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histórias da ilustração portuguesa

O Mata-Borrão

ATRALMICINA

O papel mata-borrão é um papel fabricado sem cola, capaz de absorver tinta líquida. O seu uso está ligado à pena de escrever, ao tinteiro e à caneta de tinta permanente. Em formatos próximos do A5, o mata-borrão, tornou-se rapidamente um barato e eficaz meio de propaganda. Se a face que absorvia a tinta ganhava facilmente um caráter inestético, a outra estava disponível para servir como objeto decorativo na secretária. O papel mata-borrão servia assim de cartão de visita e anúncio descartável, facilmente substituído. À semelhança do bilhete postal ilustrado, as imagens impressas no mata-borrão tinham uma fixação muito particular em fotografias de paisagem e costumes tradicionais, complementadas com o logótipo da marca. A indústria farmacêutica explorou intensamente este veículo de propaganda, com resultados gráficos muito apreciáveis, sobretudo quando precisava de apresentar novos fármacos que, naturalmente, tinham a concorrência aguerrida de outras marcas. A excelência da comunicação gráfica das farmacêuticas nacionais, como o Instituto Pasteur, a Delta e a Atral, devia-se à contratação de artistas gráficos profissionais que deixaram a sua marca em peças simples como estes mata-borrões, que se podem situar, à falta de datação explícita, entre as décadas de cinquenta e sessenta.

José Cambraia (1920-1993), será recordado sobretudo pelas capas e ilustrações que fez para os livros infantojuvenis da Livraria Clássica Editora, entre os anos de 1941 e 1971, onde se destacam os minúsculos «Contos de Encantar», coleção que atingiu os 102 números. Cambraia foi diretor do departamento de desenho da Atral no tempo em que a empresa estava situada num chalet em Benfica. Os Laboratórios Atral nasceram em 1948 a partir de uma modesta farmácia situada no Bairro de Alcântara e foram percursores do fabrico de antibióticos em Portugal. Por entre embalagens e a revista Temas de Medicina, newsletter da empresa, Cambraia ocupava-se da publicidade dos bem sucedidos fármacos da casa. A estratégia comercial da Atral não dispensava o mata-borrão, brinde barato e útil que os comerciais da casa deixavam nas secretárias dos senhores doutores. Cambraia era exímio na combinação dos recursos gráficos, em metáforas figuradas que sinalizavam a ocorrência das maleitas ou a sua cura pela intervenção do fármaco, complementadas por cartelas de texto, elemento decorativo apreciado pelos designers desde a propaganda nacionalista dos anos 30.

Os vagares e as manchas da tinta permanente foram cedendo gradualmente espaço à esferográfica, invenção do húngaro Lázló Biró, em 1938. Biró venderia a patente do invento em 1945 ao francês Marcel Bich, que apresentará em 1949 a marca comercial BIC. Se o simpático mata-borrão é mais um artefacto perdido na aceleração dos nossos tempos, uma poesia em prosa do jornalista e escritor brasileiro Mário Quintana, falecido em 1994, eterniza-o-o na nossa fraca memória: “O mata-borrão absorve tudo e no fim da vida acaba confundindo as coisas por que passou… o mata borrão parece gente!”

FENIBUTOL

KELADIL

COMBISSULFA

Fontes
https://restosdecoleccao.blogspot.com/2015/07/laboratorios-atral.html
https://pt-pt.facebook.com/pages/category/Artist/José-Cambraia-588764174496545/

o Almanak agradece a Paulo Cambraia

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Gaticanea

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Gravura que acompanha o frontispício do livro

Dos Gatos, e dos Cães a bruta Guerra,
Que as partes inquietou de toda a terra,
se o meu engenho humilde pode tanto
D’Estro novo ferido alegre canto.

Glosando as duas primeiras estrofes dos Lusíadas, João Jorge de Carvalho inicia o seu «poema heroi-comico em quatro cantos, escripto em versos hendecasyllabos pareados, e no gosto pouco mais ou menos da Batrachomyomachia attribuida a Homero, não é de todo destituido de merito, na opinião de criticos competentes, e denuncia em seu auctor tal qual ingenho e vêa poetica. A prova de que agradou ao publico é, terem-se d’elle feito não menos de tres edições no lapso de cincoenta annos». Gaticanea tem a sua primeira edição em 1781, em pleno reinado da primeira rainha portuguesa, D. Maria I. Considerado uma alegoria sobre as intrigas da corte, Gaticanea, um neologismo de sabor alatinado, relata incríveis acontecimentos, desenrolados na vila de Mafra, que têm o desfecho numa apocalíptica batalha entre cães e gatos. Filha primogénita de D. José I, Maria foi aclamada rainha em maio de 1777. Por sofrer de doença mental foi afastada da governação em 1792, tendo o seu filho D. João tomado o governo do país, em nome da mãe até 1799, ano em que passou a governar em seu próprio nome com o título de Príncipe Regente. O clima político era tumultuoso. Apesar dos avanços na política económica e cultural, Maria governava um império em acelerada decadência e a animosidade entre a família real e o Secretário de Estado do Reino refletiam o desencontro histórico entre o absolutismo Ancien Régime da rainha e o despotismo esclarecido do Marquês de Pombal. De Gaticanea não viria grande mal à nobreza ou à Santa Madre Igreja, já que passou sem percalço pela Real Mesa Censória, obra do dito marquês, que retirou ao Tribunal do Santo Ofício o poder de censurar os livros publicados no Reino.

O enredo do livro passa-se à volta de Mafra e do seu descomunal convento, obra e símbolo do absolutismo magnânimo do rei D. João V. As 126 páginas da obra são abrilhantadas com três gravuras a buril em metal, duas delas em extra texto, assinadas por Godinho, personagem de que o Almanaque não tem mais notícia. Na primeira ilustração, que acompanha na página par o frontispício, um arauto celestial anuncia o triunfo de Maluco, o líder canino, sobre a infame gataria, tendo como cenário o Vale de Mafra. A segunda gravura relata o incidente que dá origem à brutal guerra: acicatado pela fome, o cão Carroça, num raide às cozinhas do Convento de Mafra, enfrenta-se com o gato Ministro, que andando ao mesmo, lhe trinca o espinhaço e o orgulho. A terceira gravura, a maior, relata a terrível batalha onde «De Gatos mortos cem milhões se viam,/ Entre os quais muitos Cães também jaziam, /Que por mais que valentes se mostraram,/ Vinte e cinco milhões ali pagaram», numa panorâmica da Real Praça da Vila de Mafra, onde o imponente convento puxa mais pelo estilete do artista do que a bicharada vinda dos quatro cantos do Mundo. Se a manufatura das imagens não tem grandes primores, e a anatomia humana e animal são bastante canhestras, as ilustrações de Gaticanea e os seus exuberantes desdobráveis de três e quatro laudas são uma refrescante alternativa aos hieráticos retratos e às alegorias mitológicas que saturavam os livros da época. Gaticanea seria reeditado em 1817, ainda no reinado de D. João VI, e novamente em 1828 e 1846.

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Segunda gravura com a zaragata entre Carroça e Ministro nas cozinhas do Convento

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Terceira gravura com a batalha na Real Praça da Vila de Mafra

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Pormenor da terceira gravura

Fontes
http://www.castroesilva.com/store/sku/0911LM038/gaticanea-ou-cruelissima-guerra-entre-os-caes-e-os-gatos-decidida-em-huma-sanguinolenta-batalha-na-grande-praca-da-real-villa-de-mafra

A primeira citação do post pertence ao Dicionário Bibliográfico Português, de  Inocêncio Francisco da Silva.

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Uma cerveja em Paris

1962 KRONENBOURG

Os retratos são inquietantes, os olhos profundos, escuros, cravados nos do leitor. O convite para beber uma das mais célebres cervejas francesas, cujas origens remontam a 1664, é impositivo, acentuado pela ilusão de um copo e a mão que o segura fora do plano do desenho. Desconhecemos o sucesso da campanha, mas estamos longe do hedonismo ligeiro com que a publicidade às cervejas dos anos sessenta se ilustrava. O hospedeiro dos anúncios de monsieur Lima, assinatura reconhecível em algumas das publicidades, era um dos mais célebres magazines europeus, o Paris Match. Pelas suas páginas, de dimensões generosas e finamente impressas em rotogravura, passaram as grandes reportagens sensacionalistas e a melhor publicidade da época, esta assegurada por reputados ilustradores como René Gruau e Savignac. No final de uma larga estadia em Paris, que iniciara em 1954, Lima de Freitas (Setúbal, 1927 — Lisboa, 1998) assinaria, convidado pela agência de publicidade R. L. Dupuy, duas campanhas para a cerveja Kronenbourg com o mesmo conceito de base, associado à expansão da cerveja para mercados internacionais. A primeira, de 1959, em traço cartunesco e bem humorado, introduzia a cerveja quase sempre em paragens exóticas, como o Irão, a Índia ou o Japão.

Três anos depois, em 1962, a Kronenbourg viaja com trela mais curta, apenas para destinos na Europa Ocidental. A representação realista das personagens e dos cenários que as emolduram, num severo preto e branco, pretendia, provavelmente, públicos mais sofisticados e a série de seis anúncios apresenta ainda uma curiosidade adicional. Os estereótipos culturais estão reservados às personagens masculinas, como o espanhol toureiro, o inglês conservador ou um holandês saído diretamente de um quadro de pintura flamenga, enquanto as mulheres vestem com simplicidade moderna e, aparentemente, anónima. Conhecedor do profundo humanismo que guiou a vida e a obra do artista, o Almanaque hesita entre uma manifestação pioneira pela libertação feminina, ou por um marialvismo subtil que concede apenas ao homem o poder de representação identitária e remete  mulher para a efemeridade dos trapos. Ainda assim, estas soberbas imagens de Lima de Freitas estão em linha com outros trabalhos seus da mesma época, como as ilustrações de grandes clássicos da literatura mundial para o americano Limited Editions Club ou a Lírica de Camões, para a portuguesa Realizações Artis.

 

1962 kronenbourg italiana

1962 kronenbourg holandes

1962 kronenbourg alemã

1962 kronenbourg inglês

1962 kronenbourg finlandesa

 

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O Sol brilhará para todos nós! (5)

ALVALADE

Entre 25 de abril de 1974 e 25 de novembro de 1975, a caneta que tinha dissecado com  extrema violência gráfica e intelectual uma ditadura em estado de decomposição adiantado, nas páginas do Almanaque e do Diário de Lisboa, adoçou-se, comoveu-se com o entusiasmo do bom povo, com a bondosa G3 da tropa libertária, e traçou algumas das mais indeléveis imagens desse tempo. O cliente seria a 5.ª Divisão do MFA, dedicada à propaganda do novo estado das coisas e à urgência de alfabetizar o povo com a democracia, nas suas campanhas de Dinamização Cultural. O retrato, que João Abel Manta (Lisboa, 1928) pinta de um pedaço tão real como quimérico do Processo Revolucionário Em Curso, terá o seu epílogo no 25 de Novembro. Manta afasta-se do combate gráfico quotidiano nos jornais, mas os seus poderosos grafismos irão ressurgir em 1978, com uma obra-prima absoluta, Caricaturas Portuguesas dos Anos de Salazar, um ajuste de contas cruel com a ditadura, e um legado inquietante para a eternidade da nossa história.

Feitas para o formato generoso de cartaz, muitas das composições gráficas dedicadas ao tema Povo-MFA foram adaptadas a autocolantes. O traço-síntese de Manta nada perdeu com a redução, mas o seu conjunto resulta, hoje, algo estranho, pela sua erudição gráfica e pela placidez e ausência de sectarismo político, nos antípodas do mar de autocolantes do PREC. Até mesmo o «Companheiro Vasco», de linhas angulosas enxertadas entre as duas figuras consagradas, tem apenas o sabor de uma variante, sem consequências de maior para o julgamento de uma das personagens mais polémicas daqueles anos.

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A excelência gráfica de Manta puxava facilmente ao plágio camarada. A Festa da Liberdade de Alpiarça não se contentava com o Socialismo como rumo certo e acrescentava-lhe um redundante selo de garantia genuína. No autocolante, a cópia sai razoável, traída por minudências de traço, que não comprometendo a homenagem ao original, testemunha um tempo em que o calor da luta justificava a contrafação. A poderosa metáfora gráfica da união Povo-MFA tornar-se-ia um legado universal, citado, com muita regularidade, por ilustradores e cartunistas de várias gerações.

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Fontes
João Abel Manta – Caprichos e Desastres, João Paulo Cotrim, Editora Assírio & Alvim, 2008

João Abel Manta – Obra Gráfica, Câmara Municipal de Lisboa, 1992

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Savil contra Savil

SAVIL—CHANG CONTRA SAVIL

Thomas Birch, James Black, Fred Criswell, Marcel Durand, Max Felton, Henry Jackson, Nelson Mackay, Peter O’Brion, James W. Sleary, Pierre Souvestre, Joe Waterman ou Joelson foram pseudónimos usados por um prolífico escritor que não acreditava na generosidade dos leitores portugueses para comprar romances policiais da autoria de um tal Mário Domingues. Nas capas de inúmeras coleções dos seus livros, que se alargavam a horizontes mais vastos de ação e aventura, temos o seu filho António Domingues (Lisboa, 1921-Lisboa, 2004), cuja exemplar modéstia subtraíu a assinatura aos inúmeros títulos que ilustrava para o pai Mário. Domingues filho, artista agregado ao movimento neorrealista e, mais tarde, ao Surrealismo, conferia às suas ilustrações para os livros policiais uma dramática carnalidade, acentuada por exuberantes impressões em litografia e grafismos modernistas, bem visível em algumas capas da «Colecção Savil» ou em outras coleções de bolso, como a «Detective», «Max Tedd, o Ás dos Detectives» e «Crime e Castigo». 

A «Coleção Savil» é um quebra-cabeças em matéria de datação mas percorre toda a década de quarenta, repartida por duas editoras lisboetas, A Agência Editorial Brasileira, onde terá começado, e a Livraria Figueirinhas. A coleção, de apenas 20 volumes, duplicada em duas séries de grafismos diferentes, tinha como protagonista um ocioso príncipe oriental de nome Savil que, à semelhança do francês Arsène Lupin, era um bandido com princípios, a contas com bandidos sem eles e com a incompetência das polícias. O sexto volume dá-nos o mais absurdo título de toda a edição policial portuguesa, A História Sem Nome Dum Homem Sem Pernas, bem ilustrada, na edição de 1949, por uma cópia desajeitada da primeira edição, de 1941. O desacerto gráfico foi, aliás, constante em toda a coleção, já contemporânea da «Vampiro», que haveria de requalificar a literatura policial, a partir de 1947. As capas da Savil ou, mais concretamente, sobrecapas, com as suas explícitas cenas dramáticas, de composição cinematográfica, acompanharam a menorização do policial como género literário que, com a honrosa exceção da «Os Melhores Romances Policiais» da Clássica Editora, foi uma constante desde os longínquos fascículos de Sherlock Holmes, de 1909.

SAVIL—GREGOR MÃO DE FERRO

SAVIL—O PENITENCIÁRIO 1022

SAVIL—OS FORÇADOS DA ILHA SEM NOME

SAVIL—SAVIL CONTRA SAVIL

SAVIL—UM CRIME NAS RUAS DE NOVA IORQUE

SAVIL—UM HOMEM SEM PERNAS

Fontes
Crime e Castigo, Jorge Silva, Arranha céus, 2019

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O Sol brilhará para todos nós! (4)

1.º de maio 78 constituição

Na campanha de 1978 para as eleições legislativas, as últimas a que se candidatou isolado, o PCP tinha já perdido, nas reviravoltas do PREC, o furor internacionalista a amarelo e vermelho em grafismos que, entretanto, se tinham tornado imagem de marca dos aguerridos concorrentes (e inimigos) do PCTP-MRPP. Era tempo então, para um suave e abrangente nacionalismo a verde e vermelho da bandeira portuguesa que caraterizou, por algum tempo, muita da comunicação visual do PCP. Por entre os milhares de ilustrações e grafismos anónimos que alimentavam a frenética criação do autocolante de propaganda, do apelo ao voto no partido até às reivindicações das organizações sindicais que lhe eram próximas, destacam-se facilmente algumas séries, de rara perfeição visual, com os seus altos contrastes de raiz fotográfica mas desenhados com plasticidade, e grafismo erudito baseado em fontes lineares como a Akzidenz e a Helvética. Se a ausência de assinatura quadrava bem com as exíguas dimensões do objeto e com a crença num coletivismo sem heróis, foi relativamente fácil chegar ao criador destes exemplares autocolantes. 

Artista plástico com obra de pintura, gravura, serigrafia, cenografia, escultura e fotografia, haveria de consumir cinco décadas da sua vida na Fábrica de Sant’Ana, desde o ano de 1936, desenhando maquetas para projetos de azulejaria, concebendo moldes para escultura em barro, em alto ou baixo relevo, pintando painéis e garantindo também a direção dos artistas e artesãos da Sant’Ana. Sempre desvalorizou o seu trabalho de ceramista e pintor de azulejos, e queixava-se de que a rotina da fábrica destruía toda a capacidade inventiva e imaginação. Dizia que «pintar é um acto de felicidade» e montou ateliê na Avenida da Liberdade, onde se tornou um pintor de domingos. Apesar da sua vasta obra na Fábrica de Sant’Ana, o artista e militante comunista mostrava-se frequentemente frustrado, sobretudo pelas encomendas de gosto académico e revivalista adotado pelo SNI ou por arquitetos e decoradores que praticavam a arquitetura da Casa Portuguesa ou o oficial «Português Suave».

Graças à memória de alguns companheiros da militância política dos anos setenta, sabemos que Rogério Amaral (Lisboa 1917-Costa da Caparica 1996) foi o criador destes preciosos autocolantes.

1.º de maio 78 nacionalizações

1.º de maio 78 reforma agrária

1.º de maio 78

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portimão

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Fontes
Elementos para a História da Fábrica de Faiança e Azulejos Sant’ Anna, desde 1741, Gonçalo Couceiro, 2015

O Almanaque agradece a colaboração de José Araújo, Leonardo De Sá, Manuel Quadros Costa e Teresa Dias Coelho.

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O alpinista ilustrado

ARCINDO PORTUGAL 1

Como turistas de sofá que somos agora, viajemos em segurança por estas paisagens deslumbrantes, dos inselberg da portuguesíssima Monsanto aos 3.454 metros de altura do Jungfrau, na Suíça, pelos olhos de um verdadeiro globetrotter do pincel e pioneiro dos nossos contemporâneos urban sketchers. Arcindo Madeira (Coimbra, 1915-Brasil, 2002), foi uma glória das revistas infanto-juvenis dos anos trinta, sobretudo n’O Papagaio, onde refinou o seu grafismo desenhado, tornando-o inconfundível. Emigrado no Brasil desde 1941, onde continuou a trabalhar profusamente em revistas e jornais, Arcindo veio à Europa no Verão de 1958, deixando no jornal O Primeiro de Janeiro desenhos das suas viagens pelo país e pela Europa. Voltaria a Portugal dois anos depois e daqui iniciou nova e longa excursão. As duas séries de crónicas gráficas percorrem vários países do continente nas páginas do diário portuense, a partir de 16 de setembro de 1958, publicadas com o título comum de «Canhenho Dum Artista» e não são mais que o resultado da observação direta nas suas curtas estadias em paisagens de montanha,  sempre em contraponto com as arquiteturas, trajes e costumes das populações autótones. Longe da exuberância da sua produção gráfica para crianças, Arcindo compõe mosaicos de ilustração descritiva, com a mão de profissional batido, confirmada no realismo estilizado, disfarçado de apontamento rápido, e nas múltiplas combinações de escala e composição que nos oferece em cada pedaço deste diário gráfico.

A preferência andarilha de Arcindo por países e localidades com altitudes elevadas, explica-se pelo seu hobby preferido, o alpinismo, de que foi instrutor e praticante durante décadas.

ARCINDO PORTUGAL 3

ARCINDO SUIÇA 6

ARCINDO SUIÇA 10

ARCINDO SUIÇA 11

ARCINDO SUIÇA W

ARCINDO SUIÇA X

ARCINDO SUÉCIA 43

ARCINDO FINLÂNDIA 44

Fontes: Dicionário dos Autores de Banda Desenhada e Cartoon em Portugal, Leonardo de Sá e António Dias de Deus, Edições Época de Ouro, 1999

A tesoura descuidada que cortou os formatos irregulares das imagens não é capricho do Almanaque, mas de um anónimo colecionador que criou um pequeno dossiê de recortes, dedicado ao «Canhenho Dum Artista», encontrado numa feira de alfarrabistas. 

 

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O Sol brilhará para todos nós (3)

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O Almanaque, em rigoroso confinamento algures nas Terras de Idanha, associa-se às comemorações domésticas do 25 de Abril, revelando mais um pedaço da riquíssima coleção de autocolantes de Vânia Sampaio que agora pertence à Biblioteca Silva. Dado o contexto desta coleção, já contado em post anterior, as três coleções situam-se na esfera política do Partido Comunista Português.

A primeira série, de oito autocolantes, constitui uma sequência desenhada dos acontecimentos, antes, durante e após o 25 de Abril, numa narrativa simples e doutrinária. Editada pelo Centro de Trabalho do PCP de Ramalde, freguesia do concelho do Porto, em data incerta, tem um registo aparentemente naif, mas uma excelente qualidade de composição. O verde cadavérico para opressores e o laranja saudável para oprimidos e libertadores, dão o tom á caraterização cartunesca das personagens e tipos sociais.

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A segunda série não tem autoria mas, tal como a seguinte, festeja o terceiro aniversário do 25 de Abril, em 1977. A ausência de traço nas ilustrações, a síntese gráfica das figuras, e as cores planas em impressão direta, evidenciam uma erudição gráfica de parâmetros bastante contemporâneos.

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A terceira série é assinada pela célula de Campo de Ourique do Movimento Democrático de Mulheres (MDM), organização nascida na sequência das Comissões Eleitorais de Mulheres, criadas em 1968 no seio do Movimento de Oposição à ditadura, para as eleições de deputados à Assembleia Nacional. O registo oscila entre o cartune e a bd, ilustrando causas que foram (e algumas ainda são) parte importante da militância política das esquerdas.

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O Sol brilhará para todos nós! (2)

batalha da produção

Vânia colecionava autocolantes. E marcadores de livros, porta-chaves, pins, caixas de fósforos e bilhetes de elétrico com capicuas. E ainda selos, bonecos de gelados, brindes de bolo-rei, botões, leques, etiquetas de fruta, postais, chávenas e copos, medalhas e miniaturas. Mas o colecionismo não era o seu único hobby. A cerâmica era outro, manifestação de uma carreira artística frustrada pela família, que não a deixara cursar as Belas Artes. Acabaria por se licenciar em Farmácia e trabalhou como analista quase toda a vida no hospital Pulido Valente. Pertenceu ao MUD Juvenil e foi militante do Partido Comunista Português. Vânia nasceu em 1929, em Seia e o seu exótico nome, à época, deveu-se à paixão que a mãe tinha pelos livros de autores clássicos, como O Tio Vânia, peça teatral do escritor russo Tchékhov. Vânia faleceu em Lisboa em 2007. A sua coleção de autocolantes, cerca de 4.500 exemplares, relacionada com o universo ideológico e partidário do PCP nos anos do PREC, pertence agora à Biblioteca Silva. A difusão pública deste acervo, de que a série de posts «O Sol brilhará para todos nós!» dá o primeiro passo, é um merecido tributo à memória da colecionadora Vânia Amália Sampaio.

A quantidade incomensurável de propaganda política e a sua espantosa pulverização geográfica e ideológica, após o 25 de Abril, foram uma janela de oportunidade para milhares de artistas amadores que traçaram com entusiasmo palavras e imagens em pequenos retângulos de papel autocolante, rapidamente impressos em gráficas amigas, repartidos por células e comitês, oferecidos ou vendidos com convicta militância pelos camaradas, em escolas, empresas e ruas. Ajeitando a mão pelos cartunistas da moda ou copiando os camponeses e operários heróicos do realismo socialista soviético, ilustres desconhecidos, sem escola nem estilo, faziam gato-sapato das leis da perspetiva, da anatomia do corpo humano, ou das mais elementares regras de composição tipográfica, numa inocência desenhada que foi o espelho exato da inocência de fazer política nos tempos do PREC.

DAMAIA

MOMPOR

SEIXAL

SAAL TAVIRA

TIMEX

SEIXAL RA

V N GAIA

viva o povo trabalhador

TUDOR

cedofeita

MÓVEIS BAÍA

17 TMG

ALENQUER

FUNDOS EM LOURES

UJC

 

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Romance

ROMANCE 18

«Os Caminhos da Felicidade», Romance n.º 18, 3 de maio de 1958, Aguiar & Dias Lda., Carlos Alberto Santos

«Ela sofria tanto de ser pobre que só nutria uma ambição: desposar alguém que a arrancasse ao meio onde vivia. Mas não é fácil renegar os seus.»

Inserto no conto «Juventude  do Coração» no número 6 da revista Romance — Contos e Novelas, este lead é uma justa síntese das toneladas de novelas e romances que replicaram, ao longo de décadas, a história universal da Gata Borralheira. Tal abundância tinha os seus cultores nacionais, mas era importada sobretudo de Espanha e Itália, abastecendo uma miríade de publicações nacionais que apostava na produção barata mas, ainda assim, atraente ao olhar do público feminino. A Romance, datada de 1958, seria uma curiosa antecessora de um género que atingiria o apogeu, já nos anos sessenta, a inolvidável fotonovela. Com 32 páginas e um formato generoso a rondar o A4, a Romance foi um fenómeno editorial fugaz, conhecendo o Almanaque 23 números, com publicação semanal ao sábado. 

(Quanto à rapariga da história, acabou por ficar com o rapaz pobre e de bom coração, renegando o fidalgote rico e má rês por quem se embeiçara no início do conto.)

ANÚNCIO 2

O que significava, para o editor da Romance, ser um «desenhador hábil» argumento suficientemente relevante para constar de vários anúncios insertos na revista? provavelmente um artista capaz de representar uma cena passional com qualidade narrativa e uma anatomia exemplar, um ilustrador, portanto, capaz de ombrear com um Emilio Freixas, ilustrador espanhol especialista da literatura cor de rosa da época. O género teve entre nós um cultor de grande gabarito, visita regular deste Almanaque: o «hábil» Carlos Alberto Santos (Lisboa, 1933-Lisboa, 2016), uma verdadeira máquina de ilustrar que alimentou a prolífica editora Agência Portuguesa de Revistas durante duas décadas, em todos os temas possíveis da literatura popular, da guerra ao faroeste, do soft porno ao histórico, do policial à espionagem. Pela Romance pontuaram outros talentos, sem biografia reconhecível, como um Gayo, na capa do número 17. As ilustrações do miolo da revista, impressas a preto em sofrível papel, foram, na quase totalidade, criadas por Carlos Alberto Santos, que repartia as capas da Romance com outros dois portugueses, José Manuel Soares (São Teotónio, 1932-Costa da Caparica, 2017) e José Antunes (Lisboa, 1937-Lisboa, 2010), artistas gráficos talhados na ilustração narrativa, afeiçoada à banda desenhada e às encomendas da indústria publicitária. O realismo desenhado exige, no entanto, mão disciplinada e uma visão cinematográfica, que só tiveram realização plena com Carlos Alberto. Comparem-se as capas dos números sete e nove para aferir o virtuosismo deste e as tropelias anatómicas de José Antunes. Após a euforia modernista das décadas de 20 e 30, o verismo pictórico voltava a ser peça fundamental para conferir à literatura do coração os standards de beleza, masculina e feminina, que as concorrentes fitas de Hollywood praticavam nos cinemas de Lisboa e Porto.

ROMANCE 2

«Cartas antigas», Romance n.º 2, 11 de janeiro de 1958, Aguiar & Dias Lda., José Antunes

ROMANCE 4

«O amor era mais forte», Romance n.º 4, 25 de janeiro de 1958, Aguiar & Dias Lda., José Antunes

ROMANCE 6

«O pássaro de fogo», Romance n.º 6, 8 de fevereiro de 1958, Aguiar & Dias Lda., José Manuel Soares

ROMANCE 7

«O elefante de jade», Romance n.º 7, 15 de fevereiro de 1958, Aguiar & Dias Lda., Carlos Alberto Santos

ROMANCE 9

«Amar é fácil», Romance n.º 9, 1 de março de 1958, Aguiar & Dias Lda., José Antunes

ROMANCE 12

«Não passou dum sonho…», Romance n.º 12, 22 de março de 1958, Aguiar & Dias Lda., José Antunes

ROMANCE 15

«Um beijo dado a Ângela», Romance n.º 15, 12 de abril de 1958, Aguiar & Dias Lda., Gayo

ROMANCE 17

«Um homem pacífico», Romance n.º 17, 26 de abril de 1958, Aguiar & Dias Lda., Carlos Alberto Santos

ROMANCE 20

«A filha do professor», Romance n.º 20, 17 de maio de 1958, Aguiar & Dias Lda.

ROMANCE 23

«Milagre de amor», Romance n.º 23, 7 de junho de 1958, Aguiar & Dias Lda.

 

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