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histórias da ilustração portuguesa

O Papagaio do Capitão Tom

O Papagaio do Capitão Tom não dizia palavrões. Era bicho educado e preocupado em dar sólida formação moral às crianças com quem brincava. Era, claro, um papagaio católico. Nasceu a 18 de Abril de 1935 e foi pontualmente semanal durante 14 anos. O Papagaio – revista para miúdos, foi a primeira grande  realização da imprensa infantil católica, publicada pela empresa proprietária do magazine Renascença. Fez parte de uma época dourada das revistas infantis portuguesas que entretiveram e educaram nos anos 30 o terço da população portuguesa abaixo dos 14 anos (15,6% na atualidade). Fundado e dirigido e pelo famoso escritor infanto-juvenil Adolfo Simões Müller, O Papagaio reuniu um excecional conjunto de talentos nacionais. Grandes ilustradores nasceram ou passaram pela revista. José de Lemos, que ocuparia gradualmente o papel de Tom, Ilberino dos Santos, Rudy,  José Viana, Vasco Lopes de Mendonça, Arcindo Madeira, Méco, Júlio Resende (recentemente falecido) e José Ruy. Apesar da preferência pela matéria-prima nacional, O Papagaio teve a honra de publicar pela primeira vez em 1936, fora dos países francófonos, as aventuras de um certo repórter Tintin.

O Capitão Tom era um destemido pirata brasileiro que empreendeu a aventurosa travessia do Atlântico em 1926, e arrasou a capital lusa com uma aclamada exposição de caricaturas em 1928, tornando-se um dos mais fascinantes personagens das artes gráficas portuguesas. Tom, Thomaz de Mello (1906, Rio de Janeiro-Lisboa, 1990), iniciou-se na literatura infantil com o Tiroliro, suplemento infantil de A Voz, também de inspiração católica. No Papagaio foi um verdadeiro faz-tudo, responsável pelo grafismo inicial, ilustrações e histórias aos quadradinhos, com destaque para a série de aventuras do azarado inventor Sabichão em calças pardas. As suas capas para os primeiros números foram uma das faces mais criativas do Modernismo português, com os seus palhaços, crianças e papagaios em composições bidimensionais de cores primárias, fundos planos e cabeçalhos mutantes que acolitavam graficamente a ilustração. Ao número 303, Adolfo Simões Müller abandonou a revista para começar uma nova aventura ao leme de nova revista infantil, o Diabrete. A saída de Müller ditou o lento declínio d’ O Papagaio, que se extinguiu ao número 722, corria o ano de 1949. A miudagem preferia claramente os atraentes quadradinhos das coboiadas d’ O Mosquito.

Captain Tom’s Parrot

Captain Tom’s Parrot never used foul language.  He was a refined bird and concerned about providing a solid moral education to the children he played with. He was a Catholic parrot, of course.  He was born on 18 April 1935 and appeared reliably every week for 14 years. O Papagaio (The Parrot) was a magazine for kids and the first major Catholic children’s publication. It belonged to the golden age of Portuguese children’s magazines that entertained and educated a third of Portugal’s under 14 year olds (15.6% currently). Founded and edited by Adolfo Simões Müller, a famous children’s literature author, O Papagaio brought together an outstanding group of Portuguese illustrators and writers. Although Portuguese material was preferred, O Papagaio had the honour to publish for the first time outside French-speaking countries in 1936 the adventures of a certain reporter called Tintin.

Captain Tom was a daring Brazilian pirate who undertook the adventurous journey across the Atlantic in 1926 and won over the capital of Portugal with his much-acclaimed exhibition of caricatures in 1928. Tom or Thomaz de Mello (Rio de Janeiro, 1906-Lisbon, 1990), who became one of the most fascinating artists in Portuguese graphic arts, began his career in children’s literature with Tiroliro, a supplement for youngsters that came out with another Catholic newspaper, A Voz. He was the Jack-of-all-trades at O Papagaio and responsible for the preliminary graphics, illustrations and comic strip stories. His covers for the first issues belong to the most creative phase in Portuguese Modernism with their clowns, children and parrots in two-dimensional compositions, primary colours, plain backgrounds and ever-changing headers that intermingle with the illustrations. Adolfo Simões Müller left the magazine after No. 303 to start a fresh adventure as the head of O Diabrete, a new children’s magazine.  This led to the slow decline of O Papagaio and it eventually closed with No. 722 in 1949. Children clearly found Western comic strips in rival magazines more appealing.

Fontes Sources

Falando do Ofício, SocTip Editora, 1989

Portugal Século XX – 1930-1940, Joaquim Vieira, Edição do Círculo de Leitores, 1999

Os Comics em Portugal, António Dias de Deus, Cotovia/Bedeteca de Lisboa, 1997

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4 Responses

  1. Gisela Miravent diz:

    Que colorido fantástico, acho que os miúdos hoje não têm a sorte de contar com publicações vocacionadas para a infância e juventude; o que vou vendo são espécie de folhetos comerciais, infantilóides e básicos ou pensados à imagem e semelhança do pequeno mundo adulto, como se fosse desejável atingir semelhante estágio num instante… Nada puxa à imaginação… Viva o papagaio, o diabrete e o tiroliro, quando tiver um trio de periquitos já sei como lhes vou chamar!

  2. Filipe Oliveira diz:

    Bom dia Gisela,

    Assim de repente lembro-me de uma excepção… http://www.planetatangerina.com/pt

  3. Olá Filipe,
    Em tempos já fizemos revistas para miúdos — e seria um projeto que adoraríamos fazer de novo (e de uma maneira nova) — mas, neste momento, o que se vê em banca são mesmo quase só projetos como os que a Gisela descreve, (olá Gisela!)

    Infelizmente a Gisela tem razão. As revistas que há (e as únicas que sobrevivem) são as que estão associadas a canais ou séries de desenhos animados da televisão e nada assim de muito inovador.
    Há a excepção da Visão Júnior mas é um projeto de outra espécie…

    Os franceses têm dezenas de projetos de imprensa para crianças quase todos de grande qualidade. É uma pena que por cá… (e não vale a pena dizer mais).

  4. Gisela Miravent diz:

    Olá Isabel, desde já um beijo e votos de Feliz Natal para todo o Planeta Tangerina (um Ano Próspero de ideias não duvido que vá ser) . E o Filipe Oliveira também tem a sua quota parte de razão. O Planeta é mesmo uma excepção que muito apreciamos cá em casa. Mesmo que não em formato de revista, mas quem sabe até está para breve? ;-))

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