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histórias da ilustração portuguesa

As gavetas de Pavia

 

16,5 x 23 cara 3

«Os seus trabalhos traziam a marca da segurança e do definitivo, mas ele não era um espontâneo, antes um torturado da execução. As experiências e tentativas eram-lhe constantes, por vezes cheias de dolorosa luta na procura de outros caminhos, que abandonava sem os chegar a revelar. Tudo isso ia encher as vastas gavetas duma cómoda no quarto em que vivia — gavetas em que o espaço sobrava, pois nada mais tinha para lhe meter dentro senão papéis e sonho.» 

Roberto Nobre, »O drama de Manuel Ribeiro de Pavia», in Vértice, 164, Maio 1957

O conteúdo, comprovadamente vasto, das gavetas desta célebre cómoda, desapareceu sem deixar rasto e terá sido partilhado pelas pessoas mais próximas de Manuel Ribeiro de Pavia (Pavia, 1907-Lisboa, 1957), nomeadamente aqueles que o acompanharam nos seus últimos momentos. Parte do mistério esclareceu-se com a circulação, nestes dois últimos anos, de cerca de duas centenas e meia de originais e litografias numa conhecida leiloeira online. Este magnífico tesouro do mais icónico ilustrador do Neorrealismo português, teve origem no espólio de Armando Vieira Santos (1903-1971), historiador de arte e um dos fundadores da Cooperativa dos Gravadores Portugueses. Armando, amigo próximo de Pavia, estava presente na fatídica noite de 19 de março de 1957, quando o artista, no quarto da pensão onde residia há muitos anos, sucumbiu a uma pneumonia. No imenso conjunto de testemunhos sobre Pavia publicado na revista Vértice logo após a sua morte, Armando Vieira Santos, num texto que tem por título «A gaveta mágica» relata com minúcia o processo e o destino final dos trabalhos que Pavia laboriosamente traçava noite dentro: «Após a dramática morte de Manuel Ribeiro de Pavia, ao inventariar-se o seu espólio artístico, mãos cuidadosas de amigos retiraram dali mais de mil e duzentas folhas de papel!» 

Muita da obra impressa de Pavia tem equivalentes na miscelânia de papéis que se encontravam nas gavetas. Alguns indiciam esboços ou estudos para livros posteriormente publicados, incluindo uma das suas obras mais célebres, o álbum Líricas, de 1950. Geralmente sem data e assinatura, os estudos, apresentam-se com humilde crueza, assumindo as hesitações da grafite, visíveis por entre a caneta e a tinta da china  finais, e percorrem os temas caros a Pavia, com relevância para as suas sonhadas mulheres, e ainda uma série de desenhos eróticos, temática desconhecida até agora na vasta obra gráfica do artista. A laboração contínua sobre os mesmos assuntos e registos permitia um vasto repositório de soluções para futuros trabalhos e contribuiu seriamente para a perceção unitária da sua obra, toda ela traçada e pintada unicamente sobre papel. Do obsessivo labor de Pavia resultava ainda a utilização frequente dos dois lados do papel e os versos de provas litográficas, uma dádiva para os felizes possuidores destes originais.

16,5 x 23 cara 2

SEC 04

24,5 x 37,5

PUB582

Instituto Pasteur, Os Professores Divertem-se!, Programa da Récita dos Finalistas de Medicina, Lisboa, 1954

16,5 x 23 velho

SEC 10

14 x 21,5 litoral a oeste

portugalia 12, 13

frente ao mar

23 x 33,5 não se pode ser neutro em bagdad

INQUÉRITO 07

21,5 x 33,5

004

Álbum Líricas, texto de José Gomes Ferreira, Editorial Inquérito, 1950

21 x 30,5 erótica 1

21 x 30,5 erótica 2

21 x 30,5 erótica 3

21 x 30,5 erótica 4

Fontes:

Revista Vértice, n.º 164, maio de 1957

Pavia – Comemorações do Centenário do Pintor Manuel Ribeiro de Pavia, Câmara Municipal de Mora, 2008

 

 

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Servos da Gleba

O Neorrealismo português, considerado habitualmente parte da terceira geração modernista, é essencialmente literário. Alves Redol (Vila Franca de Xira, 1911-Lisboa, 1969) introduziu-o em Portugal com o romance Gaibéus (1939), nome dado aos camponeses da Beira que iam fazer a ceifa do arroz ao Ribatejo, em meados do século XX. Fanga, de 1943, romance síntese do empenhamento político de Redol, retrata a precária existência da população das lezírias, em luta contra a fome e a opressão. Em seis espantosos originais, para uma edição especial de Fanga, nunca publicados, a que o tempo vai roendo as cores vivas das anilinas, Manuel Ribeiro de Pavia (Pavia, 1907-Lisboa, 1957) compõe sagradas famílias de patorras descalças, que colhem na sombra protetora das árvores alívio para o sol inclemente da campina. Labutando e folgando, a arraia-miúda do Ribatejo retrata o Portugal rural pobre dos anos 40, carne para canhão dos senhores da terra. São ilustrações de uma asfixiante densidade gráfica, rara na obra de Pavia, o mais apreciado ilustrador neorrealista português.

Fontes

Tese de mestrado A obra de Alves Redol para Crianças, de Anabela de Oliveira Figueiredo, Universidade Aberta de Coimbra, 2005

Os originais são uma cortesia de António Redol

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As noites longas de Manuel Ribeiro de Pavia

Alentejo não tem sombra, Eduardo Teófilo, Portugália Editora, 1954

Noite dentro, uma figura franzina e de sorriso amargo recolhia ao seu quarto numa modesta pensão da Rua Bernardim Ribeiro, em Lisboa e, muitas vezes tendo como jantar apenas um copo de leite, sentava-se ao estirador a encher papéis de sonhos e ilusões. Que desenhava o artista nas folhas que acabavam invariavelmente nas vastas gavetas da cómoda, algumas delas laboriosamente retocadas para ilustrar capas de livros de poetas e prosadores amigos? A dura faina das gentes do mar e do seu Alentejo natal, ceifeiros e ceifeiras orgulhosos e expectantes à sombra de nodosas azinheiras. E mulheres! As mulheres que Manuel Ribeiro de Pavia (Pavia, 1907-Lisboa, 1957) nunca teve, mães e companheiras, a esconder fome e sede de amores que a infância sofrida e a vagabundagem pela cidade lhe negaram. Desenhou-as às centenas, a lápis, carvão ou aguarela, sempre sobre papel. Corpos redondos e maciços, lábios carnudos, pés e mãos de gigante, olhos líquidos presos no leitor, a povoar a solidão do quarto e da vida. São neorrealistas, sim, pelo seu momento histórico, mas de um Neorrealismo lírico, sem sombra de pecado, povoando a literatura de uma geração inteira que partilhava com o artista o sonho dos amanhãs que cantam.

Alentejo não tem sombra, Eduardo Teófilo, Portugália Editora, 1954

O pecado invisível, Patrícia Joyce, Editora Sociedade de Expansão Cultural, 1955

Agonia, Manuel do Nascimento, Editora Sociedade de Expansão Cultural, 1954

Dádiva, Luís Amaro, Portugália Editora, 1949

Revista Ecos, Instituto Pasteur, 1957

Ilha Deserta, António de Sousa, Editorial Inquérito, 1954

Alvorada, Manuel Mendes, Editora Sociedade de Expansão Cultural, 1956

Neblina, César dos Santos, Editora Sociedade de Expansão Cultural, 1956

Revista Ver e Crer 48, abril 1949

As ilustrações foram restauradas digitalmente

Fontes

Pavia, Câmara Municipal de Mora, 2007

Revista Vértice n.º 164, maio 1957

Ilustração & Literatura Neo-Realista, catálogo, Museu do Neo-Realismo, 2008


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Pavia africanista

Pedra de Feitiço, Ferreira da Costa, Editora LEN, 4.ª ed., 1945

Manuel Ribeiro de Pavia (Pavia, 1907–Lisboa, 1957), foi o expoente da ilustração neorrealista portuguesa. Amigo e companheiro de tertúlia nos cafés do Chiado, Pavia foi o capista eleito dos escritores e poetas seus contemporâneos. A lista é impressionante: Alves Redol, Aquilino Ribeiro, Eugénio de Andrade, Fernando Namora, Ferreira de Castro, José Gomes Ferreira, Júlio Graça, Domingos Monteiro, Faure da Rosa. Mais conhecido pelas ilustrações sobre o Alentejo, a sua generosidade estendeu-se a um género literário emergente nos anos quarenta, os romances e relatos de viagens na África colonial portuguesa. Ilustrou Ferreira da Costa, em reedições sucessivas de Na Pista do Marfim e da Morte e Pedra do Feitiço, e várias obras de Castro Soromenho, onde se destacam Noite de Angústia, de 1943, e A Maravilhosa Viagem dos Exploradores Portugueses, obra em fascículos colecionáveis onde assinou também o grafismo.

 Pavia retratou uma África voluptuosa, mágica, inquietante e caricatural. Os corpos de homens e mulheres saturam as ilustrações, mas a nudez é casta, pitoresca, pintada a tinta da china e guache branco sobre papel, imitando a técnica da gravura sobre madeira. Tinha o sonho de criar extensos murais, à semelhança dos seus ídolos mexicanos Rivera e Siqueiros, e acabou por os concretizar em África, onde, de resto, nunca esteve. Dois painéis de azulejos que pintou na fábrica da Viúva Lamego, em Lisboa, decoram um edifício da autoria do arquitecto Francisco Castro Rodrigues, na cidade do Lobito, em Angola. A Pavia não interessavam os estigmas do colonialismo. A sua visão ingénua de África permitiu capas para uma série de sete cadernos editados pela Sociedade de Geografia de Lisboa que ensinavam aos novos colonos, emigrantes da metrópole, as boas práticas colonizadoras.

Fontes

Pavia, Câmara Municipal de Mora, 2007  /  Revista Vértice, n.º 164, Maio 1957  /  Manuel Ribeiro de Pavia, catálogo, Casa de Cultura de Mora, 1996

Homens Sem Caminho, Castro Soromenho, Editorial Inquérito, 1946

A Maravilhosa Viagem dos Exploradores Portugueses, Castro Soromenho, Editora Terra, 1946

Rajada e Outras Histórias, Castro Soromenho, Portugália, 1943

Calenga, Castro Soromenho, Editorial Inquérito, 1945

Terra Quente, Alexandre Cabral, Ed. autor, 1953

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