalinhaVerde

eugénia lima

ONataldasCriancas

FestivalSRemo

estremoz

Fontes

João da Câmara Leme, Pedro Piedade Marques e Jorge Silva. Coleção D9. Imprensa Nacional-Casa da Moeda, 2015

https://www.ouvirmusica.com.br/celly-campello/

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Abílio, o nazareno

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Medalhões de lagosta, frango em “cocotte”, ervilhas à inglesa, cenouras em manteiga, doce, queijo e café e vinhos portugueses constavam no luxuoso menu das refeições servidas nos jets intercontinentais da TAP em meados dos anos sessenta. Apresentadas aos viajantes em folheto, tinham a dobra picotada permitindo colecionar postais destacáveis no formato generoso de 23 x 15 cm. A série, com oito imagens e o título de «Danças Portuguesas», revelava um exuberante best off  ds costumes tradicionais portugueses. Repetida, em formato A4, com os mesmos motivos e sem a função postal, trazia a partitura das músicas tradicionais associadas aos pares dançantes. Nova série, em 1968, dá patrocínio e capa ao programa de espectáculos da Companhia Folclore de Lisboa, em larga digressão pelo Brasil, coproduzida pelo Clube Ginástico Português do Rio de Janeiro e pelo Centro de Turismo de Portugal. Companhia aérea de bandeira, a TAP alinhava assim com a propaganda oficial na exploração do filão regionalista, multiplicando os souvenirs folclóricos até mesmo em pequenas travessas de porcelana..

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Os vistosos bailarinos eram obra de Abílio de Mattos e Silva (Sardoal, 1908-Lisboa, 1985), talentoso cenógrafo e figurinista das artes de palco e também ilustrador editorial, já destacado no Almanaque pelo seu trabalho para a «Campanha da Produção Agrícola» dos anos quarenta, em cartazes e brochuras editados pelo Ministério da Economia do qual Abílio era também funcionário. A paixão de Abílio pelos costumes tradicionais portugueses já vinha de longe, desde os anos trinta, e focou, sobretudo, a comunidade piscatória da Nazaré. A primeira manifestação gráfica que lhe conhecemos, versando a vila, é uma coleção de postais, datados de 1934 a 1936, que andam longe ainda dos garridos figurinos do teatro musicado e muito perto das premissas do desenho modernista e do chiaroscuro da art deco. A série é contemporânea da estreia de Abílio no teatro, curiosamente em cenários para a peça Tá Mar, cujo enredo se passa na vila, em  produção da Empresa Amélia Rey Colaço-Robles Monteiro para o D. Maria II.

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Abílio não foi o único artista gráfico enamorado pela Nazaré. Raquel Roque Gameiro pintara já a faina  nas areias da praia em série de postais em cor sépia, ao jeito naturalista do pai Alfredo e Tom, o grande Thomaz de Mello, dera já corpo à obsessão da elite do Estado Novo num portentoso ensaio visual de 1958, justamente chamado Nazaré, livro onde passeia o seu virtuosismo plástico  em diversos modismos gráficos em que prevalece a gramática neorrealista. O fascínio pela Nazaré lança Abílio num cometimento ambicioso que entra claramente no campo da etnografia. Em O Traje da Nazaré, edição tardia de 1970, descreve os variados costumes das suas gentes, e documenta a confecção de roupas e acessórios. Abílio diverge da religiosidade oficial em relação ao tema, e desenha sem heroísmo nem tragédia uma versão benigna de varinas e pescadores, de uma elegância anatómica irreal, palrando em grupos e expondo aos nossos olhos as minudências dos seus trajares como se em palco ou montra estivessem. Referencial no desenho de cenários e figurinos de teatro, ópera, bailado e revista, o traço e as cores vívidas e contrastadas de um Abílio estilista contaminarão crescentemente a produção gráfica em papel. Encontramos o mesmo registo em quatro postais com desenhos datados de 57, e ainda numa variante mais sombria, em capas da Via Portucale, revista da empresa Rádio Marconi.

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24 set 1965

peixeiras

pescador

pescadores

varinas

O Trajo da Nazaré agrega imagens produzidas ao longo de três décadas. Algumas das mais antigas, dos anos quarenta, têm abordagem naturalista, negando o palco e a cintura fina dos tagarelas que recheiam o livro. A mulher que espera sentada na areia, retrato pungente das incertezas do mar, serviu ainda de contraditório remate a um alegre folheto de promoção turística, datado de 1951.

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Abílio, the Nazarene

Lobster medallions, chicken casserole, peas à l’anglaise, buttered carrots, dessert, cheese, coffee and Portuguese wines were the luxury meals that TAP served passengers on their intercontinental jet flights in the mid-1960s. A generous-sized postcard (23X15cm) could be detached from the menu along a perforated fold. It was part of a collection of 8 celebrating ‘Portuguese Dances’ – a joyful best of Portuguese traditions. The score of the music that the couples dance to came in A4 format with the same motifs but not as a postcard. A new series dated 1968 provided both sponsorship and programme cover for Companhia Folclore de Lisboa, which was touring Brazil in a co-production with the Clube Ginástico Português in Rio de Janeiro and the Centro de Turismo de Portugal. Portugal’s flag-carrier airline, TAP, joined the official propaganda in exploiting Portuguese local customs and proliferating folkloric souvenirs, even to the extent of their small porcelain dishes.

The drawings of these eye-catching dancers were by Abílio de Mattos e Silva (Sardoal, 1908-Lisboa, 1985), a talented theatre set and wardrobe designer. He was also an editorial illustrator and Almanaque has already mentioned his posters and brochures in the 1940s for Campanha da Produção Agrícola that were published by the Ministry of Economy, where he was employed. His passion for traditional Portuguese costumes had begun long before in the 1930s, and focused mainly on the fishing folk of Nazaré. His first known graphic work is a series of postcards devoted to this coastal town dating 1934 to 1936. They are a far cry from flashy musical theatre costumes and much closer to the ideas advanced in modernist drawings and art deco chiaroscuro.  The postcards came out at the same time as he began working in theatre: interestingly enough, on the set of the play Tá Mar, whose plot unfolds in Nazaré. It was an Amélia Rey Colaço-Robles Monteiro production for the Dona Maria II National Theatre in Lisbon.

Abílio was not the only artist to fall in love with Nazaré. Raquel Roque Gameiro painted Nazaré’s distinctive traditional ‘faina’ fishing practices in a group of sepia postcards much in the style of her father, Alfredo. And then Tom, the great Thomaz de Mello, brought to life the obsessions of the Estado Novo dictatorship’s elite in a magnificent visual essay in 1958 in a book called Nazaré, in which his artistic virtuosity is evident in a range of images in which neo-realism prevails. Abílio’s fascination with Nazaré led him to an ambitious undertaking that clearly touches upon ethnography. In O Traje de Nazaré, a book that came out later in 1970, he depicts the various garments worn by the people of Nazaré and also describes how these clothes and accessories are made. Abílio diverges from the sanctimonious official approach towards the subject and draws fishwives and fishermen talking in groups with sympathy that has nothing of the heroic or tragic. In his elegant, unrealistic adaptations, he reveals every detail of their garments as if they were on stage or in a shop-window. As in set and wardrobe design for theatre, opera, dance and music hall, Abílio’s draughtsmanship and vivid contrasting colours as a stylist had a growing influence on his work on paper. We find the same drawing style in four postcards dating to 1957, as well as more toned-down variations on the covers of Via Portucale, the Radio Marconi magazine.

O Traje de Nazaré brings together thirty years’ of drawings. Some of the older ones from the 1940s are more naturalist and avoid theatrical effects or the slimming of waists of the garrulous groups that fill the book. A woman sitting alone on the sand while she waits is a powerful reminder of the uncertainties of life at sea but was, paradoxically, the illustration on the back of a cheerful tourism brochure in 1951.

Fontes / Sources

Abílio, catálogo. Textos de Vítor Pavão dos Santos, Fernando de Azevedo, Maria José Salavisa. Município de Óbidos, 2008.

Abílio – Pintura, Desenho, Cenários, Figurinos, catálogo. Texto de Fernando de Azevedo. Fundação Calouste Gulbenkian, 1990.

30 Anos de Teatro, catálogo. Texto de Tomaz Ribas. Teatro Nacional de S. Carlos, 1970.

 

 

 

 

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O menino dança?

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O Armindo e o Cruz e Souza tinham um caso. Amor jurado em música passada ao papel nas partituras que eletrizavam saraus de coletividades populares ou salões afrancesados da burguesia citadina. Armindo e Souza dançavam afinados o tango, a valsa, o charleston, o fox-trot ou um entusiástico (acreditamos) samba-fado-marcha. A música do maestro e pianista Souza seria tão diversa como os géneros musicais em moda naqueles primeiros anos da década de trinta, mas o lápis do ilustrador Armindo tinha o repertório mais curto, traçando a régua e tesoura pares românticos em pleno beijo apressando o desfecho dos preliminares dançantes, ou refinando no chiaroscuro passado à pedra litográfica. Da vida do Souza nem o omnisciente google sabe. Do Armindo nos ficam estes fresquíssimos altos contrastes cromáticos, a léguas do preciosismo de Jorge Barradas e Bernardo Marques, ou do humorismo de Botelho, mas bem perto da gramática sintética com que Piló nos brindaria, anos mais tarde, em postais ilustrados com costumes regionais. Armindo Teixeira Lopes (1905-1976) foi artista autodidata, decorou palacetes em Belo Horizonte, no Brasil e, regressado a Lisboa em 1948, foi bolseiro da Gulbenkian e expôs com frequência desenho e aguarela. Tem em Mirandela, terra natal, um museu com o seu nome.

Ah, do que sabemos, Armindo foi sempre fiel ao Souza. Não se lhe conhecem outras aventuras gráficas na música. Já o Souza tinha coração largo e algumas das suas marchas-canção andaram por outras mãos, como as do grande Stuart de Carvalhais.

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adeus sevilha

destinos

Fontes
«Contemporâneos de Stuart», Sofia Bicho, in O Fado Por Stuart de Carvalhais, EGEAC, 2005

«O senhor dos pincéis» [Gil Teixeira Lopes], Ana Pago, in Diário de Notícias, 10 fevereiro de 2014

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É a Guerra!

1942 vacuum é a guerra

Faltava o açúcar, o arroz, o bacalhau, o sabão, o azeite, o leite, o café, os cereais e a batata. As más colheitas agrícolas de 1940 e 1941, somadas ao açambarcamento e ao mercado negro, provocaram em Portugal, a meio da Segunda Guerra Mundial, o racionamento de bens essenciais, fragilizando ainda mais as já precárias condições de vida. E, para cúmulo, também não havia gasolina. Alguns dos 1250 submarinos alemães em ação na Guerra, os célebres U-BOAT, faziam tiro ao alvo a navios de abastecimento ao longo da costa atlântica, perdendo Portugal, durante todo o conflito, 18 mil toneladas da sua marinha mercante, numa provável pressão de Berlim para aumentar as exportações portuguesas, sobretudo de volfrâmio. A atividade comercial das empresas petrolíferas no país foi severamente afetada pelo afundamento de navios petroleiros e originou uma curiosa campanha da Vacuum Oil Company, antepassada da atual Mobil, que publicitava, pedagogicamente, alternativas ao consumo dos seus próprios produtos. Imagine o leitor, nos nossos dias, a nossa GALP, imbuída de preocupações ambientais, a incentivar o uso da pública Carris ou mesmo as boleias online.

Na realidade, a campanha da Vacuum, em pleno curso de um conflito ainda sem desfecho certo, foi uma brilhante criação publicitária. Sediada na poderosa América, geograficamente incólume aos horrores da guerra, a Vacuum partilhava com a flagelada população portuguesa as restrições decorrentes da guerra. Esta ação de responsabilidade social, como agora se designa, derivava de uma massiva presença na publicidade em jornais e revistas desde os anos 20, e também do seu papel pioneiro como fornecedor de combustíveis e derivados. A companhia chegou a Portugal em 1896 com a designação inicial de Vacuum Oil Company, Inc. Patrocinadora de provas desportivas e responsável pela edição de cartas itinerárias do país e do primeiro Guia do Automobilista Português, instalou por sua conta, entre 1920 e 1928, milhares de sinais de trânsito nas estradas portuguesas e colaborou ativamente na campanha para publicitar a inversão do sentido de marcha, da esquerda para a direita, em 1928.

Mário Costa (1902-1975), litógrafo de formação, talentoso ilustrador ligado ao mundo editorial e à publicidade, desenhou centenas de anúncios para a Vacuum Oil. Os primeiros datam de 1937 e os últimos são do final da década de 50, já para a Mobil. A série aqui apresentada tem a competência oficinal da banda desenhada realista da época e, como referencial, o clássico Eduardo Teixeira Coelho. Afinal, Costa era um prolífico criador de ilustrações e quadradinhos para revistas infantojuvenis como O Senhor Doutor, Pim-Pam-Pum, Tic-Tac, Rim-Tim-Tim, O Mosquito e Faísca. Mário Costa substituiu dois grandes ilustradores ao serviço da Vacuum, Cunha Barros e Emérico Nunes, responsáveis, desde os anos vinte, pelas constantes campanhas publicitárias para combustíveis, lubrificantes e aparelhos domésticos, como fogões e caloríferos, associados ao consumo de petróleo. Se o registo maioritário da publicidade ilustrada por Costa é cartunesco e de linha clara, o negrume destes seis anúncios, com toque de enredo policial, era uma imagem de marca do autor, compensando o menor virtuosismo com uma intensidade dramática, bem oportuna neste tema.

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1942 vacuum cooperação

1942 vacuum juntaram-se os dois

1942 vacuum um recurso

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Em 1944, com o destino da Segunda Guerra já traçado, a Vacuum atreve-se a adivinhar um póspero regresso à normalidade acrescido dos avanços tecnológicos na área dos combustíveis e lubrificantes, entretanto obtidos pelas duras exigências do conflito, novamente em campanha pela mão de Mário Costa.

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As ilustrações foram restauradas digitalmente

Fontes
http://restosdecoleccao.blogspot.pt/2014/06/mobil-oil-portuguesa.html
Portugal Século XX –1940-1950, Joaquim Vieira, Círculo de Leitores, 2000
Dicionário dos Autores de Banda Desenhada e Cartoon em Portugal, Leonardo de Sá e António Dias de Deus, Edições Época de Ouro, 1999

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Júlio Verne dans le pochoir

28 a galera chancellor

Em meados da década de sessenta, a Livraria Bertrand tinha acumulado um stock avultado das Obras de Júlio Verne, 82 volumes em capa dura e formato de bolso, que não se vendiam facilmente. A solução, ainda aplicada nos nossos dias, passou pela criação de novas sobrecapas para os livros, conferindo-lhes uma embalagem mais atraente, mas que resultou numa salada gráfica ilustrada. Cada livro tem duas gravuras do século XIX no miolo, de remota proveniência francesa, capa dura com uma ilustração compósita de Fernando Bento, feita muitos anos antes e, para embrulhar tudo, as referidas sobrecapas, ilustradas por Luís Filipe de Abreu (Torres Novas, 1935), que o fazem regressar oportunamente ao Almanaque. Não se deixem enganar pela aparência modesta destas ilustrações, a sua reduzida escala e a sobriedade do design geral. Um olhar mais atento revela-nos um tesouro gráfico, aplicado em pochoir, recurso raro na vasta obra de ilustração editorial do artista. O pochoir é na realidade uma estampagem em stencil, processo de impressão artesanal em série, bem conhecida dos artistas gráficos e plásticos portugueses dos anos sessenta. Técnica antiga, desenvolvida no Japão a partir da segunda metade do século XVII para a estampagem de tecidos, a sua popularidade nos séculos XIX e XX foi importada de França. Em Paris, a técnica era profusamente aplicada nos figurinos de moda, no design têxtil e nas artes gráficas, sendo fundamental na divulgação da estética Art Deco.

Após um leve traçado prévio, LFA cortava com estilete o molde em papel fotográfico, de formato 9 x 12 cm, aplicando depois a tinta (sempre guache) sobre cartolina offset. O traço anguloso é consequência direta do corte com lâmina, embora adoçado pelas infiltrações da tinta a partir das máscaras ou na cartolina suporte da tinta. Luís Filipe toma algumas liberdades decorativas no risco de caprichosas fumaradas de barcos e comboios, ou no patchwork do casco de submarinos, mas é nas composições descritivas, sem qualquer metáfora, que o ilustrador brilha, num registo minimal, a lembrar  o alto contraste fotogáfico. O talento anatómico e animalista de LFA gera impecáveis perspetivas ou sobreposição de planos e tolera bem a ausência de expressão nos rostos das figuras, que se apresentam quase sempre em branco ou negro total. As hábeis miniaturas, em originais à escala real (ou quase) da impressão tipográfica nas sobrecapas, revelam pormenores deliciosos, como a cabeça da mulher que se vira para trás, no livro A Agência Thompson & C.ª, ou os panos que cobrem os indígenas de Os Navegadores do Século XVIII, exemplos de um sofisticada capacidade narrativa sustentada numa extrema economia gráfica.

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Capa dura de Fernando Bento, sem data

11 oceano pacífico

Júlio Verne — Viagens Maravilhosas N.º 11, Oceano Pacífico

23 o cataclismo cósmico

Júlio Verne — Viagens Maravilhosas N.º 23, O Cataclismo Histórico

27 na áfrica

Júlio Verne — Viagens Maravilhosas N.º 27, Na África

37 os navegadores do século XVIII

Júlio Verne — Viagens Maravilhosas N.º 37, Os Navegadores do Século XVIII

40 os exploradores do século xix

Júlio Verne — Viagens Maravilhosas N.º 40, Os Exploradores do Século XIX

41 a escola dos robinsons

Júlio Verne — Viagens Maravilhosas N.º 41, A Escola dos Robinsons

55 o caminho da frança

Júlio Verne — Viagens Maravilhosas N.º 55, O Caminho da França

64 a mulher do capitão branican

Júlio Verne — Viagens Maravilhosas N.º 64, A Mulher do Capitão Branican

72 a carteira do repórter

Júlio Verne — Viagens Maravilhosas N.º 72, A Carteira do Repórter

74 o coronel de kermor

Júlio Verne — Viagens Maravilhosas N.º 74, O Coronel de Kermor

77 os náufragos do jonathan sss

Júlio Verne — Viagens Maravilhosas N.º 77, Os Náufragos do Jonathan

81 a agência thompson & c.a

Júlio Verne — Viagens Maravilhosas N.º 81, A Agência Thompson & C.ª (I)

82 a mulher do capitão branican

Júlio Verne — Viagens Maravilhosas N.º 81, A Agência Thompson & C.ª (II)

Perderam-se as máscaras em papel fotográfico e os originais estampados a guache na cartolina, mas temos um pincel, com a bonita idade de sessenta anos, de cabo manualmente facetado e afeiçoado à mão do artista, que Luís Filipe usou para traçar um bom pedaço da fantástica história da ilustração portuguesa.

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Ilustrações restauradas digitalmente. O post teve a colaboração de Luís Filipe Abreu.

Fontes
Luís Filipe de Abreu, Coleção D, n.º 12, Imprensa Nacional, 2016

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As gavetas de Pavia

 

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«Os seus trabalhos traziam a marca da segurança e do definitivo, mas ele não era um espontâneo, antes um torturado da execução. As experiências e tentativas eram-lhe constantes, por vezes cheias de dolorosa luta na procura de outros caminhos, que abandonava sem os chegar a revelar. Tudo isso ia encher as vastas gavetas duma cómoda no quarto em que vivia — gavetas em que o espaço sobrava, pois nada mais tinha para lhe meter dentro senão papéis e sonho.» 

Roberto Nobre, »O drama de Manuel Ribeiro de Pavia», in Vértice, 164, Maio 1957

O conteúdo, comprovadamente vasto, das gavetas desta célebre cómoda, desapareceu sem deixar rasto e terá sido partilhado pelas pessoas mais próximas de Manuel Ribeiro de Pavia (Pavia, 1907-Lisboa, 1957), nomeadamente aqueles que o acompanharam nos seus últimos momentos. Parte do mistério esclareceu-se com a circulação, nestes dois últimos anos, de cerca de duas centenas e meia de originais e litografias numa conhecida leiloeira online. Este magnífico tesouro do mais icónico ilustrador do Neorrealismo português, teve origem no espólio de Armando Vieira Santos (1903-1971), historiador de arte e um dos fundadores da Cooperativa dos Gravadores Portugueses. Armando, amigo próximo de Pavia, estava presente na fatídica noite de 19 de março de 1957, quando o artista, no quarto da pensão onde residia há muitos anos, sucumbiu a uma pneumonia. No imenso conjunto de testemunhos sobre Pavia publicado na revista Vértice logo após a sua morte, Armando Vieira Santos, num texto que tem por título «A gaveta mágica» relata com minúcia o processo e o destino final dos trabalhos que Pavia laboriosamente traçava noite dentro: «Após a dramática morte de Manuel Ribeiro de Pavia, ao inventariar-se o seu espólio artístico, mãos cuidadosas de amigos retiraram dali mais de mil e duzentas folhas de papel!» 

Muita da obra impressa de Pavia tem equivalentes na miscelânia de papéis que se encontravam nas gavetas. Alguns indiciam esboços ou estudos para livros posteriormente publicados, incluindo uma das suas obras mais célebres, o álbum Líricas, de 1950. Geralmente sem data e assinatura, os estudos, apresentam-se com humilde crueza, assumindo as hesitações da grafite, visíveis por entre a caneta e a tinta da china  finais, e percorrem os temas caros a Pavia, com relevância para as suas sonhadas mulheres, e ainda uma série de desenhos eróticos, temática desconhecida até agora na vasta obra gráfica do artista. A laboração contínua sobre os mesmos assuntos e registos permitia um vasto repositório de soluções para futuros trabalhos e contribuiu seriamente para a perceção unitária da sua obra, toda ela traçada e pintada unicamente sobre papel. Do obsessivo labor de Pavia resultava ainda a utilização frequente dos dois lados do papel e os versos de provas litográficas, uma dádiva para os felizes possuidores destes originais.

16,5 x 23 cara 2

SEC 04

24,5 x 37,5

PUB582

Instituto Pasteur, Os Professores Divertem-se!, Programa da Récita dos Finalistas de Medicina, Lisboa, 1954

16,5 x 23 velho

SEC 10

14 x 21,5 litoral a oeste

portugalia 12, 13

frente ao mar

23 x 33,5 não se pode ser neutro em bagdad

INQUÉRITO 07

21,5 x 33,5

004

Álbum Líricas, texto de José Gomes Ferreira, Editorial Inquérito, 1950

21 x 30,5 erótica 1

21 x 30,5 erótica 2

21 x 30,5 erótica 3

21 x 30,5 erótica 4

Fontes:

Revista Vértice, n.º 164, maio de 1957

Pavia – Comemorações do Centenário do Pintor Manuel Ribeiro de Pavia, Câmara Municipal de Mora, 2008

 

 

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Sardina albertis

Ei-la! Gorda e suculenta a pingar no pão ou gráfica e garrida em cartazes e pendões. É a nossa Sardina pilchardis que, apesar do aquecimento global e das severas quotas de pesca, inunda Lisboa por este quente mês de junho. Entre as milhares de propostas recebidas no concurso público que a EGEAC organiza todos os anos para ilustrar sardinhas (cerca de 9 mil em 2016), um concorrente pareceu ter, nos últimos anos, uma fórmula secreta para triunfar no concurso. Alberto Faria (Lisboa, 1966), ilustrador e designer, teve três sardinhas premiadas nos concursos de 2013, 2014 e 2015. Poderíamos supor que as milhares de propostas recebidas todos os anos obrigariam os jurados a premiarem as criações mais originais e fantasiosas. Mas as sardinhas de Alberto Faria  não apresentam metáforas originais e revisitam, ao invés, situações bem conhecidas da iconografia lisboeta. A fórmula, a existir, não foi obra de acaso. Em 2012, Faria concorreu com três sardinhas e nelas se reconhecem já ingredientes da receita que triunfaria nos anos seguintes.

marinheiro 2012 ok

fogareiro 2012 ok

telhados 2012 ok

Sardinhas 2012

O que torna então as sardinhas de Faria irresistíveis para o conjunto de jurados, sempre diferente todos os anos? A sardinha de 2013  com a sua encosta do castelo, de planos intersectados verticais e horizontais, com gato, manjerico, fogareiro, gaivota e candeeiro, mar e paquete, é um prodígio de composição. E o Santo António, de 2015? Todos os anos aparecem umas dezenas deles a concurso, com os mais variados grafismos. Que tem o santo de Faria de especial? De abanico na mão, este António, todo olhos, vela pelo fogareiro onde se assam promissoras sardinhas. Nada de extraordinário, portanto. E a surpreendente geometria da sardinha quiosque, de 2014 é, ainda assim, mais uma imagem da bonomia lisboeta.

Alberto encarna a máxima do canadiano Marshall McLuhan, filósofo estimado no Almanaque, de que «o meio é a mensagem». A Faria não interessa a história, interessa como a história se conta. E Faria conta-a muito bem. Num registo gráfico que podemos incluir numa tendência maioritária da ilustração editorial recente: registo digital com simulação manual, paleta de cores planas puras ou complementares, salpicadas por discreta erosão nas texturas; jogo de dominó com claro e escuro, positivo e negativo; e, por último, a subtração do traço linear que deita a perder milhares de outras sardinhas. Faria mostra o melhor dos dois mundos: mensagem clara e grafismo contemporâneo.

Microsoft Word - Regulamento do Concurso Sardinhas Festas de Lis

Sardinha 2013

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Sardinha 2014

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Sardinha 2015

Alberto Faria não teve o mesmo sucesso este ano e a sua sardinha não saíu vencedora. O risco de um tema político deve ter sido bem calculado, já que o 25 de Abril incorpora o adn da cidade. Não, a sardinha abrilista de Faria não deve ter assustado o júri. Mas o registo linear e a figuração retro da criança, poderão ter ditado a exclusão do lote das vencedoras. Tivesse Faria traçado o miúdo, o cravo e a G3 ao jeito dos anos anteriores e teríamos o tetra.

Até para o ano, Alberto.

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Sardinha 2016

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São Lázaro

crónica 5

1930 foi um ano fecundo para as publicações cinematográficas. A 15 de abril saía a Crónica Cinematográfica, a 1 de maio o primeiro jornal impresso em rotativa, o Kino e, a 10 do mesmo mês, vinha para a rua a revista quinzenal Imagem, que tinha como redator principal José Gomes Ferreira e como diretor Chianca de Garcia. Este frenesi editorial à volta da sétima arte, tinha-se acentuado na década de vinte, somando 50 títulos para responder à crescente cinefilia do público. No final da década, a lotação das salas de cinema de Lisboa (20 mil lugares) ultrapassou pela primeira vez a dos teatros (15 mil). As publicações especializadas da época oscilavam entre o fascínio por Hollywood e os pífios sucessos domésticos, sem esquecer as querelas à volta do emergente cinema sonoro, ou a relevância de Charlie Chaplin na indústria. Pelo seu perfil editorial essencialmente noticioso, a Crónica Cinematográfica não se envolveu em polémicas acesas, embora manifestasse preferência pelo cinema mudo «Porque, se quisermos a palavra, marcamos o nosso bilhete no teatro e não vamos ao cinema» e apontasse regularmente as crónicas mazelas do cinema português.

Produzida na melhor oficina gráfica da época, a Bertrand, Irmãos, Lda., a Crónica Cinematográfica vestia a Art Deco a rigor, com a sua impressão monócroma, que antecipava as glamourosas revistas impressas em rotogravura, o soberbo cabeçalho degradé da capa e retratos de estrelas em pose postal para fãs. Mas o tema gráfico mais notável da revista foi a publicidade: todos os anúncios, da página inteira ao rodapé, foram monopolizados pelo designer e ilustrador Lázaro, que oferecia figuração estilizada e um verdadeiro catálogo de tipografia modernista para automóveis, chapéus, vinhos, tabacos, relógios e fogões, sem esquecer os celebrados perfumes Nally. O objetivo tinha referência expressa no número 15: «Ao brilhantismo com que apresentámos a publicidade dos nossos comerciantes, idéias originais, desenhos sugestivos e modernas composições correspondeu ainda mais afluência de Publicidade». Abordagem já corrente em revistas como a Civilização, não resistiria muito tempo ao advento dos estúdios de design e agências de publicidade profissionais como a ARTA e a ETP. Lázaro Côrte-Real, outro ilustre desconhecido das artes visuais portuguesas, pontuava pelos magazines da época como ilustrador, mas teve na Crónica um papel essencial. Sem o rigor estilístico de Fred Kradolfer, a quem toda a publicidade nacional dos anos vinte tanto ficou a dever, Lázaro exercita no chiaroscuro os estereótipos da Art Deco, da figuração masculina geométrica e caricatural, a lembrar a negritude das jazz-bands, à figuração feminina, caligráfica e de tonalidades suaves, onde Lázaro capricha numa subtil e repetida torção de pescoço.

 Com formato de revista e 8 páginas ao preço de 50 centavos, a Crónica Cinematográfica – Diário da Noite tinha como diretor Magalhães de São Boaventura e redator principal e editor Mota da Costa. No inevitável editorial do primeiro número a Crónica assumia que «nasceu de um optimismo que a muitos parecerá loucura» depois de zurzir no fado indígena: «o povo português é retrógrado, é descrente, o povo português é pessimista por temperamento; esse o seu maior defeito». Afinal, o fatalismo luso acabou por contaminar a revista: ao número 15, já a Crónica não aguentava o voraz ritmo diário. A explicação era curiosa: «uma crise de fartura» na entrada de anunciantes e nas vendas implicava uma tiragem maior, incomportável na modesta impressão em máquina plana. E assim passou a semanário, duplicando as páginas pelos mesmos cinco tostões. A partir do número 18, querelas internas forçam a saída de Boaventura  e Mota da Costa passa a diretor. Em 24 de junho, ao número 23, a revista suspende-se por razões administrativas. Simultaneamente, a empresa Pró-Arte, Lda., sua proprietária, responsabiliza o primeiro diretor, Magalhães de São Boaventura, pela desorganização da revista e processa-o no Tribunal da Boa Hora. A curta vida da Crónica Cinematográfica  dava um filme.

camel, 1, 15 abr 1930

camel, 6, 21 abr 1930

marya, 13, 29 abr 1930

palmares, 1, 15 abr 1930

zenith, 16, 6 mai 1930

fabrica portugal, 3, 17 abr 1930

palmares, specimen, 14 abr 1930

vinhos borges, specimen, 14 abr 1930

fábrica portugal, 11, 26 abr 1930

nally, 2, 16 abr 1930

anibal tavares, 17, 13 mai 1930

fotografia brazil, 7, 22 abr 1930muraline, 5, 19 abr 1930

Bibliografia

Portugal Século XX – Crónica em Imagens, 1920-1930, Joaquim Vieira. Círculo de Leitores, 1999

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Index

Index de ilustradores em que a listagem da obra e bibliografia, embora tendencialmente exaustivas, não são raisonée. É um work in progress onde todas as contribuições são bem-vindas.

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